Loading

Hoje aposentado, o criador de algumas das criaturas mais conhecidas – e assustadoras – do cinema e do videoclipe, craque da maquiagem especial, é homenageado em festival italiano

O Festival de Locarno, na Itália, homenageou nesta quarta-feira (12), em sua 79ª edição, um criador de monstros e seres extraordinários: o americano Rick Baker, mestre da maquiagem de efeitos especiais que deu ao mundo um exército de Gremlins e a forma felina/lupina de Michael Jackson no clipe de “Thriller”, transformou Jim Carrey no Grinch e ajudou Eddie Murphy a encarnar inúmeros personagens num mesmo filme – inclusive um velhote judeu.

Ganhador de sete prêmios Oscar em sua categoria – um recorde para seu ofício e um triunfo em muitos aspectos, pois ele mesmo inaugurou, em 1982, a premiação por maquiagem pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, ganhando o troféu por seu trabalho em Um Lobisomem Americano em Londres–, aos 75 anos Rick acumulou prestígio e criações singulares que ajudaram a dar continuidade a uma linhagem de trabalhos para a telona (e também para a telinha) que começa lá atrás, com os antológicos Nosferatu e Frankenstein.

Em filmes feitos com um elenco de diretores craques – de George Lucas e David Cronenberg a Tim Burton e Peter Jackson – Baker operou nos atores com quem trabalhou metamorfoses tão perfeitas que o público acreditava piamente estar diante de um ser de verdade, fosse um lobisomem ou um visitante de outro planeta.

“Rick Baker foi responsável por uma revolução copernicana no cinema: visionário e revolucionário, ele abriu novos caminhos para a imaginação de gerações inteiras, mostrando o que realmente significa testemunhar a transmutação física na tela”, destacou o diretor artístico de Locarno, Giona A. Nazzaro.

“Fiz parte da primeira geração de crianças a crescer em frente à televisão”, contou Rick à revista The Hollywood Reporter, antes de partir para Locarno. “Adorava aqueles filmes de monstros e adorava as maquiagens. Em Frankenstein, Boris Karloff me impressionou demais. Antes de perceber que maquiador era o que eu queria ser, eu pensava que queria ser médico porque queria ser o Dr. Frankenstein. Queria ser médico, ter um laboratório no porão e criar monstros. Mas aí cresci um pouco e descobri que sou extremamente sensível – não gosto de ver sangue de verdade”.

Esta paixão o levou, já na adolescência, a criar na cozinha de casa partes do corpo humano e monstros e a montar um verdadeiro laboratório de maquiagem especial em seu quarto. Jovem, em 1973, conseguiu trabalhar com um de seus ídolos, Dick Smith, em O Exorcista. Smith havia transformado Dustin Hoffman num veterano de guerra de 121 anos no filme Pequeno Grande Homem, usando para isso próteses de látex separadas para o queixo, as maçãs do rosto, as sobrancelhas e a papada, de forma que cada peça tinha movimento próprio, individual, ligado aos movimentos do próprio rosto do ator, o que dava naturalidade à caracterização do personagem.

Em pouco tempo Rick evoluiu na profissão – construiu um bebê mutante e assassino para Nasce Um Monstro, ingressou no universo James Bond ao integrar a equipe de Com 007 Viva ou Deixe Morrer e criou o gorila King Kong para a versão de 1976 – chegando, inclusive, a interpretá-lo, vestindo a fantasia que criou, quando utilizar a versão mecânico do bicho, também feita por Baker, não era possível.

O sucesso internacional chegou quando criou as transformações fantásticas por que passa o protagonista de Um Lobisomem Americano em Londres, trabalho feito através de próteses e manipulação de bonecos que o aproximou do diretor John Landis, mais tarde o realizador do clipe revolucionário feito para “Thriller”.

“Não foi tão difícil quanto muitas outras coisas que já fiz”, Baker explicou ao THR. “Foi meio que uma decisão óbvia. Eu já tinha feito filmes de zumbis antes. Michael (Jackson) tinha visto Um Lobisomem Americano em Londres e por isso contratou John como diretor. Ele queria se transformar em um lobisomem. Pessoalmente, eu não achava que ele deveria ser um lobisomem. Ele era muito mais felino. Então, sugeri que o transformássemos em um homem-gato. Eu simplesmente achei que a estrutura felina combinava muito melhor com ele”.

Mas faltava tempo e dinheiro para Rick executar o trabalho como desejava, e ele partiu para a criatividade. Em vez de moldar próteses individuais para todo o elenco de dançarinos e atores que participaria do clipe, todos escalados de última hora, optou por construir peças genéricas e usar dentaduras tortas, feias, bizarras. Embora alguns dos zumbis do clipe tivessem recebido atenção especial, por serem destaques: dentre eles, membros da equipe de Baker e ele mesmo, que faz o papel do zumbi barbudo que se ergue da tumba.

A partir dali, Rick nunca mais parou de trabalhar, criando primatas (para Planeta dos Macacos, de 2001), alienígenas (todos da série MIB-Homens de Preto) e tantos tipos vividos por Eddie Murphy ao longo dos anos.

Aposentado – seu último filme foi Malévola, de 2014 – , Rick se sente parte de uma outra geração e de uma outra forma de trabalhar. Viu seu ofício ser substituído, em boa parte, por animação feita com computadores, e os orçamentos e prazos se esfarelarem. “Gosto de fazer as coisas direito, e (os produtores e estúdios hoje) querem (tudo) barato e rápido”, explicou. “Não é isso que eu quero fazer, então decidi que basicamente é hora de sair”.

O que não significa que parou de se divertir ou que se afastou por completo do audiovisual. Ele aparece num clipe recente do Anthrax, no papel de um mágico sinistro (a esposa dele representa sua assistente), dirigido por um colega de profissão, Joel Harlow. Baker se esbaldou. “Gosto de me fantasiar e de me transformar em outra pessoa”, confessou.

“Alguém perdeu um cérebro?”. Rick Baker faz mágica no videoclipe do Anthrax. Foto: Reprodução-YouTube

(Transcrito de Farol)

Deixe uma resposta

DESTAQUES

Descubra mais sobre Blog do Gerson Nogueira

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo