Quem lembra do infame apoio do Centro das Indústrias do Pará (CIP), dois dias depois que o ministro Ricardo Salles defendeu em reunião ministerial a flexibilização de leis ambientais e “ir passando a boiada” para permitir ações contra o meio ambiente na Amazônia? Pois é, esse mesmo grupo de empresários paraenses mantém constrangedor silêncio diante das denúncias que levaram à operação da Polícia Federal no Ministério do Meio Ambiente, nesta quarta-feira (19).
Mesmo com amplo repúdio da sociedade, a declaração do ministro Ricardo Salles na reunião com o presidente Jair Bolsonaro ganhou defesa apaixonada dos empresários do CIP, que tiveram ainda a ousadia de publicar uma nota oficial risível, apoiando a devastação ambiental da Amazônia.
Em “nota de posicionamento, apoio e protesto”, o Centro das Indústrias do Pará, entidade vinculada à Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), declarou apoio ao ministro do Meio Ambiente e fez amplas mesuras ao presidente Jair Bolsonaro, que “sonha com o bem do Brasil”:
— Na sua fala, entendemos que se referiu ser, este momento de reflexão, um momento propício para desburocratizar o setor ambiental, pois, neste setor, existe (sic) normas, portarias e instruções normativas complexas, confusas, e mais restritivas que a lei, que causam insegurança jurídica, judicializando todas as decisões. (…) Por fim, vimos que as declarações do Presidente tornadas, maldosamente, públicas, serviu (sic) para constatarmos e consolidarmos que o Senhor Presidente sonha com o bem do Brasil.
A nota capciosa é assinada por José Maria da Costa Mendonça, presidente do CIP e vice-presidente executivo da Fiepa. Em agosto de 2020, em entrevista ao jornal O Liberal, ele já havia defendido a “desburocratização” e a revisão da incidência tributária no Estado. “Sempre que existe fiscalização de qualquer empresa, vem logo cheia de notificações, penalidades, como se o empresário fosse algum bandido”, afirmou. “Queremos que exista um relacionamento saudável entre as partes”.

O “saudável” significa aqui o mesmo que o “passando a boiada” defendida pelo ministro motosserra Ricardo Salles, que está em apuros porque foi acusado por autoridades americanas de tentar fraudar a venda de um carregamento de madeira nobre da Amazônia.

Cinco meses antes, em março, Mendonça organizou, na sede da Fiepa, um evento sobre mudanças climáticas. Segundo o convite, o encontro teve como objetivo “contestar a posição de ambientalistas que defendem restrições na economia” e contou com a presença de expoentes do negacionismo climático, como o meteorologista Luiz Carlos Molion, mentor do senador Zequinha Marinho (PSC-PA), presidente da Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas (nas quais já disse que não acredita) e membro da Frente Parlamentar da Agropecuária.
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