Uma vida em 40 Graus

POR GERSON NOGUEIRA

Família de Ronaldo Porto agradece empenho dos médicos durante internação |  Notícias Pará | Diário Online | DOL

Quis o destino que o locutor 40 Graus da Rádio Clube, celebrizado pelos bordões e a narração em alta combustão, partisse justamente ontem, um domingo, dia mundial do futebol. Ronaldo Porto, 69 anos, uma das 280 mil vítimas do genocídio que flagela o país nesta pandemia, lutou bravamente até onde foi possível.

Nos momentos de dor e saudade, o impulso primitivo do homem ocidental é pelo pranto. Nesta coluna vou procurar chorar o mínimo possível, até mesmo em respeito e homenagem a um cara que não era muito de ficar se lamentando. Ronaldo, desde que o conheci há mais de 30 anos, sempre foi um espírito livre, até meio rebelde.

Era, acima de qualquer coisa, um entusiasmado pelo ofício de narrador de futebol. Nasceu para isso. A natureza lhe proporcionou pulmões vigorosos e um timbre de voz excepcionalmente adequado às exigências grandiloquentes do relato de futebol.

Sem medo de errar, considero que Ronaldo é um integrante do Top 5 da locução esportiva no Pará, junto de pesos pesados do quilate de Claudio Guimarães, Jaime Bastos, Guilherme Guerreiro e Grimoaldo Soares.

Era a sua vida. Ali na cabine virava gigante – e, no fundo, era mesmo. Foi uma das vozes mais marcantes de sua geração, deixa uma legião de admiradores e ouvintes fiéis, pertencente à histórica tradição de grandes profissionais forjados na Rádio Clube do Pará.

Lutou por mais de um mês contra as agressões decorrentes da covid-19. Foi entubado, mas melhorou muito nos últimos dias, enchendo a gente de esperança. No sábado, o quadro se agravou muito e a notícia que não queríamos ouvir chegou logo cedinho.

Ronaldo Napoleão foi muitas coisas. Formado em Direito, trabalhou com vendas, imóveis e atuou como professor universitário. Começou no rádio em 1969 como repórter da Rádio Marajoara. Com a fibra conhecida, andou dando furos e agitando o radiojornalismo por um tempo.

Cobriu pela Clube eventos maiúsculos, como Copas América e Copas do Mundo. Estivemos juntos em 2006, 2010 e 2014, mundial realizado no Brasil. A convivência longe de casa aproxima e tive o privilégio de conhecer um pouco mais do nosso amigo.

Trabalhador incansável, era um parceiro animado para passeios e incursões gastronômicas. Em 2006, nos instalamos no óbvio Hotel Germany, em Munique, transformado em QG radioclubino. Quando vinha folga na tabela a gente saía pela cidade em bando, observando e fotografando tudo.

Altas resenhas. Dias felizes, noites geladas. Com Guerreiro e Castilho como guias, toda a galera desembarcou uma noite na mais tradicional cervejaria de Munique, traçando litros de chope e um joelho de porco amuado nas mesas que assistiram os primeiros discursos do insano Hitler.

Em 1996, elegeu-se vereador de Belém a bordo do gigantesco sucesso do programa Barra Pesada, na RBA, que tive a honra de idealizar, criar e botar no ar em 1992, arrancando altos índices de audiência. Ronaldo era o mais popular comunicador do Estado, uma celebridade incontestável.

Curiosamente, Ronaldo não estreou com o programa. Só entrou em cena um ano depois. Após testar pelo menos cinco outros apresentadores, convidei-o em 1993 e o programa na verdade encontrou sua cara.

Ronaldo parte, mas seus amigos têm a consciência de que ele viveu intensamente. Não usava o bordão “de bem com a vida” por acaso e nem veio a este mundo a passeio. Teve amores fortes e curtiu bastante as coisas que a vida dá, com ênfase no prazer da convivência com os amigos.

Louco por carnaval (era amigo de Luizinho Drumond, patrono da Imperatriz Leopoldinense) e diversão, um espírito alegre em tempo quase integral. Era azulino – foi sócio e conselheiro – e vascaíno empedernido. Posso dizer que meu amigo viveu intensamente seus 69 anos de vida, aproveitando ao máximo tudo o que lhe foi permitido fazer.

Fizemos dezenas de jornadas na PRC-5, algumas memoráveis, em pleno Mangueirão e também fora de Belém. Nosso último trabalho em parceria foi a 29 de janeiro passado, no programa de apresentação do jogo Remo x Londrina, na RBATV, pela Série C.

Depois, no começo da noite, na carona que me concedeu até a Pedreira, Ronaldo e eu falamos sobre o medo em relação à covid. Dias depois, precisou ser internado para não mais retornar.

Intenso e arrebatado, Ronaldo viveu momentos épicos na profissão, com destaque para a histórica partida entre Boca x PSC, pela Libertadores de 2003, direto de La Bombonera, em Buenos Aires. Com a voz possante, narrou emocionado a epopeia bicolor em canchas argentinas.

Não duvido que, a essa altura, o grito de guerra “Gol, gol, gol!” esteja reverberando lá pelos corredores do céu. Que descanse em paz.

Papão vence e lidera, mas Carajás surpreendeu

O Papão completou três jogos no campeonato, manteve-se invicto e disparou na liderança de seu grupo, com sete pontos. Fez o dever de casa, no Ninho do Pica-Pau. Não sem sustos, vários sustos. Para começar, o Carajás não se comportou como anfitrião acanhado. Foi para cima, explorou a velocidade pelos lados e dois atacantes fortes na frente, criando vários problemas para a confusa zaga bicolor.

Fez o gol aos 33 minutos do 2º tempo, com o bom PH, que entortou a marcação e tocou para as redes com elegância. Àquela altura, o Carajás fazia por merecer a vitória. Ângelo havia perdido um gol cara a cara e o time jogava bem, com entusiasmo.

Os 15 minutos finais acabaram fizeram com que o pêndulo se movesse em favor do Papão, que empatou com Nicolas aos 41’ em bela assistência de Igor Goularte, de novo. Dez minutos depois, nos acréscimos, Gabriel desempatou aproveitando a saída em falso do goleiro do Carajás.

Destaques do PSC: Nicolas, Igor e Gabriel. Marlon (de novo), Israel e Ruy destoaram. No Carajás, Mariano, PH e Ângelo foram os mais produtivos. O goleiro Fernando teve altos e baixos, mas falhou no segundo gol bicolor.

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 15)

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