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POR GERSON NOGUEIRA

O torcedor distraído entende que manipulação no futebol só acontece em situações cruciais, como penalidades e expulsões de campo. Na verdade, ela só fica mais visível nesses momentos, mas quem vive ligado no jogo sabe que as tramoias envolvem faltas invertidas ou ignoradas, lances picotados a todo momento, pressão para irritar jogadores. São detalhes que podem determinar resultados. 

Tudo isso tem sido visto no torneio, mas o que ocorre nesta Copa tem um aspecto positivo e didático. Depois de tantas desconfianças que o torcedor alimenta quanto a resultados, agora finalmente é possível ver, de forma bem clara, o quanto certas decisões podem ser determinadas previamente.

A preocupação da Fifa em eleger um novo Rei do Futebol chegou a níveis de desespero neste mundial. O ensaio inicial foi na Copa do Qatar, toda envelopada para coroar Lionel Messi, o que acabou se cumprindo, apesar da firme disposição da França em contrariar o script.

O lugar de Rei do Futebol estaria supostamente vago, visto que Pelé pertence ao passado. Mercadologicamente, a Fifa precisa de um grande astro celebrado e aceito por todos. Ninguém melhor que Messi para esse posto. Méritos em campo, qualidade técnica acima de todos os seus contemporâneos e uma conduta bem-comportada.

Mbappé, filho de imigrantes e uma voz esclarecida, não poderia ser o escolhido. Engajado, consciente e corajoso, o craque francês detona a extrema direita e se recusa a fazer propagandas de casas de apostas. Um cara com esse perfil é péssimo para os negócios da Fifa. Por tudo isso, o novo Rei só pode ser Messi, que em 2022 teve apoio árabe e agora conta com a boa vontade dos norte-americanos.

Outro aspecto a considerar. O VAR, instrumento de revisão, foi criado em 2018 para fazer justiça e garantir a lisura do jogo. Oito anos após sua invenção, virou importante aliado nos esquemas de manipulação. É verdade que isso não ocorre apenas em Copas, mas a contradição fica mais óbvia quando exposta no principal torneio do mundo.

Algumas decisões tomadas foram distorcidas ou ignoradas pelo VAR, dependendo dos interesses em jogo. Socorreu a Argentina, em vários momentos. Logo o time apontado como o favorito de Gianni Infantino, que apareceu torcendo e até roendo as unhas no jogo com o Egito. 

Diante das críticas ao favorecimento escancarado, o chefe da comissão de arbitragem da Fifa, Pierluigi Colina, afirma que Infantino não influencia a arbitragem e que os árbitros tomam sempre decisões honestas. Há controvérsias.

França bate Marrocos e está na semifinal

Mbappé chegou e decidiu a parada, como quase sempre faz. Abriu o placar contra Marrocos, encaminhando uma vitória esperada, mas que se desenhou difícil no 1º tempo, em Boston, ontem à tarde. Antes de marcar o golaço, o camisa 10 perdeu um pênalti que ele próprio sofreu.

Mbappé marcou o seu 20º gol em 20 jogos de Copa e já divide com Messi a liderança da artilharia – e vice no top histórico. Fez um grande jogo, não apenas pelo gol e a contribuição para o triunfo, mas pela determinação inquebrantável. Confiança em nível máximo, rotação sempre acelerada e capacidade de decisão a serviço do coletivo.

Dembelé marcou o segundo gol, num tiro rasteiro de fora da área. No lance, Mbappé participou atraindo a atenção dos zagueiros marroquinos, correndo à frente de Dembelé. Dois excepcionais atacantes, que atestam a força criativa e técnica da França neste mundial.

Marrocos se apequenou desde os primeiros movimentos, como se estivesse satisfeito em disputar as quartas de final. Nenhum sinal de ambição ou sonho de vitória. Acomodação pura. Bouaddi e Diaz jogaram muito abaixo, quase irreconhecíveis. Isso foi fatal para um time que dependia tanto deles.

A França chega naturalmente às semifinais, carregada por um sistema coletivo centrado na ofensividade e amparado nas ricas individualidades da geração mais brilhante do país, depois da era Zidane.   

Verdades cruéis que precisam ser ouvidas

Um antigo craque fez nos últimos dias uma declaração que mexe com a alma brasileira. Youri Djorkaeff, que brilhou ao lado de Zidane, disse que ver o atual Brasil jogar “dá vontade de vomitar”. Uma afirmação forte, que tem um fundo de verdade. É o tipo de declaração que atiça o radicalismo gonzo da internet, mas que deveria merecer aplausos, por dizer o que as resenhas nacionais preferem calar.

A manifestação é uma homenagem ao Brasil glorioso dos anos dourados do Tri, da beleza estética do jogo praticado em 1982 e até dos títulos de 1994 e 2002. Um craque como Djorkaeff revela o mesmo saudosismo que sentimos em relação aos craques do passado. O caminho aponta para um recomeço, que inclua obrigatoriamente drible e improviso, diversão e arte.

O comentário de Djorkaeff é oportuno porque as brigadas de fãs e tietes digitais ocupam um espaço gigantesco nas redes sociais, despertando reverência e medo entre os que têm que lidar com elas. A convocação de Neymar para a Copa é representativa do imenso poder que o ecossistema midiático, também chamado de pós-jornalismo esportivo, pode exercer, tornando o futebol brasileiro ainda mais previsível e desinteressante.

Enxergar só a bola pode ser um pecado

“A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana. Às vezes, num córner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural. Eu diria ainda ao ilustre confrade o seguinte: em futebol, o pior cego é o que só vê a bola”, escreveu certa vez o grande Nelson Rodrigues. 

Por essa ótica, pode-se dizer que o nosso combalido futebol anda cheio de cegos.

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 10)

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