Sobre racismo e protagonismo

Do blog A Estrada Amarela

Domingo, 27 de abril de 2014. Na TV um programa de boa audiência fazia uma homenagem a um de seus dançarinos, assassinado pela PMRJ. Não quero aqui entrar na questão do que foi ou não dito pelas pessoas que lá estavam, se foi bom ou não. Isso é um outro assunto. Eu quero falar aqui sobre protagonismo.

Douglas, o dançarino assassinado, era preto e favelado. E morreu por causa disso. Os pretos favelados desse país morrem por serem pretos e favelados. Não interessa muito como eles levam as suas vidas, ser preto e favelado aqui é motivo suficiente pra alguém ter o direito (ou o dever quase cívico, segundo muitos) de meter-lhe uma azeitona na testa. Somos um país racista e classista, e acho que sobre isso não há muito o que se discutir. As estatísticas dão conta de encerrar qualquer argumento contra esta afirmação.

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Depois da morte do Douglas, que morreu como tantos iguais a ele morrem todos os dias, um outro preto e favelado, Rene Silva, do Voz da Comunidade, ativista atuante na rede, postou uma foto segurando um cartaz escrito “eu não mereço morrer assassinado”, seguindo o mote da campanha feminista em que dizíamos: “eu não mereço ser estuprada”.

Até aí tá tudo certo, tudo no seu devido lugar. Rene é negro, mora no Complexo do Alemão, e ainda é ativista. Quais são as chances que ele tem de ter o mesmo fim do Douglas? Muitas! Ele, e todos como ele, têm total direito de segurar esse cartaz, porque esse cartaz diz o seguinte, nas entrelinhas: as chances reais de eu ser assassinado são enormes, e eu não mereço isso.

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Vamos ao segundo ponto: no programa de TV de hoje, tinha gente pra dedéu. Foi bonito ver um programa inteirinho homenageando um pretinho funkeiro favelado. Em quase 37 anos de vida eu nunca vi isso. Eles, os invisíveis, estavam lá, sendo protagonistas na TV, em rede nacional. Coisa linda! A única coisa que ralmente me incomodou muito foi quando todos os presentes, incluindo brancos ricos, ergueram um cartaz igual ao do Rene. Não, gente! Tá errado. A Carolina Dieckmann corre risco quase nulo de ser assassinada nos mesmos termos. Na verdade, eu me arrisco a dizer que não há possibilidade disso acontecer. Como eu também não corro esse risco. Porque diabos eu levantaria um cartaz dizendo que “eu não mereço morrer assassinada” se, em comparação aos douglas todos, as minhas chances são pífias? O protagonismo não é meu. Eu posso tomar essa causa para mim também, mas eu nunca vou poder ser protagonista dela. Nunca! E eu não tenho sequer o direito de tentar. Eu posso fazer o meu protesto junto com eles, mas sem o EU. Não é sobre mim, embora me doa; mas por mais que me doa, nunca vai doer igual como dói neles. Não é e nunca será sobre mim!

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Neste mesmo domingo, Daniel Alves, jogador brasileiro que atua na Espanha, protagonizou mais um episódio escrotíssimo de racismo. Estava pronto para bater um escanteio quando jogaram bananas nele. Daniel foi fodástico. Pegou a banana, comeu, e bateu o escanteio em seguida. Foi do caralho! Foi tipo um: “eu vi, eu entendi e fodam-se vocês racistas de merda!”. Eu achei a coisa mais sensacional do mundo o que ele fez! Do caralho!

Os episódios de racismo no futebol têm se multiplicado ultimamente, a coisa saiu completamente do controle e precisa mesmo ser combatida, com toda e qualquer ação possível.

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Não sei como começou o que veio depois, mas a primeira foto que eu vi foi do Neymar. Ele e seu filho numa foto, com bananas, seguida da hashtag #somostodosmacacos. Houve quem criticasse o Neymar por isso ou por aquilo, houve quem dissesse que ele só estava fazendo marketing (como se ele precisasse), que no passado ele tirou o corpo fora quando sofreu racismo também (daí a galera esquece que o moleque é uma criança ainda, que só tem vinte e poucos anos e fica cobrando dele uma maturidade que não cabe). Mas o que interessa é que o Neymar pode pegar o protagonismo dessa causa pra si. Eu não tenho nenhum direito de criticá-lo por isso. Não vou eu aqui, branca, querer dizer a um não branco como ele deve lutar, ou se deve, pelo racismo que ele sofre, provocado por gente branca como eu. Eu posso até não concordar (muito embora nem em pensamento eu me dê esse direito), mas quieta, no meu canto, sem atrapalhar, sem querer ditar regras de como ele, que sofre racismo, deveria lutar contra isso, ou – pior! – se ele deveria ou não fazer isso. Eu nunca fui chamada de macaca. Eu nunca vou ser chamada de macaca. Eu não tenho como avaliar como é ser chamada de macaca. Então me cabe apenas me solidarizar e lutar contra o racismo, que eu – mesmo sendo branca – repudio. Mas de outra maneira que não dizer ao coleguinha como ele deve lutar contra mim! (Sim, contra mim! Eu, pessoalmente ou conscientemente, posso não oprimir, mas eu sou parte da parte opressora!)

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Eis que surge, então, a grande pérola do dia. Um casal rico, famoso, branco pra dedéu, fazendo o quê, meuzamigos? Querendo ser protagonistas dessa luta! Valhamedeus, socorro! Naonde que Angélica e Luciano podem usar uma a tal hashtag supracitada? Me digam, em que planeta alguém chamaria essas duas criaturas de macacos?

Tá muito errado isso aí! Muitos de nós, brancos, queremos ajudar na luta contra o racismo? Sim, queremos! Façamos isso, sempre, incessantemente, só sem querer ocupar o lugar dos negros nessa luta. Os protagonistas são eles. São eles que sofrem, são neles que jogam bananas. Não tenhamos a pachorra de levantar cartazes dizendo que não merecemos morrer assassinados, quando são eles que morrem. Não gritemos que somos todos macacos, porque são eles que são chamados assim. Por favor, vamos tirar os nossos umbigos do caminho e deixar quem sofre com isso passar com a sua dor e a sua cor.

A gente pode gritar sim, a gente pode fazer muito, mas a gente precisa entender que há momentos em que nós devemos ser coadjuvantes. Na luta contra as desigualdades, contra a opressão, todos são bem vindos, tem função pra todo mundo, mas é preciso que se saiba o seu devido lugar.

10 comentários em “Sobre racismo e protagonismo

  1. Em todo lugar tem aproveitador!
    É a mesma coisa que ouvir o apresentador Paulo Fernando vulgo “Bad Boy”, dizer que é visceralmente contra a violência. Quem só grita aos quatro cantos e chama todo mundo de vagabundo, todo mundo não, desde que não seja seu amigo.
    Diz que não tem ninguém com faixa na frente da radio dizendo que ele não presta. Ele diz que ele é bom no que faz, já que não tem 95% de audiência… até a Valesca Popuzuda faz sucesso!
    Sou obrigado a ouvi-lo, já que sou cadeirante e ouvinte 24 h da Radio Clube, já tentei falar em outros veículos e não consigo. Dependo do blog para tentar fazer minha reclamação chegar até ele.
    A situação é a mesma, todo lugar tem aproveitador!

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  2. Faz sentido, mas também tem gente que adora arranjar motivo para cutucar alguém, ainda mais se for global. Vamo devagar. Melhor soar meio marqueteiro, duvidosamente, da parte dos brancos do que,mais do que soar, ser declaradamente omissão mesmo, quando um preto fica calado, como tantas vezes ficou Pelé, por exemplo. Nesse caso, vale mais a força à causa, eu não meteria o pau na Carolina Dieckman rss rss, nesse caso. O cartaz fica meio estranho na mão dela, tudo bem, talvez lhe tenha faltado habilidade para apoiar de outra maneira.

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  3. Se eu disser que gosto das imagens de Luciano e Angélica (no caso Daniel) ou de Carolina e Fernanda (no caso do dançarino), estaria mentindo. Isto por que, não gosto de pessoas famosas, não sei por que razão, tenho uma grande antipatia por este grupo de humanos.

    Todavia, cercear o direito de expressão e luta (no caso o racismo) a um grupo, soa extremamente preconceituoso e, acima de tudo, nos indica uma aceitação sem qualquer suspeição das normatizações e normalizações imposta por parte da ciência.

    Para terminar pergunto: como posso cobrar das pessoas respeito as diferenças, se aceito passivamente ser subjetivado sobre a existência de raças? Por que aceito a existência de raças sem questionar o processo de constituição deste objeto? Existe raças? Para que enquadrar-me em grupos A ou B? Estes grupos existem ou são forjados para que ciclos racistas continuem a existir?

    Para pensar…

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  4. Informe:

    Salgueiro 0 x 1 Fortaleza

    Salgueiro é um time pouco criativo que vive de cruzamentos (chuveirinho) na área.

    Fortaleza tem uma zaga apenas razoável (avaliação preliminar), que cabeça quando o meio cedeu espaço para o time do Salgueiro. Em compensação, para os níveis da série C, o time apresenta uma transição interessante da zaga – meio – ataque.

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  5. e pasmem, a grife do Luciano Huck lança camiseta com a frase “somos todos macacos” . Esse narigudo não perde nenhuma oportunidade de lucrar , quando ele sofre uma saraivada de críticas na internet, ainda responde que não entende essa perseguição a ele.

    Pra quem não acredita, segue o link

    http://entretenimento.br.msn.com/famosos/grife-de-luciano-huck-%C3%A9-criticada-ap%C3%B3s-lan%C3%A7ar-camisetas-com-frases-contra-o-racismo

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  6. É por isso Andrea que trago estás perguntas. A quem interessa a formação de guetos de cor? Ora, por que aceitar pacificamente o discurso da existência de raça, como se a existência desta fosse inquestionável? Eu, particularmente, prefiro não enquadrar-me… apesar disso ja ser um enquadramento.

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  7. Penso que as celebridades servem para dar impulso as campanhas, se agem com oportunismo, já é algo pessoal de cada um.

    Agora o certo mesmo é punir, punir com rigor, só mememe não dá.

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  8. Quando causas relevantes (e até mesmo históricas) adquirem a mera condição do “politicamente correto”, que é o falso engajamento tão vazio quanto pastel de feira, por meio da exibição de slogans e cartazes por parte de quem sequer polemiza (muitos dos globais acima pontificam ou já pontificaram em novelas de cunho manoelcarlista onde os papéis sociais dos negros são pejorativamente reforçados). São simpáticos à causa? As imagens, pelo menos, não mostram o contrário. São partidários ou apoiadores da mesma? Aí já é outra história…

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  9. Há de se respeitar a opinião contida na postagem, ainda que esteja quase tão penetrada de intolerância quanto a atitude daqueles que jogam bananas em campo etc,

    E é com todo o respeito a ela, à opinião postada, que opino no sentido de que a autora do texto talvez não tenha entendido toda a extensão da mensagem. Talvez tenha se concentrado demais no aspecto denotativo da imagem.

    Deveras, a meu sentir, a Carolina e os outros de pele clara, além de tirar uma casquinha (aliás, até a autora do texto postado está tirando a sua), estão apenas dizendo que também empunham a mesma bandeira dos que não tem a pele clara, que apoiam a luta. E, naquele momento, efetivamente estão empunhando a mesma bandeira, estão lutando a mesma luta. E o fazem valendo-se do meio com o qual têm mais afinidade.

    Sem contar que se “somos todos macacos” (e somos mesmo), em maior ou menor escala, corremos o mesmo risco. Então, pra mim ela é bem vinda. É bom tê-la ombro a ombro na mesma luta. Além disso, não me parece adequado atacar o aliado, máxime em plena batalha, quando ele está efetivamente combatendo o adversário.

    Demais disso, é preciso atentar que os de pele branca referidos no texto postado também pagam um preço por estar ali, por levantarem os cartazes, por empunharem as bandeiras. E o preço é exatamente este de ser alvo de criticas daqueles que acham que eles não devem estar ali daquele jeito, de receberem as estocadas daqueles que acreditam que eles estão ali somente para obter a tal casquinha.

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  10. Aparentemente o Huck foi oportunista, pois até camisa está vendendo, resta saber se do lucro ajudará alguma instituição que brigue por esta causa de alguma forma.

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