O que fazer quando se dá as costas ao grupo que revolucionou a música pop de seu tempo? Para Paul McCartney, só havia uma opção: recomeçar, do zero. Um novo documentário mostra como foi

No alvorecer dos anos 1970, Paul McCartney estabeleceu para si uma meta impossível – dar um restart completo em sua carreira musical, distanciando-se o máximo possível daquilo que o tornou quem era, artisticamente, mas que já não existia mais: os Beatles.
E não pensava em estabelecer-se como artista solo, mas liderando uma nova banda, da qual participariam também sua mulher, Linda, como cantora (já com uma participação no coro de “Let It Be” em seu currículo) e tecladista, e o cantor e guitarrista Denny Laine, um dos fundadores do Moody Blues e na época integrante da banda do baterista Ginger Baker, egresso do Cream.
Nascia ali o Wings, grupo que Paul reuniu e apresentou ao mundo com empenho, entusiasmo e dimensões de estreante (a primeira turnê britânica cruzou o território de ônibus, com apresentações em universidades), com o qual construiria um novo repertório e uma nova reputação, até chegar ao momento, em 1976, que conseguiria lotar estádios nos Estados Unidos.
Esta fase da longa, prolífica carreira de Paul – pontilhada por uma série de sucessos, de “Band On The Run” e “Live and Let Die” a “Listen To What The Man Said” e “Mull of Kintyre” – baliza o novo documentário Man On The Run, dirigido pelo californiano Morgan Melville – o mesmo do oscarizado 20 Feet From Stardom, sobre as vocalistas de apoio de astros enormes da música –, que passou em cinemas selecionados, mundo afora, ontem, quinta-feira, 19/2, e chega à Prime Video na próxima sexta-feira, 27/2.
Neville explica o título de seu documentário, que faz um jogo de palavras com um dos hits de Macca com o Wings e resume em uma frase todo o espírito do filme: um longa sobre um homem em fuga.
“Paul fazia parte da maior banda do mundo, o que gerou uma força gravitacional própria. No meu filme, pretendi olhar para a fuga impossível de Paul da sombra dos Beatles”, diz o diretor.
“Quando as pessoas falam dos grandes artistas dos anos 1970, a lista raramente inclui Paul McCartney. Não porque ele não tivesse uma popularidade enorme – sem dúvida, ele era um dos maiores artistas da década – , mas por causa do que ele já havia feito antes”, argumenta.
Não é o primeiro documentário dedicado a essa fase da vida e da carreira de Paul. Em 2001, Wingspan cobriu o período, embora com foco especial no relacionamento dele com Linda. Mas se aquele longa era centrado nas memórias de McCartney, conforme contado a sua filha Mary numa conversa cara a cara, cada um numa poltrona, Neville optou por um formato diferente: os depoimentos que costuram a narrativa aparecem apenas em áudio, “para não distrair e tirar o público de dentro da história”, justificou.
Assim, ajudam a contar a história as vozes de Mick Jagger, Sean Ono Lennon, Chrissie Hynde, as filhas Mary e Stella McCartney, e do próprio Paul.
A seu favor, Morgan contou com o acervo fotográfico de Linda e o rico material contido nos arquivos de McCartney, descritos pelo empresário do artista, Scott Rodger, como sendo tão bons e tão completos quanto os de uma biblioteca presidencial, construídos e mantidos em dia graças ao trabalho em tempo integral de três arquivistas: um cuida de fotos; outro, de música; e outro se encarrega de memorabilia.

Nem tudo são flores no documentário: músicos que participaram das diferentes formações do Wings – que durou 10 anos, de 1971 a 1981 – reclamam de ter recebido menos dinheiro do que achavam merecer e de ter sido tratados como funcionários, em vez de membros efetivos da banda, com poder de voto e veto – o contrário do que Paul dizia almejar, uma banda tão democrática quanto os Beatles havia sido.
Mas o saldo final de Man On The Run é um retrato acurado de um período transformador na vida de um artista que restabeleceu seu ritmo e sua trajetória quando se viu sem os amigos e parceiros dos últimos 15 anos – os mesmos com quem havia revolucionado a música pop de seu tempo – e decidiu que estava na hora de começar tudo de novo. Do zero. E foi o que ele fez.
(Transcrito de Farol)
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