Dois Paulos. Dois arquitetos. E uma história do planejamento de Belém

Por Nélio Palheta (*)

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Podemos citar vários “Paulos” apegados a Belém, todos arquitetos que viram e viveram a capital paraense com amor e sensibilidade profissional, técnica e responsabilidade. Faltando poucos dias para a eleição de um novo prefeito, é bom lembrar a história que Paulo Martins e Paulo Cal, que hoje se foi, construíram como técnicos da prefeitura. Servem de exemplo; precisam ser lembrados e seguidos num momento em que a cidade enfrenta o caos urbano, econômico e social, diga-se de passagem, agravado a cada prefeito que sai do Palácio Antônio Lemos.

Sem demérito aos da atualidade, nunca a cidade precisou de profissionais do porte daqueles que comansaram a Companhia de Administração e Desenvolvimento de Belém (Codem), na década dos anos 1970.Referências já distantes do cuidado que um prefeito tem que ter pelo lugar que administra, lembrá-los serve de alerta para quem agora disputa o lugar de prefeito – para que os candidatos não executem as bobagens que prometam – não raro projetos estapafúrdios, simplesmente eleitoreiros.

Conheci de perto e convivi profissionalmente (não raro de rodadas de bar e restaurante) com os dois Paulos. Muitas vezes, estive na mesa do “Senadinho” do Restaurante “O Outro”, de Paulo Martins, que virou chefe de cozinha. Ali figuraram, em torno da comida e de muito uísque, arquitetos, advogados, médicos, engenheiros, magistrados, políticos, economistas, jornalistas. Paulo Cal foi um dos comensais assíduos.

O point dos últimos anos foi a Cervejaria Amazon Beer, aos sábados, onde há duas décadas se batia o ponto quase todo sábado, antes da pandemia. Paulo Cal, além de professor de Arquitetura da Universidade Federal do Pará, fez parte, nos anos 1970, da equipe que elaborou os estudos de urbanização de Belém, encomendado pelo prefeito Ajax d’Oliveira, à CODEM, presidida pelo Paulo Martins. A companhia, instalada no Edifício Manoel Pinto da Silva, organizou um grupo que fez amplo estudo sobre o desenvolvimento, ocupação, urbanização e saneamento da capital. Registre-se que, naquela época, a prefeitura não tinha sequer um mapa atualizado da cidade – lembra-me outro arquiteto, Paulo Elcídio Nogueira (superintendente de Planejamento da Codem, décadas depois foi Secretário de Estado dos governos Almir e Jatene).

Foi feito o levantamento aerofotogramétrico do município, que permitiu o governo ter uma noção do conjunto de problemas do território da capital, especialmente das chamadas “baixadas”. E assim nasceu o primeiro plano de desenvolvimento de Belém, que incluiu o levantamento das bacias hidrográficas, cadastro de propriedades, e o primeiro Plano Diretor. Eu integrei a equipe da como assessor de imprensa. A equipe, que hoje se chamaria de “multiprofissional”, sob a coordenação do amigo, João Tertuliano Lins (economista), foi integrada por mais um arquiteto, Jorge Derenji (Diretor de Planejamento), e pelo sociólogo José do Carmo Marques da Silva (outro ex-secretário de Estado, que há pouco também se foi), Leida Boisnic, economista (fez carreira nos governo de Almir e Jatene); LucyLeão (hoje esposa do economista Sérgio Leão), Margareth Refkalesfsky (socióloga), Nazaré Dias, advogada, e Kátia Esteves.

A equipe produziu um documento chamado “Monografia das Baixadas de Belém”, estudo que deu origem ao Projeto de Macrodrenagem da Bacia do Una, executado décadas depois pelo governo de Almir Gabriel. O futuro prefeito de Belém deveria desencavar a monografia e, no mínimo, captar, nas linhas e entrelinhas, inspiração para fazer um governo responsável, sensível, capaz de dar conta da enorme tarefa que é governar a capital paraense para além da verborragia eleitoral. P. Martins e P. Cal amaram Belém como poucos. E deixaram contribuição apreciável para a gestão da cidade.

O primeiro trocou a prancheta e o gabinete de servidor público pela cozinha; o segundo ficou numa verdadeira trincheira urbana, cultural, política. Quando se manifestava sobre os problemas de Belém, com crítica muitas vezes ácida, em artigos, na imprensa ou na mesa do bar, Paulo Cal falava com propriedade, domínio de conhecimento, sendo conhecedor da história da cidade, e vivendo o presente, embora já distante da academia e do serviço público que serviu até há pouco tempo – e do qual se desgostou definitivamente. Viva o governo de Belém daquela época!

(*) Jornalista.

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