O que você está aprendendo? E ensinando?

Por André Forastieri

Aos 27 anos, David Mazzuchelli estava no topo do mundo – do seu mundo, o mundo dos quadrinhos. Era o artista consagrado de um dos mais celebrados e populares gibis publicados até então – e até hoje: Batman Ano Um. Era 1987.

Escrita por Frank Miller, a série introduziu um nível de realismo inédito nos quadrinhos comerciais americanos. O principal personagem da história é Gotham City. Olhe qualquer página: dá para sentir o cheiro da cidade. Os filmes do herói dirigidos por Christopher Nolan, são fortemente influenciados por Batman Ano Um.

Foi sua segunda colaboração com Miller. A anterior é igualmente um clássico dos super-heróis: Daredevil: Born Again, escrita por Miller, desenhada por Mazzuchelli, publicada em 1986.

Eu tinha esquecido de David Mazzuchelli. Que bom ser lembrado. Acabo de me dar de aniversário uma nova edição, de luxo, 200 páginas grandonas com a arte original de Born Again, em preto e branco.

Não lia Born Again tem décadas. Me pego sofrendo de novo por Matt, Karen, Glori, Foggy. Como diz o artista na introdução, fazer o leitor sentir o que sentem os personagens, é esta a missão de toda ficção. Cumprida com louvor, reconfirmo.

E então Mazzuchelli… sumiu. Desapareceu de circulação. Ou quase. Publicou três gibis autorais (Rubber Blankets, de 1991 a 1993) e uma adaptação do romance de Paul Auster, City of Glass (1994).

Fez umas participações especiais em antologias de vanguarda tipo Drawn & Quarterly, umas poucas ilustrações para New Yorker e outras revistas sofisticadas, e só.

Nada de entrevistas, nada de aparições em convenções, discrição acima de tudo. Escafedeu-se.

E então veio Asterios Polyp.

A graphic novel escrita e desenhada por Mazzuchelli em 2009 é uma Obra De Arte, com maiúsculas. Ganhou todos os devidos prêmios, Eisner, Harvey, mundo afora, o HQ Mix quando saiu aqui no Brasil.

Por que o silêncio de tantos anos?

Num raríssimo encontro com leitores, Mazzuchelli explicou que, depois do grande sucesso de Batman Ano Um, ele decidiu passar um ano pensando no que queria fazer depois.

Quando iniciou Rubber Blankets, percebeu que a cada edição ele queria contar uma história mais longa, que não cabia nas poucas páginas disponíveis. Em vez de fazer o número 4, parou a série – e o número 4 se transformou nas 300 e tantas páginas de Asterios Polyp.

É muito difícil descrever este livro. É uma linda história de amor sobre um horrível caso de arrogância intelectual; é um despretensioso tratado sobre a estética e os estetas; é um passeio pela Odisseia e um show de cenografia.

É a pura energia do cartum, é o rigor arquitetônico, é a fluidez do mangá e também uma homenagem aos clássicos gibis de antigamente – Chester Gould via Scott McCloud.

Não é cabotino, não é pseudo, não é indie, nem para uma seleta casta de iniciados no mundo das artes plásticas.

São personagens de carne e osso e, bem, Hana. Por quem é muito fácil se apaixonar.

Asterios Polyp é acessível e espantoso. Com 50 anos, finalmente David Mazzuchelli faz sucesso em seu próprio tempo, em seus próprios termos.

Aqui, uma raríssima entrevista de David, da época do lançamento de Asterios Polyp.

E de 2009 pra cá? Nada.

Mazzuchelli segue dando aula, na veneranda School of Visual Arts, Nova York. Segue em silêncio. Prepara outra obra-prima, ou não, sabe-se lá.

Ensina aos jovens o que aprendeu. Já nos deu tanto, agora dá… ainda mais?

LEIA

A entrevista de Ken Loach, cineasta político que como ninguém sabe articular emoção e observação, sobre sua expulsão do Partido Trabalhista britânico.

Ken me pegou lá nos 90, “Agenda Secreta”, “Terra e Liberdade”. Muita gente viu “Eu, Daniel Blake”, palma de ouro em Cannes.

Andei vendo todos os filmes antigos dele, um melhor que o outro, “Kes”, “Poor Cow”, “Riff-Raff”, “My Name Is Joe”. Você já baixou aquele aplicativo Stremio no seu computador, certo? Impossível amar cinema sem ele.

Ken falou à Jacobin, indispensável revista de esquerda, de cujos articulistas é frequentemente fácil e necessário discordar, e da qual não podemos abrir mão.

Tem edição brasileira, também. Welcome to Brazil, Progressive International.

OUÇA

Estou ouvindo um álbum novo por dia, de segunda a sexta.

Novo pra mim: um álbum que eu nunca ouvi antes. Pode ser de qualquer época.

Até quando? Sei lá. Tem disco que eu nunca ouvi para eu ouvir um por dia até morrer, e além.

Vou te sugerir alguns surprendentes aqui…

O desta semana é “Yaral Sa Doom”, do Wau Wau Collectif.

Trata-se da solar colaboração entre dois grupos de músicos, um de senegaleses, que improvisou durante semanas numa praia ali pertinho de Dakar, e uma galera da Suécia, que levou pra casa a gravação.

Foram trocando sons e ideias e mixes e dubs via WhatsApp. Saiu uma delícia ambient, espaçosa, hipnótica. Você sempre pode aprender com quem é diferente de você, e está disposto a colaborar.

“Yaral Sa Doom” é uma frase do idioma Wolof, que muita gente fala por ali no Senegal, Mali, Mauritânia. Significa “Eduque os Jovens”.

+

No podcast Amigos, Barcinski, Forasta e Paulão, recebemos o Sérgio Martins, jornalista musical de mão cheia, e lembramos algumas das entrevistas mais marcantes, bisonhas, erradas que fizemos…

ASSISTA

“Adults In The Room / Jogo do Poder”, do outro grande cineasta político em atividade, Costa-Gavras.

É sobre a não-negociação entre a Troika, o eixo de poder que une FMI, União Européia e Banco Central Europeu, e o governo grego, então nas mãos do recém-eleito partido esquerdista Syriza, 2015.

Faz parte da mostra Ecofalante, que traz mais um monte de filmes com temas sociais pra você que é esquerdopata. Podes ver tudo de graça até 12 de setembro. Semana que vem vejo outro irresistível que tem lá, “O Capital No Século 21”, co-dirigido pelo autor do livro, Thomas Piketty.

“Jogo do Poder” é quase anti-cinema: duas horas de caras de gravata discutindo em salas fechadas. Mas Costa-Gavras sabe fazer disso um espetáculo, e muito educativo sobre como funciona a economia contemporânea – e pra quem, exatamente, funciona.

É inspirado pelas memórias do então ministro da economia grego, Yannis Varoufakis.

Que é um dos fundadores da Progressive International.

Uma organização que, imagine, utopicamente acredita que a mudança para melhor é possível.

Como, aliás, o Ken Loach demonstra em Spirit of 45, seu documentário sobre a vitória do partido Trabalhista em 1945. Assista.

Passeie aqui por este site que aprofunda nossa compreensão do que o Reino Unido era antes, e o que passou a ser depois de 45. E depois, mostre para as novas gerações.


COM A PALAVRA, RICHARD FEYNMAN

“Ensine cedo para os seus filhos o que você aprendeu tarde”.

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