“Não há limites entre realidade e ficção na vida criada por Karol Conká”

Por Flávia Martinelli, no UOL

Karol Conká durante café da manhã com Ana Maria Braga - Reprodução/TV Globo

Entre as inúmeras manifestações despertadas nas redes sociais por Karol Conká, chama atenção quem traz reflexões que superam as afrontas e tentam ponderar circunstâncias sobre a realidade e a ficção criadas pela rapper no BBB21.No dia da eliminação recordista, a cineasta e roteirista Renata Martins, criadora da premiada websérie “Empoderadas”, que apresenta perfis documentais de grandes mulheres negras das mais distintas áreas de atuação, compartilhou em suas redes sociais um exercício de empatia. “É o que faço diante quando algo foge muito da minha zona de compreensão”, escreveu a roteirista.

O blog Mulherias, também nessa tentativa, traz aqui a íntegra da pensata de Renata e, como ela, convida à reflexão. “Karol Conká é só mais um dos personagens que ela criou ao longo da vida, mas que não se sustentou ao longo de horas de exposição. Nenhum personagem se sustenta”.

“Eu dormi e acordei pensando na Karol Conká e o meu sentimento é de compaixão depois de ela ser eliminada do BBB com recorde de rejeição. É bem provável que eu como espectadora faça parte dos manipulados, não por uma vilã de novela que tentaram pintar, mas por uma mulher preta que criou e recriou mundos, independente do custo emocional que isso possa ter lhe custado, só para provar para si mesma que é perfeita. O que ela talvez não saiba, ou ninguém tenha dito para ela é que pessoas perfeitas são iguais aos unicórnios rosas com listras coloridas: eles não existem!.

Vi um vídeo de Karol contando para Lucas e uma outra pessoa sobre o alcoolismo de seu pai. Pode ser que tenha sido só mais uma de suas histórias, ou não. Durante o relato ela contou que aprendeu desde muito cedo a criar mundos paralelos para conseguir lidar com bebedeira dele. Ela disse também, que contava para os amigos da escola que seu pai era um empresário famoso quando, na verdade, todos sabiam que ele era o bêbado que ficava largado na esquina. Ela tinha onze anos quando os pais dela se separaram e ela deu uma condição para ele continuar a vê-la: “ou você para de beber ou nunca mais vai me ver”.

Ele não parou de beber e eles nunca mais se viram. Eu não sei se ele morreu ou desapareceu no mundo. Mas ela seguiu carregando a culpa pelo desaparecimento do pai dela ao longo dos anos. Ela ficou emocionada, mas conseguiu conter o choro ao final do relato com um riso desconcertante. Eu tenho a sensação de que não há limites entre a realidade e a ficção criada por ela.

É bem provável que as fantasias criadas por ela a tenham protegido durante a infância e se tornado regra ao longo da vida adulta. É como se a mentira e a distorção funcionassem como mecanismo de defesa e proteção contra a própria realidade. Karol Conká é só mais um dos personagens que ela criou ao longo da vida, mas que não se sustentou ao longo de horas de exposição. Nenhum personagem se sustenta, imagine vários.

Eu consigo compreender o gatilho que Lucas Penteado despertou nela; um homem negro, alcoolizado, com atitudes abusivas e intimidadoras durante aquela fatídica festa. É como se naquele momento ele tivesse refletido a imagem do homem que ela se recusou a ver na infância, mas ele estava ali diante de seus olhos.

Já tive um caso de alcoolismo na família. Meu pai lidava com o irmão de uma forma e a minha tia de outra. Ela não tinha paciência, pois ele sumia e voltava curtido na cachaça e é muito comum alcoólatras serem desumanizados, descartados, comparados com pessoas fracas que não param de beber porque não querem.

Meu pai acolhia, dava banho, comida e ela nem queria saber. Duas pessoas agiram de forma diferente diante da mesma situação e grau de parentesco. Hoje eu consigo entender os três; o meu pai que acolhia, a minha tia que não acolhia e o meu tio que bebia, pois os três eram filhos de um pai igualmente complexo. Não por conta da bebida, mas pela forma endurecida que ele enxergava o mundo e comia o cérebro de todos que estavam ao seu redor.

O caso de Lucas foi um desses gatilhos emocionais, mas outros tantos brothers exerceram funções emocionais similares; Bill, sinônimo de kit de sucesso de muitas mulheres; branco, bonito, sensível, alto, entre outras características sociais bem cotadas na sociedade. Carla é a figura que ameaça essa conquista; mulher branca e loira, bem sucedida, querida pelas pessoas, atraente, enfim: padrão!

Juliette representa tudo que ela tentou se distanciar, ela fala muito alto, não é educada, tem um sotaque marcante e não nega sua origem nordestina, muito pelo contrário, se orgulha de suas origens. Camilla exala segurança e está sempre rodeada de pessoas que gostam dela por sua naturalidade e sinceridade. ‘Como essa Camilla pode ser mais querida e mais amada que eu? Afinal eu sou Karol Conká.’.

Será que é impossível conviver de forma saudável com esses gatilhos por 24 horas ao dia? Sinto que a única coisa que restou para Karol foi tentar eliminar os inimigos um por um. Mas como eliminar o inimigo que mora dentro de nós?

Com isso, não significa que as atitudes de Karol devam ser minimizadas, justificadas ou sublimadas. Muito pelo contrário, ela precisa ser confrontada e responsabilizada, pois muitas pessoas que não tinham relação direta com os dramas de sua infância foram humilhadas e enlouquecidas em rede nacional.

Não tomem essa análise como verdade, como tentativa de diagnosticar alguém. Não é. É só um exercício empático que faço quando algo foge muito da minha zona de compreensão.

“Eu tentei por várias vezes ser empática com Karol, mas não consegui, visto que todas as ações dela me causavam repulsa e eu não consegui me ancorar em nada do que ela havia apresentado ao longo do game. Talvez eu tenha criado minha teoria para acreditar que pessoas não são cruéis por puro sadismo, talvez…

Mas fiquei impactada com a tranquilidade em que ela mentiu em rede nacional sem mover um músculo sequer. Um rosto rígido, olhar fixo, controlando o tom à espera da aprovação dos demais participantes da casa, foi sem dúvidas muito assustador.

Entre uma tentativa de cochilo e outro, foi duro constatar que ela fez várias vítimas, mas também é uma das maiores vítimas de suas ações e escolhas. Espero que ela saia, se perceba, se retrate e tente se organizar internamente, pois essa personagem que ela criou na vida real e apresentou no reality show em rede nacional corre o risco de deixar de existir num piscar de olhos.”.

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