POR GERSON NOGUEIRA

Todo mundo vai torcer pelo hexa, apesar das queixas e broncas com a qualidade da atual Seleção Brasileira. Quando a bola rola na disputa de uma Copa, a torcida se une em torno do sonho comum. Nossa formação futeboleira foi toda erigida sobre as glórias de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Nenhum outro país ostenta esse retrospecto, o que ajuda a justificar muitas bobagens e exageros eventualmente cometidos por aqui.
Quase todas as vezes, pelo menos nas Copas de 2006 para cá, às vésperas da estreia surgem polêmicas para distrair os sentidos. Pode até não ser intencional, mas acaba funcionando como cortina de fumaça para outros problemas, às vezes mais urgentes e profundos na vida das pessoas.
Nesta Copa de três sedes, o Brasil está se preparando de forma absolutamente inusitada. Começa pelo comando técnico. Pela primeira vez na história, um estrangeiro dirige o escrete. Carlo Ancelotti chegou amparado no currículo extraclasse de conquistas portentosas em clubes, mas de experiência zero em seleções nacionais.
Tanto sucesso na carreira faz de Ancelotti o candidato preferencial a salvador da pátria. Com uma equipe dominada por nomes que fracassaram nas Copas de 2018 e 2022 e que se apoia em um astro decadente (e fisicamente meia-boca), resta o comandante como fonte de esperança.
Na comparação com outros países, o Brasil posiciona-se hoje como força intermediária. Não está entre os grandes favoritos – o que nem sempre é uma condição desconfortável –, embora sempre mereça o respeito de todos pela força dos títulos e da tradição. Espanha, França e até Portugal surgem à frente nas bolsas de apostas.
O ambiente quase foi comprometido pela convocação de Neymar, bancada pelo lobby de marcas poderosas. Ancelotti foi obrigado a se desmentir pela primeira vez, aceitando convocar um jogador que não está 100%, talvez nem 50%. As turbulências cessaram, embora os problemas permaneçam.
O time está indefinido. Ainda não se sabe quem será o lateral-direito, nem o atacante para se juntar a Vinícius e Raphinha. A estreia é daqui a três dias contra a seleção que ficou em 4º lugar na última Copa. Marrocos deixou de ser um adversário fácil. O primeiro desafio será duríssimo.
Ancelotti tende a encorpar o meio-campo. Além de Bruno Guimarães e Casemiro, é provável que ele utilize Paquetá. É curioso notar que, ao contrário de outras vezes, o Brasil que acompanha futebol o ano inteiro – não o Brasil que torce apenas em Copas – põe mais fé em jogadores que estão na reserva – Luiz Henrique, Rayan, Endrick e Danilo Santos.
Com o ambiente pré-Mundial contaminado pelas restrições da imigração nos EUA, revistas humilhantes a delegações de países do Terceiro Mundo e o visível desinteresse da população americana, resta aos fãs do futebol torcer para que o campo/bola supere a intolerância, coisa esquisita para um evento cuja essência deveria ser o congraçamento.
Seleção foca em ex-astro e resgata psicóloga
A atenção exagerada da imprensa nos exames e na rotina de Neymar, o ex-astro que parte da torcida brasileira ainda vê como ídolo, causa desconforto a quem observa a Seleção Brasileira com olhos mais críticos e objetivos. O verdadeiro foco deveria estar em Luiz Henrique, Endrick e Rayan, trio com potencial para turbinar o ataque brasileiro durante a Copa.
Há um excesso de cuidados em tratar o problema envolvendo Neymar, que só deve entrar em campo – se entrar – a partir do segundo ou terceiro jogo da Seleção. Caso esteja apto fisicamente, o jogador deve ser utilizado por 15 ou 20 minutos.
A Copa será disputada sob temperaturas altíssimas, o que deve exigir ainda mais preparo dos atletas. As previsões de preparadores físicos e técnicos indicam que será um torneio dominado pelos jovens. Veteranos como Casemiro, Danilo, Marquinhos e Neymar tendem a sofrer bastante.
Em meio a isso, a Seleção terá uma novidade. Marisa Santiago, que foi psicóloga do Grêmio, integra a delegação brasileira, com a missão de preparar os jogadores e instruir a comissão técnica sobre como manter a concentração, mesmo diante de eventuais atrasos ou paralisações de partidas, por conta dos alertas de tempestades.
A CBF decidiu levar a psicóloga após a Copa do Mundo de Clubes, disputada nos EUA em 2025, quando alertas de raios adiaram ou interromperam alguns jogos. A última vez que o Brasil teve um profissional especializado em saúde mental e comportamento foi em 2014, quando a psicóloga Regina Brandão integrou a equipe de Felipão.
Nas duas Copas em que comandou a Seleção, em 2018 e 2022, Tite optou por não ter alguém com essa especialização em seu staff.
Papão vai em busca de reforços para a Série C
A conquista da Copa Verde pela sexta vez ainda é comemorada pela torcida bicolor, mas a diretoria não dorme no ponto: já concentra atenção na busca por reforços para deixar a equipe mais sólida na disputa da Série C. Em 3º lugar, o Papão luta para alcançar 30 pontos na competição, número considerado seguro para garantir presença na fase decisiva.
Após o triunfo sobre o Anápolis, domingo, membros da diretoria admitiram que o clube está disposto a contratar até cinco jogadores para três setores da equipe – dois zagueiros, um lateral/ala, um meia-armador e um atacante.
A defesa desperta mais preocupação porque tem enfrentado problemas de lesão. Quintana foi obrigado a sair da partida final por força de uma contusão. Bruno Bispo entrou em seu lugar e deu conta do recado.
Para o técnico Júnior Rocha, a dupla titular hoje é Castro e Bispo, mas há necessidade de pelo menos mais um zagueiro experiente, levando em conta as dificuldades que a equipe terá pela frente na fase mais aguda do Brasileiro, com risco maior de perdas (lesões e suspensões).
Outra prioridade é conseguir um meia-armador, a fim de revezar com Marcinho, principal jogador do time, mas sem um substituto direto. O ataque vai muito bem, mas é preciso ter mais uma peça de reposição para atuar pelos lados, preferencialmente pela esquerda.
(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 10)
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