Virada, superação e liderança

POR GERSON NOGUEIRA

Delegação do Remo comemora a vitória no vestiário do Mangueirão

O jogo foi sofrível, principalmente no 1º tempo, por culpa exclusiva do Remo. Depois de um começo até animador, com boas tentativas de Hélio pela direita, o time foi murchando e abrindo mão das ações ofensivas. Com o recuo, o Ypiranga cresceu e esteve perto de abrir o marcador. Na etapa final, os azulinos começaram errando nas tentativas, mas a superação prevaleceu, levando a uma virada empolgante, na raça, por 2 a 1.

Velhos problemas se repetiram ontem. A excessiva troca de passes laterais, que acentuam a vocação de jogo horizontal. Os erros de posicionamento. Os passes defeituosos. E o mais grave de todos (que tem a ver com todos os demais): a falta de transição elaborada do meio para o ataque.

O Remo ia bem até a linha central, tocando a bola ou dando combate quando é atacado, mas se dispersava quando saía em direção ao campo inimigo. A verticalização raramente é buscada, há receio ou incapacidade de romper as linhas de marcação.

No fim da primeira etapa, o time se apequenou tanto que permitiu ao Ypiranga ficar pressionando a zaga seguidamente. A defesa resistiu bem, mas o meio-campo era completamente anulado. Tanto que Felipe Gedoz, inoperante na armação, quase pôs tudo a perder ao dar o bote errado dentro da área.

Só quando o Remo sofreu o gol foi que começaram a surgir jogadas mais agressivas. Aos 15 minutos, Tarik fez o gol do Ypiranga, aproveitando o rebote de um chute na trave. Aí o espírito de superação brotou e o time se transformou por completo, partindo para o ataque.

Atordoados com a desvantagem, os azulinos se espertaram. Bonamigo fez trocas que melhoraram a movimentação ofensiva. Tirou Gedoz e Tcharlles, lançando Eduardo Ramos e Augusto. Ficou claro que o meio-campo precisa mesmo de alguém com autoridade para transitar por ali.

Em poucos minutos, mesmo abaixo do ritmo ideal, Ramos liderou a equipe, participando do lance do primeiro gol ao tocar a bola em frente à área gaúcha. Salatiel recebeu o passe e desviou para as redes, aos 23’.

Aos 31’, como consequência da intensidade ofensiva, veio o segundo gol. O escanteio cobrado por Charles foi cabeceado por Salatiel no canto direito. A virada se materializava. Méritos da ação coletiva após a mudança de peças. Capacidade de superação reafirmada, mas ficou a impressão de que a equipe poderia ter alcançado o triunfo sem passar por tanto aperreio.

Remo x Ypiranga-RS

Bonamigo, que comanda com serenidade a excelente campanha, vez por outra parece se conformar com o rendimento anêmico do ataque, como ocorreu na maior parte da etapa inicial, que terminou sob um cenário angustiante de quase predomínio do Ypiranga.

Outro ponto questionável é a opção técnica de descartar Hélio na metade da partida. Justamente ele, que é o atacante mais agudo e participativo. Desta vez, pelo menos, Ermel não foi escolhido para substituir o jovem ponta, mas seguiu como ameaça no banco, enquanto Ronald segue ignorado.

As vitórias, mesmo no sufoco, têm o dom de apagar falhas e críticas, mas é visível que o Remo tem condições de jogar com mais força de ataque do que normalmente mostra. A três ou quatro pontos do acesso, erros bobos não podem comprometer a brilhante trajetória. (Fotos: Samara Miranda/Ascom Remo)

De bem com os deuses, Papão mata na hora

Reza a lenda que João Tavares costumava ser letal nos instantes finais de um jogo. Era o cara que “matava na hora”, sem dar chance de reação aos adversários. Foi precisamente o que se viu, sábado, no estádio Jornalista Edgar Proença. O PSC, que não fez um grande jogo, cumpriu um roteiro digno dos filmes de suspense para sair triunfante de um duelo empedernido com o Londrina. Mateus Anderson encarnou o espírito de João.

O gol dele, o herói improvável da jornada, veio aos 49 minutos do 2º tempo, quando todo mundo já se conformava com o placar de 2 a 2, frustrante para os bicolores. Uma sucessão de erros defensivos do Londrina, culminando com o passe de cabeça que o zagueiro Marcondes deu a Mateus, levou ao triunfo alviceleste.

Grandes vitórias nascem muitas vezes de uma fagulha. Mateus pegou aquele rebote, gingou em frente aos zagueiros e optou pela finalização, mesmo estando fora da área. Não é preciso invadir a cabeça do jogador para saber que ele agiu movido pela urgência do tempo. O jogo estava acabando, não havia espaço para hesitação.

O chute, visto por trás do gol de Dalton, saiu em curva, tirando dos zagueiros e também do goleiro, que saltou quando a bola já estava a caminho do cantinho direito da trave. Belíssima jogada de Mateus, que transformou usou de perícia e fundamento para dar o único aproveitamento possível para a jogada.

A narrativa do jogo até aquele momento apontava para um outro herói bicolor. Nicolas marcou no final do 1º tempo e logo no início do 2º, sempre de cabeça, embora com construções diferentes.

A bola cruzada por Alex Maranhão no segundo pau foi testada lá do alto, com uso da excepcional impulsão do artilheiro. Já no escanteio Nicolas praticamente não saiu do chão, girando para desviar a bola para as redes. Repertório variado do melhor jogador em ação nos campos do Pará.

Ironicamente, antes de sofrer os gols, o Londrina foi senhor das ações. Perdeu um gol logo no início, reclamou (com razão) de falta na área cometida por Bruno Collaço, o mais faltoso do PSC. Botou bola na trave de Paulo Ricardo e ainda criou duas situações de perigo na área paraense.

Com 2 a 0 no placar, o Papão inverteu as perspectivas. Passou a ter o contra-ataque em seu favor. Vítor Feijão podia ter feito o terceiro antes dos 20 minutos do 2º tempo. No entanto, aos 22’, Victor Daniel entortou Tony pela esquerda do ataque e cruzou rasteiro para Carlos Henrique marcar. Animado, o Londrina insistiu mais ainda e Celsinho sofreu penal cometido por PH. O próprio meio cobrou e empatou, aos 33’.

O visitante teve chances de virar, pois o PSC recuou muito e permitiu que o adversário se estabelecesse em seu campo. Os deuses, porém, haviam decidido que o desfecho seria inteiramente bicolor. Mateus fez o gol da vitória e deixou o gramado como herói da noite.

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 28)

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