Literatura paraense perde Vicente Cecim

Vicente Cecim, escritor paraense de 74 anos, morreu na tarde desta segunda-feira, vitimado pela covid. Responsável por mais de 20 obras literárias e autor do premiado “Viagem a Andara” (oO Livro Invisível), que reúne 18 livros em 1.238 páginas, incluindo três obras inéditas da saga, estava internado desde o dia 3 de junho.

Cecim morreu por volta das das 13h30. Ele estava sendo submetido a um tratamento de câncer quando foi diagnosticado com o novo coronavírus. Com o organismo já debilitado, foi internado no Hospital Ophir Loyola, referência em oncologia, em Belém.

A filha, Virgínia Cecim, confirmou a notícia da morte do escritor com uma postagem emocionada nas redes sociais. “Pai, você se foi!!! E com você, foi a minha vida. Estarei sempre ao seu lado”, escreveu. 

mallarmargens: Obra de Vicente Franz Cecim em cena no RJ

Vicente Franz Cecim nasceu em Belém, filho de Miguel Cecim, que ficou famoso como técnico de futebol. Desde que em 1979 iniciou a criação de “Viagem a Andara oO Livro Invisível”, dedicou-se intensamente à obra, que ele chamava de “literatura fantasma” e dizia escrever com tinta invisível.

Cecim forjou sua literatura a partir dessa viagem, ou, como ele dizia, o seu não-livro, ambientado no território metafísico e físico de Andara, uma transfiguração da Amazônia em metáfora da vida. Em 1980, foi premiado como autor revelação pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), por sua segunda obra, “Os animais da terra”.

Ao longo dos sete primeiros livros de Andara, Cecim seguiu abolindo as fronteiras entre prosa e poesia. Publicados inicialmente pela Editora Iluminuras no volume “Viagem a Andara”, as obras receberam, em 1988, o Grande Prêmio da Crítica da APCA, distinção que naquela década foi atribuído apenas a Hilda Hilst, Cora Coralina, Mario Quintana e, na seguinte, a Manoel de Barros.

Novas versões, reunidas nos volumes “A asa e a serpente” e “Terra da sombra e do não”, foram reeditados em edição comemorativa, pela Cejup, em 2004. Em 1994, “Silencioso como o Paraíso” foi lançado pela Iluminuras com mais quatro livros de Andara. A obra foi aplaudida pelo crítico Leo Gilson Ribeiro como “um dos mais perfeitos livros surgidos no Brasil nos últimos dez anos.” Desde então, suas novas obras passaram a ser publicadas apenas em Portugal.

Cecim também trabalhou com criação publicitária, conquistando prêmios e adquirindo prestígio em Belém, Salvador e São Paulo. Emprestou seu talento, durante certo período, à TV Cultura do Pará.

mallarmargens: 'Viagem a Andara oO livro invisível', de Vicente Franz Cecim,  está em pré-venda pelo Catarse

Ironicamente, tendo a qualidade de seu trabalho aplaudida em todo o país e até em outros países, como Portugal, Cecim nunca obteve no Pará o mesmo reconhecimento.

Zé Paulo Vieira, publicitário e grande amigo do escritor, fez um desabafo em homenagem a ele: “Mano Vicente Cecim partiu pra voar à altura que ele quiser, está livre para ir a Andara e a outros lugares oníricos que só a cabeça dos geniais concebem. Agora tantos reconhecerão o ser ímpar. Outros tantos dirão bonito dele. E alguns que, ante aquele ser de saber e sentir a mais, desdenhavam do não compreendido, descobrirão, de repente, virtudes inalcançáveis à hipocrisia dos medíocres. Voa a tua ave, mano Cecim, voa!”.

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