Um gigante da grande área

POR GERSON NOGUEIRA

Mesquita, Bira (centro) e Júlio Cesar Uri Geller no Remo, em 1978 — Foto: Arquivo Ferreira da Costa/O Liberal

Quando chegou ao futebol paraense, em 1976, Bira teve que encarar um desafio raro: optar por uma das duas grandes forças regionais. Começou vestindo a camisa do PSC, mas no ano seguinte, após um acordo que envolveu até questões relacionadas ao tapetão, transferiu-se para o Remo e assumiu a condição de emérito goleador.

Desembarcou no Evandro Almeida para integrar um time recheado de grandes jogadores. Tinha, porém, o desafio de substituir simplesmente o maior ídolo da história do clube, o gigante Alcino. Essa missão acabou facilitada pela identificação imediata com a casa e a torcida. Ele mesmo se tornou um torcedor, condição que sempre destacava.  

Jovem ainda, mas com um rendimento que impressionava nos treinos, Bira teve força mental e destemor para assumir a camisa 9 azulina. Aos amigos, costumava contar que foi acolhido pelos mais experientes do grupo e que caiu na graça de todos pela humildade.

Para não fazer feio na comparação com o Negão Motora, corria e treinava mais, trabalhando o lado físico para enfrentar as defesas. Como não era muito alto, sabia que precisava ser mais rápido e certeiro.  

Chegava sempre à frente dos beques na luta dentro da área e era preciso no cabeceio à meia altura, com excepcional aproveitamento em cruzamentos no primeiro pau, antecipando-se aos zagueiros.

Esse desassombro, próprio da personalidade irreverente, Bira trazia de berço e foi cultivado na convivência com os irmãos no Esporte Clube Macapá, no começo da década de 70. Ao lado de Haroldo, Assis, Marco Antonio e Aldo, que despontaria depois no PSC e no Fluminense, o atacante aprendeu cedo a importância de ignorar cara feia.

Os 118 gols marcados pelo Remo (conforme levantamento do pesquisador Jorginho Neves) deram a ele o honroso posto de 5º maior artilheiro da história do clube, sendo que a maioria dos gols nasceu de lances que se desenrolavam na grande área.

Com arrancada e explosão impressionantes, tinha facilidade para mudar de direção em plena corrida naquele curto espaço de terreno (16,5 x 16,5 metros). Ali resolvia as coisas, beneficiando-se da excepcional retaguarda de meio-campo e beirada que teve naqueles três anos iluminados – 77 a 79.

Atuou com Mesquita, Mego, Aderson, Marinho, Cuca, Luiz Florêncio, Humberto, Bebeto e vários outros bons jogadores sob o comando de mestre Joubert Meira (1976 a 1978). Era essencialmente um exímio finalizador, mortal naqueles 16,5 metros de largura e comprimento à frente das traves.

Personagem de grandes momentos do futebol local, Bira iria cair no agrado do Inter, então bicampeão brasileiro. Antes, dividiu holofotes na estreia de Dadá Maravilha no PSC. Ambos badalaram o jogo e marcaram gols, com direito a abraços de quem entendia que a rivalidade boleira jamais pode se confundir com inimizade.

Ainda se enfrentaram cinco vezes, com cinco gols de Dario e quatro de Bira. Impressionado com a qualidade do jovem goleador, Rei Dadá o recomendou ao Inter, onde Bira coroaria a carreira, fazendo 35 gols e comandando o ataque colorado no título invicto de 1979.

O Tremendão (apelido que lhe foi dado por Ronaldo Porto) tem ainda o recorde de gols numa única edição do Campeonato Paraense – 32, em 1979. Foi protagonista da maior atuação individual que vi no Mangueirão. Em 1978, diante do Guarani de Campinas.

O Remo goleou o Bugre por 5 a 1. Bira fez os cinco gols. Careca descontou para os visitantes. Naquela tarde ensolarada, o camisa 9 não tinha como ser marcado ou contido. Semanas depois, aquele mesmo Guarani ganharia o título brasileiro da temporada.

Bira foi imenso. Cravou seu nome na galeria dos maiores atacantes do futebol do Pará e do Norte do país. Jamais será esquecido.

Dahas foi o responsável pelo ingresso de Bira no Remo

Ronaldo Passarinho, grande benemérito azulino, testemunhou os bastidores da travessia de Bira da Curuzu para o Baenão. E conta como aconteceu:

“Em 1976 seria o ano do nosso tetra. Como estava tudo armado contra nós, o Manoel Ribeiro exigiu Juiz da CBF. O rival não aceitou. Propusemos juiz da Fifa, de outro país. O Remo pagaria as despesas. Não foi aceito.

O Manoel, indignado, deu um murro na mesa e tirou o Remo da final. Tentemos demovê-lo. Nada feito. Dias atrás o Mesquita me lembrou que o time estava preparado para entrar em campo.

No início de 1967, o Manoel autorizou uma grande figura, Jorge Dahas, fanático pelo Remo a procurar o Bira. Assim foi feito e o Bira passou a ser nosso atleta”, relata Ronaldo.

Elielton: após a longa espera, a volta por cima em grande estilo

O maior vencedor da noite de sábado, na Curuzu, quando o PSC goleou o Imperatriz por 6 a 1, foi indiscutivelmente o ponteiro (sim, eles ainda existem) Elielton. Entrou no segundo tempo para contribuir com dois belos gols, de construção própria. O último, que fechou a peia, foi sensacional. Arrancou de sua própria intermediária até a área adversária, mantendo o domínio e evitando a perseguição dos zagueiros.

Apesar de estar no clube há mais de um ano, foi o seu primeiro gol com a camisa alviceleste. Parecia improvável que a noite fosse abrilhantada por ele. Afinal, substituiu o ídolo Nicolas, depois de ficar fora dos planos de Hélio dos Anjos desde o início da temporada.

Com os gols e a participação ativa no jogo, Elielton abre a perspectiva de voltar a ser titular e propiciando ao treinador a possibilidade de ampliar as opções ofensivas. A campanha do PSC na Série C acaba de ganhar um improvável reforço, saído do próprio elenco. A conferir.

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 15)

Um comentário em “Um gigante da grande área

  1. Bira foi gigante. Prova irrefutável que em nosso meio podemos produzir grandes jogadores de futebol. Não vou citar outros do mesmo quilate pois vai ficar faltando algum na lista, traído pela memória. Hoje, nossos atletas regionais passam longe de Belém a procura de clubes onde possam brilhar. E, para isso, não precisam ser atletas excepcionais. Tentar fazer carreira nos grandes de Belém é tempo perdido. Muitos desses jovens têm esses clubes como clubes de coração, o que já seria um diferencial e tanto. Mas, sempre haverá barangas importadas para ocupar o lugar que poderiam ser deles.

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