A vaidade do Paul McCartney é maior que a franja

Paul McCartney

Por Joaquim Ferreira dos Santos, em O Globo

Será que Lizzie Bravo, a adolescente carioca que em 1968 participou do coro de “Across the Universe”, chegou a ver o documentário “McCartney 3,2,1”? Lizzie morreu dias atrás e o filme, em que Paul conta como surgiram algumas das canções dos Beatles, já estava no streaming (Star+) desde o mês passado. Será que ela viu? Sabia do imenso amor que Paul tinha por si próprio? O cara acha que fez os Beatles sozinho.

É o maior vazamento de ego da história do pop e eu adoraria ter tido tempo de fofocar com Lizzie. Paul diz ter assumido a bateria em “Back in the USSR” por suspeitar que Ringo não conseguiria fazer o ritmo. Na gravação de “Taxman”, ele tentou ensinar George Harrison como deveria ser a guitarra, e levou um “então toca você”. Paul é sincero: “Eles me odiavam”. Quem não?

São seis episódios de 30 minutos e Lizzie perceberia que os dois bicudos, por mais que um deles já esteja morto, continuam sem se beijar. O único elogio a John Lennon é em “All my loving”, por ele manter durante três minutos o dedilhar repetitivo da guitarra de marcação. De resto, Paul ouve seu baixo e a sua voz em “Yesterday” e “Eleanor Rigby”. Aí, sim, demonstra se apreciar sem moderação.  

É uma maldade do destino eu não poder falar com Lizzie a respeito desse espetacular, tirante o “foi tudo feito por mim”, “McCartney 3,2,1”. Em torno de uma mesa de som, ele e o produtor Rick Rubin conversam sobre as Beatles songs. É um filme também sobre o mistério da criação. O trompete piccolo, a cereja orquestral de “Penny Lane”, só está ali porque, na véspera da gravação, Paul – quem mais? – viu um na orquestra que executava na TV um “Concerto de Brandemburgo”. 

A importância de McCartney é fundamental para o brilho das 213 músicas dos Beatles. Eu só não sabia que a vaidade lhe era maior que a franja. George Harrison, coitado!, é reverenciado apenas por ter cedido o solo de “While my guitar gently weeps” a Eric Clapton. “Generoso”, diz Paul. E aí eu gostaria de maldizer com Lizzie: será que nas entrelinhas do comentário há a insinuação sobre o fato de Clapton ter abusado da generosidade do amigo e roubado-lhe a mulher?

Paul admite que aprendeu com Roy Orbison a dar um grande final para as canções, uma nota de tal jeito forte que não restasse outra coisa ao público se não levantar e aplaudir. Aos colegas da banda, nenhum agradecimento. Tudo eu. Olha só essa palheta que usei para realçar a percussão do baixo em “Dear Prudence”. Os olhos de caleidoscópio, que todos botavam na conta de psicodelismo do Lennon, também são meus.

Lizzie ia curtir, e Deus queira que sua extrema-unção tenha sido assistir a esse documentário em que Paul puxa a brasa para o seu fish and chips e anuncia ter estado no comando da coisa toda. As canções são lindas, o mundo seria pior se não existissem, mas agora entende-se a razão de a palavra “vaidade” nunca ter aparecido em qualquer delas. Paul guardava para pulsá-la nesse “McCartney 3,2,1”.

É um pote até aqui de mágoa. Diz que Lennon nunca o elogiou, e aproveita o ensejo para a recíproca. Distribui farpas e salda a dívida. “Here, there and everywhere”, compôs enquanto esperava John, mais uma vez dorminhoco, nem aí para o trabalho. Paul vibra com o próprio talento. Cinquenta anos depois do fim dos Beatles, ele constata, zero de humildade, que, sorry, periferia, não se faz mais Paul McCartney como antigamente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s