John Lennon, a utopia e o futuro

Por Marcos Aurélio Ruy

O dia 9 de outubro está na história da humanidade. Essa data registra o nascimento de John Lennon, em 1940. O poeta, músico e ativista inglês John Lennon, que ajudou a transformar a arte em algo palpável para qualquer pessoa, transformando-se no maior ídolo que a arte conheceu no século 20.

Lennon completaria, portanto, 80 anos não tivesse encontrado em seu caminho, 40 anos depois, uns dedos que apertaram o gatilho de uma arma, cujas balas o tiraram do nosso convívio, sendo incalculável o número de poesias cantadas, possíveis livros e manifestações pela paz e de solidariedade à classe trabalhadora, que perdemos nesses 40 anos a serem proporcionadas pelo grande artista.

Filho da classe trabalhadora, Lennon dividiu com Paul McCartney a liderança da principal banda de todos os tempos, os Beatles, que universalizou o rock, conquistou o mundo e influenciou tudo o que veio depois em termos de música e postura contra o establishment.

E apesar de celebrar os possíveis 80 anos do artista, não chorar a perda de tão grande talento de maneira tão brutal e precoce é humanamente impossível. E por que? Porque estava vivendo numa sociedade onde ter a posse de uma arma é considerado um valor de liberdade. Liberdade para matar.

a a sua grandiosidade, o artista britânico incomodou poderosos com suas entrevistas sarcásticas, mas principalmente com suas obras voltadas para a classe trabalhadora, para a paz, para a utopia de um futuro com mais igualdade e justiça.

Dá para imaginar o tanto de palavras cantadas que perdemos para embalar nossos sonhos e fortalecer a nossa resistência à distopia que vivemos em 2020. A voz de Lennon faz falta para termos duplas fantasias de uma vida voltada para a solidariedade e para a paz. Como disse Mahatma Gandhi (1868-1948), “A paz é o caminho”. E John Lennon se fiou nessa máxima.

Trilhou esse caminho como poucos. Ao mesmo tempo em que encantou gerações na necessidade de se valorizar a cultura, o conhecimento, o sonho. Incomodou a hipocrisia da opressão a tudo aquilo a contradizer a ordem patriarcal, burguesa e branca.

Cantou que “A Mulher É o Negro do Mundo” para denunciar duas das maiores chagas da humanidade. O racismo e o machismo. E por isso, imaginou todas as pessoas partilhando o mundo, sem egoísmo e com generosidade.

Dá para imaginar isso com Donald Trump e Jair Bolsonaro no poder? Não dá. Mas certamente a lição deixada pelo grande artista é a de que é possível resistir e retomar o caminho da paz se a luta for consistente e perseverante, sem niilismo.

Por isso, Lennon também cantou que te machucam, preconizam o ódio, te desprezam e se você não quer ficar maluco precisa entender que “um herói da classe trabalhadora é algo para ser”, principalmente porque se você quer “uma revolução” é melhor “começar agora mesmo” para dar “força ao povo”, mudar os rumos da humanidade e construir o mundo novo.

Poucos artistas incomodaram tanto os donos do poder, que a história esquecerá no futuro. Mas todos os Lennons do mundo sempre serão lembrados. Fica a frase da última entrevista dele e a sua companheira Yoko Ono para a revista estadunidense Rolling Stone, poucos dias antes da tragédia que abalou o mundo com o assassinato de maior artista de todos os tempos, de que tinham muito tempo pela frente.

Como em “Sunday Bloody Sunday” (Domingo Sangrento Domingo), em que Lennon e Yoko Ono denunciam o massacre do “Domingo sangrento” ocorrido na Irlanda do Norte em 1972, quando a polícia britânica reprimiu violentamente manifestação pacífica na cidade de Derry contra a prisão arbitrária de qualquer pessoa “suspeita” de pertencer ao Exército Republicano Irlandês (Ira, na sigla em inglês), que lutava pela independência da Irlanda do Norte.

Após ficar afastado da música por cinco anos, John Lennon voltava, em 1980, cheio de planos futuros. Planos encerrados por tiros de alguém que simboliza a doença de uma sociedade voltada para o indivíduo somente. “Eu e Yoko ainda temos muito tempo para fazer tudo”, disse. Três dias depois era executado.

O dia 9 de outubro marca o nascimento desse que se transformou no principal nome da cultura no século 20 e na luta por outro mundo possível. Um mundo sem guerras e sem tão poucos com tanto e tantos sem nada.

Lennon alimenta ainda hoje todas as utopias necessárias para termos a certeza de que o futuro pertence à classe trabalhadora, mesmo que isso pareça tão longínquo nestes tempos tão obscuros. E principalmente porque embala nossos sonhos e não permite a nossa desistência.

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