Conexão África (23)

Fifa ensaia sair da era das sombras

Pesquisa do jornal espanhol Marca, pela internet, confirmou o que o mundo já sabe: 92,5% (42.249 votos) dos desportistas querem mudanças nas regras estabelecidas pela Fifa para o futebol, especialmente quanto ao uso de dispositivos eletrônicos para resolver situações duvidosas em campo. A consulta foi feita um dia depois do erro escandaloso do árbitro uruguaio Jorge Larrionda, que anulou um gol legal da Inglaterra contra a Alemanha, em partida válida pelas oitavas de final da Copa do Mundo.
A bola ultrapassou a linha de gol em cerca de 50 centímetros, mas o mediador e seus auxiliares entenderam que ela não havia transposto a marca fatal. O erro da arbitragem causou um prejuízo irrecuperável aos ingleses, que perdiam por 2 a 1 e iniciavam um processo de reação no jogo. Como o gol foi invalidado, o primeiro tempo terminou com a vantagem parcial para os alemães, que consolidariam a vitória na etapa final, marcando mais dois gols.
Sempre que falhas tão absurdas ocorrem, reabre-se o debate sobre a utilização de tecnologia para dirimir dúvidas de jogo. E, como sempre, os dirigentes da Fifa fecham-se na velha (e conveniente) posição de manter tudo como está, em nome da tradição. Joseph Blatter, como Havelange antes, tem o discurso ensaiado: o futebol precisa da polêmica para continuar sendo apaixonante. Com isso, desvia o foco da questão realmente importante. Pode um árbitro interferir de maneira tão grosseira nos destinos de um jogo? Como mediador, não cabe justamente a ele preservar acima de tudo a lisura do embate? A Copa do Mundo já foi palco de equívocos monstruosos, como o célebre gol da Inglaterra contra a Alemanha, em 1966, quando a bola não entrou e o gol foi confirmado.
Na época, nem que quisesse, a Fifa poderia recorrer à tecnologia para solucionar a questão. Hoje, no entanto, o avanço da eletrônica e a miniaturização de câmeras e sensores permitem que qualquer lance seja esclarecido em poucos segundos. Na partida das oitavas, bastaria a Larrionda interromper o jogo e consultar os monitores à disposição do árbitro auxiliar. O mesmo poderia ter sido feito pelo árbitro do confronto entre França e Irlanda, na repescagem europeia, na jogada irregular de Thierry Henry (tocando a bola com a mão) para o gol de Gallas.
Sofrimentos e perdas financeiras incalculáveis seriam evitados com a simples adoção dos moderníssimos equipamentos eletrônicos usados no tênis, no basquete e no vôlei com extrema presteza. Ontem, o presidente da Fifa finalmente deu um passo para sair das brumas do atraso: reconheceu a gravidade dos casos e prometeu rediscutir o uso da tecnologia em partidas de futebol exclusivamente para esclarecer se uma bola entrou ou não. Sua posição representa um significativo avanço para a obscurantista postura da entidade. A partir do momento em que a eletrônica for aceita para lances de gol, estará aberto o caminho para que toques de mão, como o de Luís Fabiano no gol contra a Costa do Marfim, e impedimentos também sejam marcados com precisão, o que impediria, por exemplo, que o México fosse penalizado pelo gol de Tevez na mais deslavada banheira. A consulta à
tecnologia, no fim das contas, contribui para a justiça dos resultados e preserva a posição dos árbitros, cada vez mais desfavorecidos pelo replay dos lances.
Pelo sim, pelo não, Blatter tratou de encaminhar pedidos formais de desculpas às federações da Inglaterra e do México, diretamente afetadas pelos erros. Muito mais que um gesto cavalheiresco, a providência é uma forma de preservar a Fifa, que num futuro próximo pode passar a ser acionada judicialmente por equipes lesadas financeiramente por lambanças de um árbitro. Afinal, o futebol se transformou num negócio tão gigantesco e globalizado que não pode conviver com erros que revelam o mais completo amadorismo.

Lealdade evita corte de Elano

Por enquanto, é apenas especulação restrita a alguns jornalistas, mas o assunto já circula no Centro de Imprensa. Elano, que saiu contundido do jogo contra a Costa do Marfim, ainda não conseguiu se recuperar e corre até o risco de ser cortado. Não jogou contra Portugal e, apesar das indicações de que entraria contra o Chile, foi excluído da escalação. Ontem, chegou a começar o treino, mas voltou a sentir a lesão na perna. Segundo fontes ligadas à comissão técnica, o volante só foi mantido no grupo porque faz parte do núcleo mais próximo a Dunga e Jorginho e é um dos mais leais seguidores da dupla. Não fosse por isso, o corte já teria acontecido.

Passeio sul-americano na África

A passagem do Paraguai às quartas de final, depois de fazer com o Japão o pior jogo desta Copa, confirma o predomínio sul-americano na fase nobre da disputa da Copa. Junta-se a Uruguai, Argentina e Brasil na penúltima fase do Mundial, no melhor alinhamento de seleções do continente desde a profissionalização do esporte. Somente o Chile tomou o rumo de casa mais cedo, ainda assim porque deu o azar de cruzar com o Brasil, um dos gigantes do continente. A classificação paraguaia às quartas pode provocar semifinais inéditas, entre Brasil x Uruguai e Argentina x Paraguai. Em situação oposta, a Europa entra na próxima fase com três representantes e a África com a solitária Gana.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 30)

6 comentários em “Conexão África (23)

  1. SE A MODA PEGA.
    O Pte. da Nigéria proibiu por dois anos qualquer exibição internacional da sua seleção (dele). Pretende o gestor, reformular o futebol nigeriano.
    Vontade expressa, vontade cumprida. Lá é assim.

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