A insatisfação do privilégio a policiais

Por Elio Gaspari

Bolsonaro diz não saber se vai ser candidato em 2022 - País - Jornal de  Gramado

Só um inimigo de Bolsonaro seria capaz de propor que, às vésperas do fim do ano, ele entrasse em campo para obter um reajuste salarial dos policiais federais, e só deles. Colheu a devolução de mais de 500 cargos de confiança da Receita Federal e uma ameaça de greve. O presidente que prometeu acabar com o ativismo, fabricou-o mobilizando contra o governo funcionários concursados, nada a ver com a cumbuca de nomeações dos políticos amigos.

O que o Planalto pode dizer a um servidor cuja categoria tem um pleito funcional e chegou em casa tendo que explicar à família que ficou de fora da generosidade presidencial?

O estilo Bolsonaro de gestão já encrencou com o Inep, o Iphan, o Inmetro e a Anvisa. Cada encrenca deixou cicatrizes, até que explodiu a crise da Receita.

O doutor Paulo Guedes, parceiro da manobra, talvez possa contar ao capitão o que é o “efeito do túnel”, descrito pelo economista Albert Hirschman (1915-2012). Ele celebrizou-se explicando de maneira simples problemas que seus colegas expõem de forma complicada.

O “efeito do túnel” relaciona-se com a distribuição de renda. Se duas fileiras de carros estão engarrafadas num túnel e ambas se movem lentamente, os motoristas aceitam o contratempo. Se uma fileira começa a andar mais rápido, quem está parado acha que o jogo está trapaceado. Bolsonaro gosta de arriscar, mas mesmo sabendo-se que Hirschman talvez não seja flor do orquidário de Guedes, pouco custaria ao doutor pela universidade de Chicago explicá-lo ao capitão.

Os servidores públicos, como todos os trabalhadores, perderam renda. Com o ativismo em favor dos policiais, Bolsonaro mobilizou a insatisfação.

A escolha de Moro

Almoçando num restaurante de São Paulo, Sergio ouviu o maître enumerar um prato de espaguete ao molho de tomate com camarões e lulas. Preferiu um assado.

O futuro de Tarcísio

O ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, é candidato ao governo de São Paulo e vem guardando um obsequioso silêncio diante da escandalosa autoimolação da companhia aérea Itapemirim. O dono da empresa sacou um ervanário do caixa, os funcionários receberam instruções para sair de fininho dos aeroportos e deixaram 25 mil passageiros com os bilhetes nas mãos às vésperas das festas de fim de ano.

O ministro participou de um teatrinho em louvor da empresa, mas, depois do desastre, informou:

“Ela (a Itapemirim) tinha todas as condições de operar e vinha até com uma proposta interessante de operação rodoviária com operação aérea. E, em tese, era um diferencial em relação a outras companhias.”

Quem autorizou as operações foi a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), mas o candidato será cobrado a explicar por que na prática os passageiros ficaram com o mico.

Estranho governo. As agências são autônomas. Briga com o almirante da Vigilância Sanitária que sugere a vacinação das crianças e deixa de lado as vítimas da Itapemirim.

Recordar é viver

Nos anos 80 do século passado, quando o governo do general João Figueiredo agonizava, o general Golbery do Couto e Silva, que se demitira da chefia do Gabinete Civil, saiu-se com esta:

“Você pode ir para todos os guichês de uma rodoviária, pedindo desconto na passagem. Vão negar, mas se uma vendedora aceitar o pedido, fará uma pergunta e você deverá respondê-la: Para onde o senhor quer ir?”

Figueiredo não sabia. Bolsonaro acha que sabe.

Boas notícias

Bolsonaro levou 38 dias para cumprimentar Joe Biden pela sua eleição nos Estados Unidos. Donald Trump até hoje não reconhece o resultado.

No Chile, José Antonio Kast reconheceu a derrota no domingo, e Bolsonaro mandou cumprimentar “o tal de Boric” na quinta. 

(Transcrito de O Globo)

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