Quando o clubismo está acima do antifascismo

Em nota, torcidas representativas do Bahia repudiam criticamente o posicionamento da torcida Flamengo Antifascista, a respeito do caso Gerson x Dominguez. Abaixo, na íntegra, o texto da torcida baiana:

“Com muita consternação recebemos a nota da torcida Flamengo Antifascista. Nela vemos que nem mesmo os companheiros desta torcida estão livres da arrogância e soberba, fruto do eterno favorecimento dos grandes meios de comunicação e cartolas da CBF ao seu time. Estes sim, os verdadeiros representantes do futebol moderno que aplicam no Brasil o pensamento imperialista de espanholização do nosso futebol.

A luta por um futebol democrático e popular é, invariavelmente, a luta pelo combate ao brutal favorecimento ao Flamengo, que gera no futebol a mesma desigualdade que vivemos na sociedade. Além de trazer o clubismo acima da luta antirracista, a nota em questão, que custamos a acreditar se tratar da nota de uma Antifa, traz uma série de equívocos e desinformações que não vão ficar sem respostas.

Inicialmente, é mentira que Ramirez será reintegrado como se nada tivesse acontecido. No intuito de preservar a instituição e o próprio atleta, o mesmo foi afastado do elenco até que o nosso clube concluísse as investigações internas.

Ademais, o presidente do Bahia ligou para o atleta Gerson, num claro sinal de que uma acusação de racismo está acima dos interesses clubistas, acima da atual situação do clube na tabela e acima de qualquer interesse mesquinho que o valha. A palavra da vítima foi acolhida pelo nosso Clube.

A nota diz que o Bahia levou “em consideração apenas o laudo encomendado”, o que é incorreto. Não foi apenas um laudo encomendado pelo Bahia, mas sim 4 laudos encomendados a profissionais idôneos, de fora da Bahia e do Brasil, que possuem larga experiência forense.

Por outro lado, o único laudo que o Flamengo contratou foi feito por um perito sem expertise para tal. Tanto assim que o próprio INES divulgou nota se desvinculando totalmente do resultado final da perícia.

Somos o clube do povo e cujas posições nas causas sociais são reconhecidas tanto em âmbito nacional, quanto internacional. Estamos em outro patamar na luta antirracista no futebol, consequência de um longo período de democratização da vida do clube e incorporação de setores populares em suas fileiras.

Esta questão foi conduzida pelo Esporte Clube Bahia de maneira bastante séria e inédita no futebol. Inclusive com acompanhamento de lideranças do movimento negro do nosso estado – o mais negro do país. O resultado final não foi uma solução apenas da diretoria do Bahia, mas construída com o movimento negro e o nosso Núcleo de Ações Afirmativas. O desconhecimento dessa questão por uma torcida autodeclarada antifascista é, no mínimo, lamentável!

Se os antifascistas flamenguistas esperavam por uma solução unicamente punitivista, que daria resposta exclusivamente ao tribunal inquisitorial da internet, sugerimos que leiam mais sobre Ângela Davis. Queremos fazer um chamado aos declarados antifascistas flamenguistas que apresentem ao seu clube todos os compromissos que o Bahia adotará para aprofundar o combate ao racismo no futebol explanados na “Carta à Sociedade” lançada pelo Clube. Esta seria a melhor atitude a ser adotada por quem se diz antifascista neste episódio.

Tais compromissos mostram que a luta antirracista no Esquadrão não é uma peça de marketing, mas uma questão de princípio!

No Bahia seria impensável a demissão de um treinador apenas pelo fato de ser negro, mesmo após um título brasileiro. Jamais jogadores do Esquadrão fariam ofensas racistas uns aos outros em uma live, e depois justificariam tratar-se de “brincadeira”. No Flamengo o racismo recreativo é uma realidade. Há um mês um goleiro negro (e como isso é simbólico no futebol) do Flamengo sofreu ataques racistas de sua própria torcida por uma falha em campo.

Isso tudo para não dizer o quão desumano tem sido o tratamento do clube mais rico do Brasil para com as famílias dos garotos do ninho. Segundo um jornalista absolutamente insuspeito, o Flamengo está “ganhando pelo cansaço” aquelas famílias pobres e, em sua maioria negras, que perderam seus filhos dentro das dependências do clube por descaso na manutenção do alojamento da base.

No Bahia seria impensável este nível de desumanidade com a dor de parentes em caso semelhante. Nosso clube tem um programa de ajuda aos nossos ex-ídolos, bem como recentemente ajudamos a família de um ilustre torcedor vítima da COVID.

A malfadada nota ainda se pretende a falar sobre a xenofobia comprovada no próprio laudo flamenguista. E, pretensamente, querem dar aula sobre o tema. Caros antifascistas flamenguistas, vocês querem mesmo falar de xenofobia para nós nordestinos?

Aliás, estranhamente, a xenofobia nacional foi esquecida por vocês na nota. Porque será? Vocês desconhecem casos de xenofobia contra os nordestinos? Desconhecem o fato de que pra vocês somos tratados de maneira depreciativa como “Paraíbas”? Aliás, como se ser Paraíba – estado de Jackson do Pandeiro, Ariano Suassuna, Margarida Maria Alves, dentre outros – fosse alguma ofensa.

Nos jogos em que os apaixonados torcedores nordestinos vão para o RJ acompanhar seus times do coração, os relatos de ataques xenofóbicos são recorrentes. Os antifascistas flamenguistas desconhecem essa realidade? Por que não a citaram na sua nota?

Certamente que a chaga da escravidão faz com que o racismo no Brasil seja algo muito mais enraizado e estrutural, mas daí querer achar que a xenofobia pode ser usada para supostamente combater o racismo é, no mínimo, desonesto. Sugerimos que os declarados antifascistas flamenguistas qualifiquem-se mais no debate, pois é flagrante a falta de leitura sobre o tema.

Ser antifascista é ser contra a TODAS as formas de opressão! Um antifascista não pode combater um tipo de opressão e defender o uso de outra, sob pena de esvaziamento do próprio termo antifascista.

E por fim, não queiram jogar pra nós a pecha de ser um time apoiado por “figuras centrais bolsonaristas”. O uso político pelos racistas dessa situação já era esperado. Contudo, sabemos bem qual o time que o fascista Bolsonaro abraça para se promover. E sempre com o apoio irrestrito da atual diretoria do clube.

Bradamos em alto e bom som: Nem a guerra entre as torcidas, nem a paz entre as classes!

Salvador (BA), 26 de dezembro de 2020.

#BahiaAntifa #Antifascismo #Antirracismo #Antixenofobia

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