Por Gerson Nogueira
Costumo recordar o raciocínio de um amigo que já não está entre nós sobre a mania que o Pará futebolístico tem de incensar técnicos de meia-pataca. Ofereça um time inteiramente formado por jogadores nativos para qualquer desses treinadores visitantes e ele, de bate-pronto, recusará a oferta e baterá em retirada, dizia o saudoso cronista, com argúcia e .
Nossos dirigentes não estão nem aí para a realidade ululante, mas o fato é que quase todos os técnicos brasileiros se transformaram em figuras jurídicas, montando em torno de si pequenas empresas. Sempre trazem a tiracolo preparador físico, treinador de goleiros, supervisor e – quando permitem – seu próprio empresário de jogadores, isso quando o próprio treinador também não agencia atletas.
Tem sido assim há muitas luas e não há sinal de mudança. Remo e Paissandu adotam uma estratégia de contratações – de técnicos e jogadores – que beira a ingenuidade. Entregam seus destinos a falsos Messias, que desembarcam aqui com um plano de voo definido pelos próprios interesses e negócios. Como ninguém serve a dois senhores, não há como dar certo.
Escrevo sob a inspiração direta da entrevista do técnico Roberval Davino, na sexta-feira, analisando a situação do Paissandu na Série C e seu instável desempenho. Ganhou quatro pontos fora e entregou cinco em casa. Tudo está sob controle, observa o comandante, mas o torcedor deve ser paciente e ter os pés no chão, como se a galera estivesse iludida com o time que tem.
Bobagem. Ao contrário do que parece, o torcedor é a parte mais lúcida da equação. Por isso, teme nova desilusão na Série C. Depois de assumir o Paissandu dois meses antes da competição, avalizando 13 contratações, Davino ainda repete o bordão de que a base da equipe vem do Campeonato Paraense. A manha está em jogar toda a responsabilidade na situação que encontrou na Curuzu, embora o time atual tenha sido montado e treinado por ele.
Para o confronto de hoje na Paraíba contra o fona do torneio, Davino decidiu inventar. Esclareço logo que não sou inimigo de inventores, até tenho respeito por alguns. A questão é saber se o momento pede invencionices, improvisos. Como a inesperada escalação de Pikachu no ataque. Pode até dar certo, afinal o lateral/ala tem habilidade, traquejo e lampejo de atacante. Receio apenas que, em caso de fracasso na tentativa, o jovem atleta venha a ser responsabilizado, como costuma acontecer com os da terra.
No papel, a estratégia de Davino é valorizar a aproximação entre meio-campo e ataque, com passes em velocidade. Sem centroavante de ofício e com um quarteto de baixinhos (Leandrinho, Alex William, Potiguar e Pikachu), o time tende a ser mais técnico e criativo, embora menos presente na área inimiga. A lamentar a ausência de Harisson nesse quarteto e a barração sistemática de Héliton, o mais rápido atacante do elenco.
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Jogadores de futebol não gostam de falar sobre adversários. Seguem um catecismo particular de respeito absoluto aos outros times, mesmo quando a lógica indica caminho oposto. As entrevistas são verdadeiros desfiles de obviedades. Vânderson, normalmente muito centrado e parcimonioso com as palavras, resolveu mudar o tom da prosa. Foi sincero. De fato, além de intruso, o Treze é o pior time da Série C. Não conseguiu vencer ninguém até agora. E, principalmente por não ter o direito de estar no torneio, deveria mesmo ser rebaixado.
Ocorre que esse discurso franco e sem disfarces pode ter dado de bandeja aos paraibanos o combustível que faltava para encarar o Paissandu hoje com a faca nos dentes. Sentindo-se desafiado, o time desanimado de repente se ergue altaneiro, impávido colosso.
A história lembra tantas outras de superação. Técnicos experientes costumam usar isso para atiçar seus jogadores. A dúvida é se, apenas pela vontade de dar uma resposta a Vânderson, o Treze será capaz de mudar seu destino no campeonato.
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Antes de a pira ser acesa em Londres, poucos acreditavam que as chances de ouro para o Brasil se restringiriam ao vôlei de praia, ao judô e ao imprevisível futebol masculino, de tantas frustrações anteriores em Olimpíadas.
Desta vez, porém, a urucubaca parece ter ficado com nossos mais diretos (e ameaçadores) rivais. Espanha e Uruguai enrolaram a bandeira ainda na primeira fase, propiciando à Seleção de Mano um trajeto bem mais tranquilo até a medalha tão cobiçada. Mesmo com alguns apagões defensivos nos primeiros jogos, o time exibe virtudes interessantes.
Oscar, Neymar e Marcelo são as molas propulsoras do time, compensando com sobras as lambanças da defesa e algumas derrapadas do ataque. (Claro que estou escrevendo isso horas antes do confronto com a zebrada Honduras, neste sábado).
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Direto do Twitter:
Júlio Guerra @juliochem – “Que morram Barueri, Boa Esporte e todos esses clubes que estão na vaga de Remo e PSC na série B”.
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Adriano, goleiro do Remo, é o entrevistado do Bola na Torre deste domingo. Começa às 23h45, depois do Pânico na Band. Apresentação de Valmireko.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 5)
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