O adeus de Quino, mestre do traço e pai da Mafalda

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O cartunista e artista gráfico argentino Joaquín Salvador Lavado, conhecido como Quino e criador da Mafalda, uma das personagens mais famosas do mundo dos quadrinhos, morreu nesta quarta-feira (30/09) em Mendoza, sua cidade natal, aos 88 anos. “Quino morreu. Todas as pessoas boas do país e do mundo chorarão por ele”, escreveu seu editor Daniel Divinsky, ao anunciar a morte nas redes sociais.

Citada pela agência espanhola Efe, a família de Quino disse que ele morreu por “razões próprias da idade e consequências de sua saúde nos últimos tempos”. Segundo o jornal argentino Clarín, o cartunista sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) na semana passada.

Ao longo dos últimos anos, o autor, que se mudou de Buenos Aires para Mendoza no final de 2017, após ficar viúvo, passou por diversos problemas de saúde e se locomovia em uma cadeira de rodas, embora não tenha deixado de comparecer a homenagens a seu trabalho.

Em 17 de julho, o artista celebrou seus 88 anos junto de sua família em Mendoza, numa data em que o Ministério da Cultura do país o definiu como “criador de uma parte da cultura argentina”.

Um dos maiores ícones do país sul-americano, ele recebeu prêmios importantes ao longo da carreira, como a Ordem Oficial da Legião de Honra, na França, e o prêmio Príncipe das Astúrias, na Espanha, concedido em 2014.

Filho de imigrantes espanhóis, Quino nasceu em 1932 em Mendoza, no oeste da Argentina, e se mudou aos 18 anos para Buenos Aires para estudar desenho. Seu primeiro quadrinho foi publicado com a mesma idade, já na capital argentina. Mas foi somente aos 30 anos que, do traço de seu lápis, nasceu Mafalda.

A menina inconformada com a injustiça social, cuja imagem e mensagens atemporais e irônicas a favor de um mundo melhor se espalharam por todo o mundo, se tornou a obra mais famosa de Quino, embora ele tenha criado outra infinidade de personagens.

O argentino imaginou a pequena enquanto trabalhava num projeto comercial para promover uma marca de eletrodomésticos, para o qual lhe pediram que desenhasse uma família típica da classe média.

O quadrinho publicitário não chegou a ser publicado, mas Quino recuperou a personagem quando o convidaram para publicar na revista Primera Plana, à época um veículo que procurava fazer uma reflexão crítica da atualidade argentina e internacional.

Foi em 29 de setembro de 1964 que Mafalda surgiu: uma garota que detestava sopa, adorava os Beatles e proferia monólogos preocupados e existencialistas em frente a um globo terrestre. Em 1965, as obras passaram a ser publicadas no jornal El Mundo.

As tiras estampavam comentários sobre ordem mundial, luta de classes, capitalismo e comunismo, mas também, de forma mais sutil, sobre a situação política e social argentina.

Quino deixou de publicar histórias inéditas da Mafalda em 1973, mas a personagem se manteve viva no imaginário argentino e mundial, tendo sido traduzida para 30 idiomas e chegado ao cinema e à televisão.

Nesta quarta-feira, o jornal El País recordou a resposta de Quino quando lhe perguntaram quem seria Mafalda na atualidade. Na previsão do criador, essa “menina sábia” estaria morta, porque seria um dos desaparecidos da ditadura militar argentina (1976-1983). Em 2016, em entrevista à agência Efe por ocasião da Feira do Livro de Buenos Aires, Quino afirmou que o mundo atual seria para Mafalda “um desastre e uma vergonha”.

“Olhando as coisas que fiz todos estes anos, percebo que digo sempre as mesmas coisas, e que elas continuam atuais. É terrível… não?”, disse ele, citando os seus temas de sempre: “A morte, a velhice, os médicos e outras coisas”, como as injustiças sociais e a pobreza.

Muito tímido e reservado, Quino reconheceu na mesma entrevista que gostaria de ser lembrado como “alguém que fez as pessoas pensarem sobre as coisas que acontecem”. (Transcrito da DW)

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Em foto recente, a santíssima trindade do traço argentino: Quino ao lado de Caloi e Negro Fontanarrosa, em Buenos Aires.

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