
Perdi um velho amigo e um grande companheiro de profissão. Ronaldo Porto, 69 anos, nos deixou na manhã deste domingo (14), vítima de um mal devastador que já vitimou 280 mil brasileiros. Aliás, domingo é dia de grandes jornadas esportivas e Ronaldo foi, como poucos, um entusiasmado narrador de futebol. Era a sua vida, ali na cabine sentia-se gigante – e era mesmo. Uma das vozes mais marcantes de sua geração, ele deixa uma legião de admiradores e ouvintes, com inteira justiça. Quis o destino que o amigo partisse no dia universal do futebol.
Lutava há cerca de um mês contra as complicações decorrentes da covid-19. Teve evolução ruim nos primeiros dias, foi entubado, mas depois começou a reagir de maneira surpreendente, entusiasmando familiares e amigos. Ontem, porém, o quadro se agravou muito. Segundo o boletim médico divulgado no sábado (13), a pressão arterial do voltou a ter quedas significativas, obrigando a equipe médica a fazer medicações mais fortes.
As plaquetas também caíram muito e os leucócitos ficaram em 3 mil, muito abaixo do mínimo indicado. Ainda no sábado, foi detectado que seu sangue continha alto grau de acidez e que ele estava utilizando 100% do oxigênio fornecido pelos aparelhos. Não era mais possível fazer hemodiálise, como necessário, em função da pressão.
Sua morte foi anunciada na manhã deste domingo. Ronaldo tinha problemas de saúde anteriores à covid – era cardíaco e usava marca-passo. Ainda assim, foi guerreiro, resistiu bravamente na luta pela vida.
HISTÓRIA VITORIOSA
Ronaldo Napoleão de Araújo Porto nasceu em 11 fevereiro de 1952. Era bacharel em direito, trabalhou com vendas e também atuou como professor universitário. Começou sua carreira em 1969 como repórter da Rádio Marajoara.
Sob o comando de Guilherme Guerreiro, integrou a equipe campeã de audiência da Rádio Clube. Cobriu pela rádio Copas América e várias Copas do Mundo, com destaque para as de 1994, 2006, 2010 e 2014, realizada no Brasil. Estivemos juntos na maioria desses eventos internacionais, o que me permitiu desfrutar da alegria e da extrema gentileza de Ronaldo, reconhecidamente um grande parceiro de trabalho e viagens.

Por um breve período, de 1997 a 2000, exerceu o mandato de vereador na capital paraense. Era então o mais popular comunicador do Estado, a partir do sucesso de audiência do programa Barra Pesada, na RBATV, criado por mim em 1992. A meu pedido, em 1993, que Ronaldo assumiu a bancada do Barra, contribuindo decisivamente para o êxito do programa, que até então não tinha apresentador fixo.
Depois que criei o programa, em 1992, ficamos por meses buscando alguém que assumisse a ancoragem. Durante esse tempo, o maior campeão de audiência da TV paraense – entre 1993 e 1996 liderou as tardes paraenses – teve altos e baixos, solidificando-se apenas a partir da entrada de Ronaldo, que se redescobriu na TV a partir do Barra Pesada.
Pai carinhoso, Ronaldo era um apaixonado pela vida, aliás repetia isso sempre, quase como um mantra. Teve amores fortes e curtiu bastante as coisas que a vida permite, como passeios e o desfrutar da companhia dos amigos. Nas viagens pelo mundo, Alemanha principalmente, em 2006, foi um animadíssimo parceiro de descobertas gastronômicas pelos inúmeros paraísos culinários do país de Beckenbauer.
Fã de carnaval (era amigo pessoal de Luizinho Drumond, patrono da Imperatriz Leopoldinense), diversões noturnas e convivência com os amigos, Ronaldo também tinha seus clubes de coração. Era azulino – foi sócio e conselheiro – e vascaíno empedernido. Posso dizer que meu amigo viveu intensamente seus 69 anos de vida, aproveitando ao máximo tudo o que lhe foi permitido fazer. “De bem com a vida” era um de seus jargões prediletos, além do inconfundível grito de guerra “Gol, gol, gol!”.
Participei de dezenas de jornadas esportivas na Rádio Clube tendo ele como narrador e eu nos comentários, mas nosso último trabalho em parceria foi a 29 de janeiro passado, quando fizemos o programa de apresentação do jogo Remo x Londrina, na RBATV, pela Série C. Naquele dia, na carona que me concedeu, Ronaldo e eu falamos sobre o medo em relação à covid. Dias depois, precisou ser internado e não mais retornou.

Dono de estilo intenso e timbre marcante, Ronaldo viveu momentos épicos como narrador esportivo da Rádio Clube, com destaque para a histórica partida entre Boca Juniors x PSC, pela Copa Libertadores da América, em 2003, direto de La Bombonera, em Buenos Aires. Com sua voz possante, narrou de forma emocionante a epopeia bicolor em canchas argentinas (vídeo abaixo). Um bom exemplo da competência e do carisma do amigo que hoje nos deixou. Que descanse em paz.
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