Crônica de um barraco aéreo

Por Tiago Maranhão (do blog Madrugada Times)

Eram 2h50 da madrugada (em Brasília), o vôo JJ 8085 tinha decolado quase 8 horas antes do aeroporto de Heathrow, em Londres. A voz rouca do comandante Azzi acorda os pouquíssimos passageiros que cochilavam a bordo do Boieng 777-300. “Faremos um pouso não programado em Recife, por motivos de segurança”, anunciou. “E eu achando que não teria mais pautas de madrugada”, pensei em voz alta.

O comandante continuou: “pedimos desculpas, mas temos a bordo um passageiro fora de controle, houve inclusive agressões contra outros passageiros e contra nossa tripulação, então não temos alternativa, precisamos desembarcá-lo”. Na cabine onde eu estava, a primeira da classe econômica após as poltronas da classe executiva, ninguém sabia do que se tratava, o que não impediu que as primeiras teorias surgissem imediatamente. “Só pode ser um riquinho bêbado lá na primeira classe”, alguém disse mais alto. “Rico acha que pode tudo, enche a cara, faz besteira e a gente que paga”, continuou outra pessoa.

Meia hora depois estávamos pousados no Aeroporto Internacional Gilberto Freyre, de Recife/Guararapes. Logo se formaram longas filas nos banheiros e os ânimos se exautavam. Na cabine atrás da minha, um homem convocava outros  passageiros para uma missão de guerrilha até a primeira classe. “Vamos lá! A gente tem que encher esse filho da p#&@ de porrada! Quem vai comigo?”, dizia de pé, agitando os braços, com os olhos vermelhos de uma noite mal dormida. Foi orientado a se acalmar pela aeromoça, caso não desejasse ser desembarcado também.

Poucos minutos antes do avião pousar, notei que um passageiro da econômica foi acomodado na executiva. Um jovem mulato, de jeans e camiseta, com a expressão assustada. Vício da profissão, fui lá falar com ele e apurar a história. Meu palpite estava certo, ele viajara ao lado do passageiro responsável pelo contratempo. Ou melhor, uma passageira. O rapaz contou que ela tinha pouco mais de 50 anos e já embarcou alterada. “Ela carregava várias sacolas e eu ofereci ajuda, mas ela me xingou… em inglês, porque achou que eu não fosse entender, só que eu moro em Londres”, disse. 

Durante o vôo, de acordo com o relato da minha fonte, a mulher falava alto (sozinha, porque viajava desacompanhada) e logo outros passageiros começaram a pedir silêncio para ela. Ela ignorou e tomou quatro copos (plásticos) de vinho tinto. Bebida que a TAM não deveria ter servido para alguém já tão agitado. Em determinado momento, ela atirou uma necessaire em outra passageira que pediu que ela ficasse quieta. A essa altura (10 mil metros), já tinham se passado mais de 4 horas de vôo e não havia o que fazer com ela (sobrevoávamos o Atlântico Norte).

“Tava todo mundo assutado, tinha gente chorando… foi horrível”, contou o rapaz. O auge da confusão ainda estava por vir, porém. Essa parte da história, também contada pelo rapaz, foi confirmada a bordo por duas aeromoças. Apertem os cintos: a passageira-barraqueira abriu o notebook e começou a ver fotos dela mesma. Pelada. Até aí, ela só chocava (ou agradava, afinal gosto não se discute), os dois passageiros sentados ao lado dela, que viajava na poltrona do meio, no lado direito do avião. O verdadeiro incômodo foi a reação dela, que começou a xingar as próprias fotos, cuspir (cuspir!) no monitor e dar murros no computador.

Uma comitiva de comissários de bordo tentou ver se conseguia controlar a mulher. Mas seguiram-se mais palavrões e cusparadas. Ela precisou ser imobilizada, teve as mãos e pés amarrados com uma “algema” de plástico. O avião precisou despejar parte do combustível antes de pousar em Recife e ainda teria que reabastecer. No total, ficamos 2 horas parados em Pernambuco, onde a passageira foi desembarcada pelos fundos, “para evitar que ela fosse agredida”, segundo um comissário. Às 7h40 da manhã os passageiros que continuaram a bordo aplaudiram o pouso em Cumbica, com 2 horas de atraso, mas uma história aérea a mais para contar.

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