POR GERSON NOGUEIRA

O futebol tem seus caprichos e muitas vezes castiga com excessivo rigor. Foi precisamente o que ocorreu com o Remo, ontem, em São Paulo. Exposto às próprias fragilidades, o representante paraense foi atropelado por um Palmeiras forte, seguro e extremamente focado. O placar foi construído de forma natural, a partir de um início avassalador.

Sem tomar conhecimento do visitante, a equipe de Abel Ferreira precisou de apenas 20 minutos para fazer três gols. Uma excepcional demonstração de força e concentração. Arias e Flaco López deitaram e rolaram.

A derrota era previsível, dado o desnível técnico entre as equipes, mas o resultado foi além do esperado. O torcedor azulino, que se acostumou com jogos corretos do time, espantou-se com a desorganização no setor de marcação e a fragilidade defensiva.

Na verdade, esses dois fatores fizeram toda a diferença e explicam o vexame azulino, em sua pior apresentação no campeonato. Em outras ocasiões, contra adversários também superiores, o Remo encontrou meios de resistir e impor obstáculos à dominação técnica.

Desta vez, os poucos cartuchos não funcionaram. O meio-de-campo, formado por três volantes com posicionamento variável (Zé Welison em função mais recuada, atuando como terceiro zagueiro de área), havia dado sinais de eficiência contra o Vasco e o Cruzeiro, fora de casa.

Ontem, porém, não deu liga e o setor foi amplamente dominado pelos volantes Marlon Freitas e Andreas Pereira. No ataque, o Palmeiras abriu caminho à base de passes rápidos e lançamentos na área, explorando a conhecida deficiência do time de Thiago Carpini.

Talvez o erro estratégico do Remo tenha sido a ideia de tentar lutar de igual para igual nos primeiros movimentos, em busca do único resultado que lhe interessava. Era preciso vencer a qualquer custo. Empatar ou perder (mesmo de goleada) não importava.

Entre a intenção e a realidade, a diferença brutal de peças individuais cobrou um preço extremamente severo e o Leão viu-se abatido já no final da primeira etapa. Depois dos gols iniciais, marcados por Arias, Maurício fez 3 a 0 em jogada trabalhada.

O Remo tentava arremates de fora da área, mas o Palmeiras era tão dominante que fez o quarto gol aos 35 minutos (Marcelinho, contra). No período de acréscimo, Zé Welison aproveitou uma rara chance e descontou.

Contra um dos melhores times do continente, finalista da Libertadores e vice-líder do Brasileiro, muitos técnicos poderiam preferir fechar a casinha e ficar à espera de um espaço para se lançar ao contra-ataque. Apesar de usar linhas baixas, o Remo não teve a qualidade necessária para armar saídas e acabou limitando-se à defesa.

No fim das contas, o que poderia ser o último tiro do Leão em busca do milagre da permanência, virou festa palmeirense em ritmo de treino. Foi a maior goleada da competição, superando Vasco 5 x 0 Coritiba.

Depois do intervalo, apesar do ritmo mais cadenciado, o Palmeiras balançou as redes mais duas vezes, com Barboza e Felipe Anderson. Vitória incontestável em grande noite do vice-líder. Um nocaute.

A Primeira Divisão é um desafio inclemente para emergentes, que percorreram uma ascensão vertiginosa das séries C para B e desta para a A. Sem planejamento adequado, qualquer erro vira um fardo cruel e irreversível na batalha para preservar o assento entre os maiorais.

Que a lição tenha sido aprendida.

Erros primários expõem decadência de Tite

O veterano Tite não tem observado os entraves impostos aos técnicos na era moderna do futebol. A imensa maioria dos profissionais respeitados e bem sucedidos teve o cuidado de se reciclar, a fim de se adaptar às exigências do jogo – e aqui estou falando apenas de campo/bola.

Depois de duas passagens fracas pela Seleção Brasileira, com direito a ciclos longos de preparação para as Copas de 2018 e 2022, Tite parece ter estacionado. As ideias, antes expostas com vigor retórico, mesmo quando não encantavam ninguém, agora desapareceram do repertório.

Hoje no Botafogo, após fracassar no Flamengo e no Cruzeiro, Tite vem repetindo os erros mais visíveis dos trabalhos anteriores. Começa pela escolha errática de jogadores, demonstrando uma estranha preferência por atletas limitados tecnicamente.

Contra o Remo, na semana passada, deixou o lado esquerdo de sua zaga completamente desguarnecido, revelando desatenção inaceitável. Sofreu um gol e, mesmo assim, seguiu sem reforço de marcação por ali.

No afã de empatar de qualquer maneira, apelou para um mutirão de atacantes, sobrepondo jogadores de características parecidas e tornando a linha ofensiva confusa e sem rumo. Obviamente, não deu certo.

Anteontem, jogando em casa contra o time misto do Atlético-MG, cometeu um festival de equívocos. Deixou no banco o principal destaque técnico do time, o meia argentino Montoro. Um time com as limitações que o Botafogo tem não pode se dar ao luxo de esnobar o futebol de Montoro.

Criativo e habilidoso, o jovem Montoro tem talento para abrir caminhos e criar espaços, facilitando admiravelmente as coisas para os atacantes. Relegado à reserva, prejudica o time com sua ausência e gera um déficit futuro quando voltar a atuar sem o ritmo ideal.

Por pura implicância, Tite prefere morrer abraçado a volantes, como Domingos, cujo único papel é cometer faltas próximas da área. De quebra, Matheus Martins, o melhor atacante do Botafogo, também é peça de reposição e só foi lembrado nos 20 minutos finais.

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 06)

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