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O novo ‘Foreign Tongues’ coroa de maneira espetacular 64 anos de carreira – e premia a dedicação, a tenacidade e a bússola afinada de Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood

Por José Emilio Rondeau – no Farol
“Há um fio condutor nesse disco, e ele se chama Mick Jagger”. A afirmação sobre o 25º álbum de estúdio dos Rolling Stones – Foreign Tongues, lançado mundialmente hoje – é de alguém com autoridade absoluta sobre o que está falando: Keith Richards, parceiro de jornada pessoal e artística do frontman desde a infância, ao mesmo tempo opositor em tantos embates pela disputa da alma e do coração do grupo, faísca de atritos que por pouco não custaram a própria existência da banda. Por tudo isso, são palavras de peso imensurável.
Ao louvar a forma como seu co-autor e cúmplice da maior parte das últimas sete décadas guiou a feitura ágil e focada do novo disco – gravado basicamente em quatro enxutas semanas no estúdio Metropolis, em Londres – , Keith coroa o resultado admitindo a importância vital de Mick no estágio atual do legado que constroem juntos desde 1962.
Aqui está a versão atualizada de um grupo que se recusa a morrer. Tudo soa como os Rolling Stones, em suas tantas vertentes – do country ao blues e ao rock rasgado, da balada soul falseteada à regravação significativa (e aqui são duas) –, uma combinação da sabedoria acumulada no decorrer de uma trajetória longa e sem precedentes, mas feito e polido com as ferramentas, a sonoridade e o vernáculo dos dias de hoje. E essa mescla, se deve, na maior parte, a Jagger, sempre de olho no presente e no futuro (por bem ou por mal). Ele é o ponto focal e o guia nessa jornada sonora. Foreign Tongues dá aos Stones um ponto alto na etapa final de sua carreira, uma possível conclusão (será?) em grande estilo. E isso deve-se à tenacidade e ao talento de Jagger.
Foi Mick quem trouxe para trabalhar com os Stones o jovem produtor Andrew Watt, o catalisador e capataz do álbum anterior, Hackney Diamonds, disposto a servir de recheio para um sanduíche volátil de criatividades e convicções diferentes, por vezes conflitantes – mas eventualmente complementares, quando encontrada a dosagem e o equilíbrio ideais.
A assinatura e a personalidade de Andrew se fazem sentir da mesma forma que as de outro produtor, Jimmy Miller, marcaram a linhagem clássica de discos dos Stones, que vai de Beggars Banquet (1968) a Goats Head Soup (1973). Baterista e percussionista, Jimmy participava das gravações não só de dentro do aquário, da sala de controle, mas também no salão, tocando junto com eles em faixas como “All Down The Line” e “You Can’t Always Get What You Want” (onde é até mencionado na letra da música). Don Was também tocou órgão, piano e baixo nos discos que produziu para os Stones, como Voodoo Lounge. Mas sua participação como músico não deixou marca tão forte. Aqui, Andrew se encarregou de guitarra, baixo, teclados e vocais de apoio em Foreign Tongues e até ganhou crédito como co-autor de um punhado de músicas.
Com o aval de Jagger, Andrew deixou as agulhas arderem no vermelho do mostrador de volume, saturou a compressão e abriu espaço e clima para uma sonoridade ao mesmo tempo mais crua e solta – e bastante pop.
Realizado e lançado depois de curto espaço após Hackney Diamonds – que fora o primeiro disco de inéditas dos Stones em 18 anos – , Foreign Tongues é a continuação lógica (sonora e estilística) de seu predecessor (por pouco não lançado como álbum duplo) e chega vibrante, feito com a urgência de quem sabe que esta pode ser a última vez, e destaca todos os predicados do grupo: riffs de tonelagem absurda, as guitarras cortantes entremeadas por Keith e Ronnie Wood (a partir da abertura blueseira e pesada com “Rough And Twisted”), a barretada ao country (“Ringing Hollow”, ao mesmo tempo canção de amor a uma América do passado e crítica à atual), faixas dançáveis e flertes com “modernices” tipo rap (“Mr. Charm”) e releituras seletas (uma, surpreendente, de “You Know I’m No Good”, de Amy Winehouse, com Mick cantando num tom acima do original e estraçalhando na gaita; outra, de “Beautiful Delilah”, clássico antigo de Chuck Berry, uma das maiores inspirações dos Stones, da qual participa Chad Smith, do Red Hot Chili Peppers, tocando um enorme bumbo).
A exemplo do que se ouviu no disco anterior, o novo é repleto de participações especiais – chamariz e condimento com resultados variados ao longo do álbum. Além de Chad, comparecem Paul McCartney (pela segunda vez como convidado da banda, agora tocando baixo em “Covered In You”, uma música que é parte balada em estilo Elton John, parte rock funkeado), Steve Winwood (dedilhando o piano elétrico em “Jealous Lover”), Benmont Tench (no órgão em “In The Stars”, o primeiro single do álbum) e Robert Smith, do The Cure (solando guitarra na animada “Divine Intervention” e acrescentando teclado e vocais de apoio à dançante “Never Want to Lose You”, à qual Bruno Mars adicionou cowbell).
Uma faixa gravada na última sessão de estúdio registrada pelo baterista com os Stones antes de falecer, em 2021, aos 80 anos (“Hit Me In The Head”), resgata Charlie Watts feroz, em estilo quase punk, uma saudação a uma química histórica, de vida inteira, sólida, que desapareceu quando ele se foi, sublinhada aqui pela gaita de Mick.
Ronnie ganha destaque num solo plangente, urdido para “Back In Your Life”, de emoção tingida pela perda, dias antes da gravação desta música, de dois gigantes do pop, Brian Wilson, do Beach Boys, e Sly Stone.
E um quase dueto entre Mick e Keith se materializa, de certa forma, em “Some of Us”, algo extremamente raro a essa altura, quando os dois não costumam mais compartilhar microfones.
Aliás, de que maneira Jagger consegue ter essa voz de garoto? É um dos tantos milagres rock ’n’ roll que ele personifica.
Como se compara a versão 2026 dos Stones aos melhores anos do grupo legendário? Nenhuma música do novo disco se iguala ao filé mignon da parceria Jagger/Richards. Mas ter os Stones (ou o trio remanescente) em atividade, a essa altura, compondo material novo e representativo, é um privilégio. Ouvi-los trabalhando com gosto, tesão e convicção, então, é uma benção.
Vide o encerramento do disco, que espelha o fechamento do álbum anterior. Aqui, Mick e Keith (com Ronnie solando no slide) voltam às raízes e reacendem a chama original que os aproximou lá atrás. São mestres do ofício se divertindo e nos permitindo participar da festa.
Pode ser uma despedida? Pode. Mas nunca se desconte a possibilidade de ainda vir mais discos pela frente.
Há uma faixa bônus na edição especial de Foreign Tongues comercializada pelo iTunes da Apple (“Bad Luck Hideaway”, biscoito fino em estilo country rock estrelado, de novo, por Charlie, com Jagger e Richards duetando), que aponta para material inédito adicional guardado para algum momento do futuro.
Em se tratando de Stones, tudo é possível.
Quanto mais puderem continuar produzindo com esta qualidade, tanto melhor. Só resta esperar que sim.
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