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Por Chico Cavalcante
Há gestos que valem por um programa inteiro de governo. Ao oficializar sua candidatura à Presidência no Pacaembu, no último sábado, Flávio Bolsonaro dividiu o palanque com Javier Milei e apresentou o presidente argentino ao eleitorado brasileiro como modelo a ser seguido. Não foi cortesia entre aliados nem gentileza protocolar. Foi declaração de intenções. O candidato informou ao país qual experimento pretende repetir aqui, e resta aos brasileiros, portanto, examinar o que esse experimento vem produzindo do outro lado da fronteira.
Convém começar pelo que a cena tinha de menos evidente. A turnê latino-americana de Milei tem menos a ver com a exportação triunfal de uma doutrina do que com a necessidade doméstica de reanimar um capital político em ruínas. Segundo a AtlasIntel, 58% dos argentinos desaprovam seu governo, a pior marca desde a posse, e 73% declaram que não votariam em Miliei “de jeito nenhum” caso ele tente a reeleição. As duas muletas que sustentaram a experiência anarco-capitalista que Milei chama de “libertária”, a promessa de melhora rápida e a transferência permanente de culpa à herança recebida, desabaram diante da aritmética doméstica dos salários e do preço da carne bovina.
E essa aritmética é implacável. Os salários reais argentinos recuaram cerca de 8% desde o início do governo, com quedas de 18,3% entre servidores e de 34,5% entre docentes universitários, categoria que hoje recebe o equivalente a poucas centenas de dólares mensais. A indústria acumula retração de 9,5%, a construção de 14,2%, o comércio de 4,9%. Mais de 20 mil empresas fecharam as portas, sobretudo no parque têxtil, e centenas de milhares de postos formais desapareceram. Não se trata do desconforto passageiro que todo ajuste comporta, mas de destruição de capacidade produtiva, que é o tipo de perda que leva uma geração para ser reposta, quando é reposta.
O mais grave, porém, acontece longe das planilhas. O desmonte das cooperativas, dos “comedores comunitários” e das organizações territoriais retirou o piso mínimo que protegia os mais pobres da queda livre. Açougues passaram a vender carne fatiada em um país que fez do assado uma identidade nacional. Na Patagônia, a carne de burro passou a fazer parte do cardápio das famílias em função do alto preço de outras proteinas animais. Filas de três mil pessoas se formam para disputar sessenta postos de trabalho em um frigorífico. O narcotráfico se converte em alternativa ocupacional para jovens sem horizonte. Ao mesmo tempo, o investimento em educação caiu 40% e o de saúde, 34%, corroendo justamente aquilo que distinguia a Argentina no continente, ou seja, um padrão de serviços públicos construído ao longo de um século.
Sobraria o argumento moral, mas ele também não resiste. A guerra retórica contra “a casta” perdeu força quando o próprio presidente passou a ser investigado pelo episódio da criptomoeda $LIBRA, que teria custado cerca de 250 milhões de dólares a investidores, e quando seu chefe de gabinete, Manuel Adorni, virou alvo de apuração por enriquecimento ilícito. Oito em cada dez argentinos consideram provável que tenha havido irregularidade. A nova política envelheceu depressa, e envelheceu pelos mesmos vícios que dizia ter vindo extirpar.
Nem mesmo a esperada estabilização, razão de ser de todo o sacrifício imposto, foi entregue. A inflação voltou a subir e alcançou 3,4% em março, ritmo que anualizado beira os 33%. A atividade econômica encolheu 2,6% em fevereiro, a maior queda desde 2023. A dolarização, bandeira central da campanha, foi silenciosamente adiada sine die, o que é a confissão mais eloquente de que o remédio radical jamais foi levado a sério nem por quem o prescreveu.
Transpor esse receituário para o Brasil seria um erro de outra ordem de grandeza. A Argentina tem 46 milhões de habitantes e um produto interno bruto de cerca de 683 bilhões de dólares, enquanto o Brasil tem 216 milhões de habitantes e um PIB que ultrapassa 2,18 trilhões. Não se trata apenas de tamanho, mas de complexidade. A economia brasileira sustenta uma cadeia industrial diversificada, um sistema de proteção social que alcança dezenas de milhões de famílias e um setor financeiro que o próprio Fundo Monetário Internacional classifica como sólido e com riscos sistêmicos contidos. Desregulamentar o trabalho, desmontar o serviço público e escancarar a economia sem critério produziria aqui colapso de arrecadação, explosão da dívida e fuga de capitais, e a conta chegaria muito antes dos inalcançáveis benefícios.
O contraste entre as duas realidades é o que torna a escolha de outubro tão dramática. O Brasil vive um momento raro, com renda per capita acima da trajetória pré-pandemia e uma das maiores revisões positivas de crescimento entre as economias do G20. Momentos assim não são eternos e, muito menos, acidentais. Foram construídos, e podem ser desfeitos com velocidade muito maior do que a exigida para erguê-los. Flávio Bolsonaro não escondeu suas intenções, e essa franqueza é, por fim, o melhor serviço que ele prestou ao debate público. Ao dizer com clareza para onde pretende levar o país, tornou muito mais fácil escolher ou recusar o caminho que ele propõe. Os argentinos já chegaram lá, e o que encontraram não foi liberdade, foi fome, miséria e desemprego.
Chico Cavalcante é jornalista
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