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POR GERSON NOGUEIRA

Havia o temor generalizado quanto a um triunfo argentino na partida final da Copa do Mundo. O futebol é um esporte tão maravilhoso que sempre permite surpresas, mas desta vez não houve jeito. Melhor ainda: a vitória da Espanha foi um verdadeiro amasso sobre a Argentina, que se apequenou e deixou evidente que a caminhada vitoriosa até a decisão teve muito de sorte e favorecimento.

A Espanha é a legítima e incontestável campeã, com um futebol organizado e tecnicamente de alto nível. Não chegou a ser espetacular, mas foi superior aos adversários, jogando limpamente, sem truques. É um alívio que a taça tenha ficado com um time que joga futebol de verdade.

Seria uma tragédia de consequências sombrias para o futebol se a truculência argentina levasse a melhor.  

Um dos méritos da Espanha na final foi a segurança mental. O time mostrou confiança no próprio taco e jamais abriu mão de seu estilo de jogo. Tocou a bola incansavelmente, desgastando a marcação argentina e fazendo o adversário permanecer acuado durante todo o tempo.

Além disso, não caiu na pilha dos argentinos, cuja catimba foi escancarada já nos primeiros minutos, forçando paradas para ganhar tempo. Além disso, sobreviveu com altivez às pancadas de MacAllister, Romero, Paredes e Tagliafico.

Claro que havia o fator Lionel Messi, ainda impressionante e potencialmente decisivo na fase crepuscular da carreira, mas neste mundial a Argentina sempre foi mais esforçada do que competente. Atravessou as diversas fases sempre no limite e com a corda no pescoço.

Superou adversidades, o que é meritório, mas não foi uma seleção digna de disputar o título. França e Inglaterra, que ficaram pelo caminho, mereciam mais. A virada da Argentina sobre os ingleses na semifinal foi marcada pela pancadaria no 1º tempo, criminosamente tolerada pela arbitragem. Bateu e saiu impune, conquistando a vitória no final.

Por tudo isso, seria muito triste ver a coroação do antijogo. A Argentina se comportou ao longo da Copa com a segurança de que não seria punida, desde que Messi escapou da expulsão logo no primeiro jogo. Sem as facilidades que lhe foram proporcionadas, a Argentina não teria participado da festa de encerramento.

Cubarsí foi um gigante na defesa, sem precisar de muito esforço para conter as investidas da Argentina nos 10 minutos finais. Ao lado de Pedro Porro, Laporte e Cucurella, esteve impecável. Rodri e Dani Olmo absolutos no meio. 

Lamine Yamal e Oyarzabal não fizeram boa partida, mas Nico Williams entrou muito bem e teve participação marcante no lance do gol, dando o passe para Fernán Torres. E ainda teve um gol mal anulado.  

O jogo teve 852 passes da Espanha contra 464 da Argentina. A seleção espanhola teve incríveis 20 finalizações (12 no gol) contra apenas 2 da Argentina, nenhuma no gol. Pela primeira vez na história, um time não finalizou a gol nos 90 minutos. Glória espanhola, fiasco argentino.  

Mbappé foi o melhor, mas Rodri leva prêmio

A Fifa distribui prêmios ao sabor do que acontece na última partida. Isso evita injustiças graves, como Rivaldo ter perdido o troféu de craque da Copa de 2002 para Oliver Kahn, mas também permite exageros em algumas coroações. Rodri, excelente volante espanhol, foi um dos líderes da seleção de seu país, mas não é o melhor da Copa.

À frente dele está Kylian Mbappé, sem dúvida o grande craque do torneio, com seus 10 gols e a liderança na artilharia – passando a ser também o atacante que mais balançou as redes em todas as Copas, com 22 gols.

Mbappé ganhou o prêmio de artilheiro da Copa, mas Rodri levou o troféu maior da competição porque pesou o título conquistado. Até Lionel Messi, que marcou oito gols, mesmo com toda a ajuda recebida, merecia mais.

Jude Bellingham também foi monstruoso na Copa, mas acabou prejudicado pela péssima administração do time pelo técnico Thomas Tuchel na desastrosa semifinal diante da Argentina.

Já o zagueiro Pau Cubarsí, de 19 anos, levou o troféu de Melhor Jogador Jovem da Copa. Unai Simón, que tomou apenas um gol no mundial, foi eleito o Melhor Goleiro.

Copa termina e o Rei segue incomparável

A pífia atuação de Messi na grande final serviu para esfriar (por enquanto) a inacreditável campanha de compará-lo a Pelé. A perda da liderança da artilharia das Copas para Mbappé também ajudou a esfriar a absurda louvação ao camisa 10 argentino, melhor jogador de sua geração, mas indiscutivelmente muito abaixo do que o Rei fez em campo.

Aliás, o futebol passou a ser o que é hoje muito em função da carreira fulgurante de Pelé. A própria camisa 10, símbolo maior dos craques, foi entronizada pelo gênio brasileiro. A partir dele, todos os grandes jogadores de meio-campo passaram a usar o número mágico às costas.

É fato, não mistificação. A geração que não viu Pelé em ação se socorre disso para endeusar jogadores brilhantes, mas que não se igualam a ele. Messi, assim como ocorreu com Maradona, é alvo dessa afoiteza das análises. Pelé era completo, inclusive no cabeceio, e um emérito driblador em velocidade e um excelente cobrador de faltas.

A admiração pela excepcional carreira de Messi é aceitável e merecida, mas não cabe reescrever os fatos de forma conveniente. Como se já não bastasse o apagamento histórico (inclusive pela CBF) de Mané Garrincha, o segundo maior jogador de todos os tempos.

A questão é simples. Pelé é simplesmente o cara que estabeleceu todos os parâmetros para qualquer debate sobre nível de grandeza no futebol. Por isso, é o maior e não há discussão possível a respeito. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 20)

One response to “Espanha vence e o futebol agradece”

  1. Parabéns pelo belo texto! Só para corrigir, se me permite, as fotos do Rei estão com os anos trocados, a última é a da Copa de 70.
    Obrigada pelas homenagens a Pelé e Garrincha!

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