Com intensidade e raça

POR GERSON NOGUEIRA

Remo x Paysandu

Foi um Re-Pa disputado em alta velocidade e a vitória veio do banco de reservas, atestando a melhor leitura do jogo pelo técnico Hélio dos Anjos. Enquanto Mazola Jr. fez trocas reforçando a marcação para garantir o 1 a 0, o PSC mudou de baciada, aos 25 minutos do 2º tempo, e foi mais feliz. Dois dos que entraram descansados, Uilliam Barros e Netinho, construíram a virada que estabeleceu a vantagem bicolor na final do Parazão.

Para o confronto final, no próximo domingo, no Mangueirão, o Papão tem a condição de jogar pelo empate, enquanto o Leão precisará de uma vitória para provocar cobrança de penalidades ou vencer por dois gols de diferença para levantar o sonhado tricampeonato.

A partida demarcou bem os estilos de cada treinador, embora ambos tenham atração natural pelo jogo de baixo risco. No 1º tempo, prevaleceu o equilíbrio, com o PSC mais agressivo no começo. Aos  poucos, o Remo passou a explorar com mais insistencia as saídas pelos lados.

Nicolas perdeu a primeira chance, logo aos 10 minutos, pegando mal na bola após cruzamento de Mateus Anderson. O chute subiu muito. Nos minutos seguintes, o Remo caprichou mais na saída e conseguiu levar perigo. Ermel teve ótima oportunidade, aos 14’, em assistência de Tcharlles, mas precipitou o chute e o goleiro Gabriel Leite espalmou.

Os erros de passe e a distância excessiva entre os volantes à frente da zaga faziam com que o Remo tivesse muita dificuldade em fazer a bola chegar ao ataque, problema que se acentua ainda mais quando um dos volantes – Gelson ou Júlio – tenta comandar a transição.

Eduardo Ramos era o ponto de equilíbrio, recebendo a bola na intermediária e tentando arrancadas, a fim de povoar a linha de frente. Aos 22’, uma boa chegada após cruzamento de Ramos para a pequena área. Ermel recebeu livre e bateu à direita da trave.

Do lado alviceleste, Hélio mantinha o sistema de marcação alta, mas com a participação de Alan Calbergue flutuando pelo meio. Na maioria das vezes, ele buscava o jogo com Tony e Mateus Anderson na direita, mas o último arremate era sempre prejudicado pela forte marcação da zaga remista.

Vinícius Leite, fixo pela esquerda, tentava lançar Nicolas na área. Como não teve êxito, arriscou a infiltração e quase marcou aos 24’. Após passar por dois marcadores, mandou no ângulo e Vinícius fez boa defesa.

O primeiro gol surgiu aos 29’, quando o Remo retomou bola reposta por Gabriel Leite e Ermel mandou um chute forte da entrada da área. O goleiro tentou espalmar e a bola sobrou limpa para Eduardo Ramos finalizar, abrindo o marcador no Mangueirão.

Não havia superioridade clara em campo, mas o gol mudou a postura dos rivais. O Remo voltou para o 2º tempo preso à marcação e o PSC acelerou as tentativas ofensivas, embora com problemas e hesitações no meio.

Mazola teve uma perda expressiva logo aos 8 minutos da etapa final. Eduardo Ramos sentiu incômodo muscular e foi substituído por Douglas Packer, uma opção equivocada que enfraqueceu o ataque deixando Tcharlles fora de jogo. Lento, o camisa 8 errou todas as tentativas.

Enquanto Mazola trocou Ermel e Julio por Djalma e Lailson, expressando os cuidados com a segunda linha, Hélio botou Luís Felipe, Serginho, Uilliam, Diego e Netinho (saíram Calbergue, PH, Mateus, Collaço e Tony).

O que veio a seguir foi praticamente um embate do ataque bicolor contra a defesa do Remo. O PSC atacava com até seis homens, utilizando muito os lados. E tome cruzamento na área, em avanços rápidos ou escanteios.

Uilliam Barros comemora o gol de empate no clássico

Em bola cruzada na área, aos 28’, Micael quase empatou. Aos 40’, depois de muito insistir em busca do gol, o Papão foi premiado. Em outra bola aérea, Uilliam pegou de meia bicicleta entre três defensores e acertou o ângulo da trave. Um golaço para empatar o clássico.

Abatido pelo gol e sem volume na meia-cancha, o Remo raramente atacava, ficando ainda mais exposto defensivamente. A virada alviceleste veio aos 43’. Nicolas tentou abrir caminho pelo meio da zaga, Vinícius não reteve a bola e Netinho chegou batendo para as redes.  

O triunfo do Papão expõe algumas verdades. Mazola se apegou muito cedo à ideia de garantir o resultado e fez trocas que resgataram o 4-4-1-1. Não arredou pé de suas convicções, mas atraiu o adversário para seu campo, como havia ocorrido domingo frente ao Vila Nova. O problema é que estratégias desse tipo em Re-Pa são sempre temerárias.

Por seu turno, ante a derrota iminente, Hélio fez o que a lógica recomenda. Povoou o meio e deu mais rapidez e força ao ataque, com Uilliam entrando pela direita. E, claro, insistiu na intensidade e no jogo aéreo, sua principal arma ofensiva. Acertou em cheio, conseguindo resolver todos os seus problemas em apenas três minutos. Vitória no sufoco, mas merecida.

Invicto, Hélio provou que entende melhor a lógica do Re-Pa  

O técnico do PSC tem uma façanha pessoal no currículo. Treinou os dois rivais, mas nunca perdeu um Re-Pa. A explicação para tamanho sucesso talvez esteja na compreensão das nuances do mais disputado clássico do futebol brasileiro. Na atual passagem, mantém a invencibilidade contra técnicos diferentes, que insistiram em repetir erros no confronto.  

Mesmo em desvantagem no placar e com falhas de posicionamento no time, Hélio não hesitou em mudar a equipe, tornando-a mais leve a partir dos 30 minutos finais da partida. Podia não dar certo, mas ficaria a certeza de pelo menos ter tentado mudar as coisas.

Contou com a persistência de seus jogadores, boa dose de sorte e erros crassos de leitura por parte do técnico remista para aplainar o caminho. Mazola, que se abespinhou com um repórter domingo passado ao ser perguntado pelos erros em substituições, teve hoje a prova de que a humildade em rever conceitos pode ser uma virtude decisiva.

É gritante que o Remo sofre quando precisa propor o jogo. Não há dinâmica no meio, o que atrapalha a transição. As jogadas pelas extremas exigiriam mais do que apenas Ermel. Talvez fosse necessário olhar para o banco, onde Ronald, melhor velocista do elenco, segue ao relento.

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 03)

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