Veríssimo: Pequenos detalhes

Por Luiz Fernando Veríssimo (no DIÁRIO de hoje)

Marshall McLuhan (lembra dele?) tinha uma tese sobre a importância do estribo na história do mundo. A invenção do estribo dera, por assim dizer, acesso ao cavalo à aristocracia e inaugurara uma porção de coisas — além, claro, da cavalaria.

Era um exemplo do pequeno detalhe que muda tudo, no caso o transporte humano e a maneira de se fazer guerra. Sem o estribo não existiriam nem Napoleão nem Don Quixote nem estátuas equestres, e de nada adiantaria ao Ricardo III de Shakespeare implorar por um cavalo, pois só um cavalo não o salvaria. Implicitamente, o que ele gritava era “Meu reino por um cavalo — com estribo!”.

Pula daí para o mundo do jazz. Não me peça explicações, o texto é meu e eu pulo para onde quiser.

Até hoje se credita a gente como Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell e Thelonious Monk a invenção do be-bop no fim da década de 40. Mas o que deu, literalmente, impulso à nova maneira de se fazer jazz foi uma revolução na levada da bateria inventada por Kenny Clarke.

Um pouco por autopreservação — seria impossível acompanhar o ritmo vertiginoso de algumas das composições do bop com o quatro por quatro tradicional marcado no bumbo —, Clarke mudou a marcação para o címbalo, providenciando uma base mais arejada, variada e propulsiva para o grupo.

Todos os bateristas do be-bop seguiram a inovação de Clarke. Sem ele o bop não se criaria, ou não seria o que foi. Outro exemplo do pequeno detalhe que muda tudo. Clarke integrou a formação original do Quarteto de Jazz Moderno, mas saiu cedo. Emigrou para a França, onde morreu em 1985.

De certa maneira, a batida de violão do João Gilberto naquele disco da Elizete Cardoso corresponde à nova levada do Clarke. Também foi um detalhe que causou uma revolução.

A bossa nova tem muitos antecedentes e muitos pais, mas é, antes de mais nada, filha de uma batida, a do samba depurado do João Gilberto. A base era uma só, e, como a do Kenny Clarke, mudou tudo. E nenhum dos dois sabia que estava inventando o estribo.

O correto

Não quero confundir ainda mais a questão, mas se a perfuração virá de cima para baixo não seria mais correto chamar o pré-sal de pós-sal? Se entendi bem, a sonda primeiro atravessa água, depois o fundo do mar, depois pimenta, cominho, orégano, coentro, rosmarinho, um pouco de sálvia e finalmente sal e só então chega ao óleo. Já que vai ser tão difícil vamos ao menos acertar a semântica, gente.

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