Há alguns dias, a TV a cabo mostrou o filme oficial da Copa de 1986, no México. Confirmei a impressão que tinha na memória: foi a Copa de um homem só. Diego Maradona. Foi o patrão da bola, o grande timoneiro, o supremo comandante das forças argentinas em território mexicano. O time era ele, ele era o time.
Não há quem se arvore a dizer que um lateral ou volante foi decisivo ou pelo menos fez alguma coisa para ajudar na conquista do título. Nada. A soberba atuação do camisa 10 desmoralizou o conceito de futebol coletivo. Mais que qualquer outro, aquele mundial foi dominado e vencido por um craque, representou o triunfo do indivíduo sobre o coletivo.
A história das Copas mostra que outros monstros da bola desempenharam papel fundamental nos triunfos de suas seleções. Garrincha, em 1962, e Romário, em 1994, são exemplos desse destaque individual, mas tiveram a vida facilitada porque integravam bons times. El Pibe fez proezas milagrosas no México, à frente de uma equipe quase medíocre, cujo goleiro (Pumpido) falhava em quase todos os cruzamentos.
Relembro isso em função da excepcional forma do meia-atacante Lionel Messi, um típico camisa 10 da escola argentina, que adora partir em velocidade com a bola nos pés, avançando sobre as linhas inimigas. Do mesmo jeito que Maradona fazia. Se não é tão genial no drible quando seu antecessor, Messi é mais letal como finalizador.
A forte defesa do Arsenal sentiu o gosto disso em pouco mais de 30 minutos, ontem, em Barcelona. Veloz e imprevisível, como deve ser um legítimo fora-de-série, Messi infernizou a marcação, surgindo por todos os lados do campo. Levou pancada, foi marcado por dois ao mesmo tempo e sempre se desvencilhava com a bola limpa. Fez quatro gols, mas podia ter goleado sozinho a equipe britânica. Não seria exagerado dizer que o placar final foi Messi 4, Arsenal 1.
A pouco mais de dois meses da Copa, Messi se apresenta hoje no melhor de sua condição técnica e física. Está no apogeu, como Maradona estava em 1986, inclusive na idade. Tem a vantagem de ser mais atleta no sentido pleno do termo. O que o desfavorece tremendamente é a estranha queda de rendimento quando a serviço da seleção argentina.
Ironicamente, Maradona, seu técnico no escrete, ainda não arrumou jeito de dar a Messi as condições que ele próprio teve para brilhar há 24 anos. Se conseguir, a Argentina põe a mão na taça.
Os gols custaram muito a sair. Somente nos 15 minutos finais, Ananindeua e Paissandu conseguiram estufar as redes. O domínio alviceleste foi quase completo, mas as finalizações eram defeituosas. Com Zé Augusto ao lado de Bruno Rangel, o ataque passou a render. Fabrício também pareceu mais desenvolto que Marquinhos. Além da vitória, Charles deve ter saído satisfeito com as experiências, que podem ser úteis para o Re-Pa de domingo. (Foto: CELSO RODRIGUES)
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 7)

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