Por Luiz Guilherme Piva
Não sei se era toda terça ou toda quarta.
Eu descia pedalando contra o vento e parava – o pedal no meio-fio – em frente à banca de revista. Nada no bolso ou nas mãos – era na caderneta do pai.
A Placar voltava comigo sob o sol, presa ao bagageiro, o peito apressado, cheio de alegria e cobiça. Velozes, ubíquos, os olhos se repartiam nas páginas com as fotos de craques, os esquemas de jogo, relatos, lances, cartas, histórias bonitas.
E gols.
As caras dos centroavantes, os braços dos torcedores, dentes, pernas, bandeiras, foguetes, o encapuzado, a fraude na loteria, os campeões de Sergipe, a escalação do Bordeaux. Liminha, Tião Abatiá, Iúra, Vasconcelos, Rio Negro, CEUB, Vantuir, Beijoca, Ramón de Carranza, Brandão, Pio, Perfumo, cores, gostos, tatos, fotos, nomes, a cabeça cheia de sonhos vãos.
Até pensei em crescer e jogar futebol. Ou escrever naquela Redação. Por que não? Não deu.
Depois, tudo cresceu, tudo mudou, o sol se foi, as escolas, os documentos, os amores. Hoje, ainda contra o vento e ainda o vazio no bolso e nas mãos, sigo vivendo.
(Mas nunca mais os mesmos olhos, nunca mais o mesmo sol, nunca aquela alegria, nunca de novo a Placar).
Em vão.
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