Não podemos ter medo de ir às ruas protestar nem deixar de ter cuidado

Por Gregorio Duvivier, na Folha de S. Paulo

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O Brasil não é feito só de moto sem silenciador e miliciano com silenciador, por isso, devemos ir ao ato do dia 29.

Crianças, existia um negócio, na minha época, que a gente chamava de cinema. Era como assistir a uma série, na sua cama, mas sentado, junto com outras 500 pessoas, desconhecidas, assistindo junto com você, à mesma tela, na mesma hora.

Então você tinha que prestar atenção, porque não dava pra pedir pra voltar a fita.

Tinha uma pipoca caríssima e deliciosa, porque era a única que tinha, e porque não dava pra pausar e fazer mais, então era preciso comer com calma, pra durar, e em seguida chupar os piruás, aqueles grãos que insistiram em não estourar.

E mesmo sem conhecer ninguém, se ria junto, quando era comédia, e se chorava junto, quando era drama, sem precisar combinar — e por um momento parecia que você fazia parte de algo maior que você mesmo, um grupo de pessoas que achavam graça na mesma coisa, e torciam pro mesmo personagem.

Crianças, existia um negócio chamado teatro. Era como um cinema, mas ao vivo e 3D, ou até 4D, porque tinha um cheiro de máquina de fumaça e perfume de mulher, ou até 5D, porque eventualmente caíam perdigotos na plateia.

As pessoas pagavam pra ver pessoas fingindo ser outras pessoas.

Pagavam pra fingir que acreditavam que aquelas pessoas não estavam fingindo. E quando o ator fazia com verdade, acabavam acreditando na mentira, e aí tudo valia a pena, porque parecia que fazíamos parte de algo maior.

Existia um negócio chamado manifestação.

Alguns chamavam de ato, outros de protesto. As pessoas iam pra rua e berravam até perder a voz e muitas vezes apanhavam, e os olhos lacrimejavam, mas ao menos encontravam seus pares e parecia, por um instante, que não estavam sozinhos.

Parecia que não eram os únicos tristes, os únicos revoltados, os únicos sozinhos. E mesmo que não mudasse nada. Quase nunca mudava. Mas mesmo que soubessem que não ia mudar.

Olhavam pro lado e percebiam: não estou ficando maluco. E sentiam força pra continuar porque tinha mais gente com elas.

A gente não pode ter medo de ir às ruas.

Embora não possa deixar de ter cuidado.

Tudo o que mudou, no mundo, só mudou porque tinha muita gente no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Esse país não é feito só de moto sem silenciador e miliciano com silenciador.

Se ainda tem gente de verdade aqui, essa gente precisa ver que tem mais gente, pra deixar de ter medo.

Dia 29, eu vou pra rua.

Sem medo de ter cuidado, mas com muito cuidado pra não ter medo.

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