Coleção de polêmicas inúteis

POR GERSON NOGUEIRA

Até agora o Campeonato Paraense rendeu um punhado de bons jogos e alguns gols bonitos, nem pior e nem melhor que nas edições anteriores. O que tira a graça da coisa é o excesso de polêmicas vazias. Interrompido pela quarentena de prevenção à covid-19, o torneio quase foi encerrado em abril, tese espantosamente defendida por alguns clubes e providencialmente impedida pelos mais sensatos.

Douglas Packer entrou no segundo tempo e atuou ao lado de Eduardo Ramos

Depois de muita conversa jogada fora e reuniões sem fim, as partidas foram retomadas. Parecia, enfim, que tudo caminhava para um desfecho sem atribulações. Ledo engano.

Nos últimos dias, depois da definição dos finalistas (PSC e Remo), o clima voltou a ficar conturbado. Primeiro surgiu o protesto do PSC pela escalação dos jogadores Marlon e Tcharlles pelo Remo nas semifinais contra o Castanhal. A diretoria do Papão alega que foram inscritos irregularmente no campeonato e, por essa razão, não poderiam atuar.

A discussão tem origem na mudança na tabela de jogos do Parazão. Aliás, uma de várias modificações na data dos jogos, em função dos problemas decorrentes da pandemia. O jogo do PSC contra o Itupiranga, pela 10ª rodada, foi antecipado de quarta (5) para terça-feira (4).

Para a FPF, a data final para inscrição continuou a ser o dia 4, apesar da antecipação da partida do PSC, o que dá legalidade à utilização dos atletas pelo Remo. A entidade entende que se houve algum beneficiado foi o Papão, ganhou um dia para se preparar para a estreia na Série C.

Do lado alviceleste, a interpretação é outra. Negando ter pedido a antecipação do jogo pelo Parazão, o clube defende que o prazo se encerrou na segunda, 3. Os atletas do Remo foram inscritos no dia 4, o que motiva a pretensão bicolor de impedir a escalação de ambos nos clássicos que decidirão o campeonato. Caso joguem, o clube vai ao tapetão.

Além dessa muvuca, que deve ter desdobramentos pós-campeonato, surgiu na segunda-feira outra discussão mambembe. O PSC quer arbitragem Fifa, o Remo apoia a ideia desde que não tenha que bancar despesa.

A FPF só dispõe de R$ 7.700,00 para custeio de arbitragens. Alega, como todo mundo, dificuldades para fechar as contas neste momento de crise. A ordem natural das coisas é reduzir despesas, mas no inflamado ambiente do futebol local sensatez é moeda em desuso.

Por incrível que pareça, a melhor notícia da semana foi o batismo da taça do Parazão: a “Estrela do Norte” já começou a ser exposta ao público.

Messi e a luta inglória contra a passagem do tempo

Desde anteontem o mundo do futebol não fala de outra coisa. Todos especulam sobre o possível destino de Lionel Messi quando deixar o Barcelona no fim da temporada – isto se realmente sair do clube. Seria muita resenha em cima de uma questão contratual entre jogador e clube se não estivéssemos falando aqui do maior de todos, de currículo insuperável nos últimos oito anos.  

Dono de um fabuloso repertório de jogadas, Messi controla a bola como ninguém e ainda é um exímio finalizador. Além disso, ostenta regularidade absurda, sempre em altíssimo nível.

Sempre me impressionou a capacidade de motivação de um superastro, seja do futebol ou da música. O que faz um cara que já tem tudo se sentir impulsionado a levantar todos os dias em busca de novos recordes?

Messi chegou à idade-limite entre maturidade e aposentadoria, trecho delicado da caminhada de qualquer desportista. Muitos derrapam justamente aí por não conseguir aceitar os limites que o tempo impõe.

Como tem sido um sábado administrador da própria carreira, Messi tem olhos focados naquelas que devem ser suas duas últimas temporadas em alta. Tem 33 anos, jogará mais duas Ligas dos Campeões e é justo que queira um time que lhe garanta disputar o título.

O Barcelona está em processo de reconstrução, após a tragédia de Lisboa, a surra de 8 a 2 para o Bayern. A reformulação do elenco deveria ter começado há dois anos quando Valverde assumiu a direção técnica. Faz tempo que Messi emite sinais de insatisfação. Os resultados provam que estava certo em cobrar mudanças.

Ronald Koeman assumiu para corrigir rumos e arrumar a casa. O interesse de Messi em sair (Manchester City seria o destino) pode ser um lance estratégico para pressionar o clube, mas merece ser levado a sério.

Para quem ama futebol, seria interessantíssimo ver a reedição da dupla Messi-Guardiola. O City passaria à prateleira máxima do futebol e o mundo teria mais um belo time para admirar.

Para os gigantes da NBA, vidas negras importam

Por pressão dos jogadores, a NBA adiou a rodada de meio de semana e o futuro da temporada está em discussão. Em protesto por mais um caso de violência policial contra um negro no Estado de Wisconsin, o Milwaukee Bucks boicotou o jogo contra o Orlando Magic. Jacob Blake levou sete tiros nas costas no domingo (23) e está com as pernas paralisadas.

Revoltados, os jogadores decidiram não entrar em quadra. Não há ainda confirmação de data e nem se a liga terá prosseguimento. À noite, Cincinnati Reds e Milwaukee Brewers decidiram boicotar jogo da MBL depois que os companheiros do basquete paralisaram os playoffs da NBA.

A reação dos esportistas prova, para o alienado mundo alienado do futebol no Brasil, que é possível ditar o rumo das competições. Basta consciência e organização. Nas redes, o astro LeBron James (Lakers), conhecido por apoiar a luta contra o racismo, e outros atletas saíram em defesa de Blake, pedindo justiça. “Exigimos mudanças. Cansados disso!”.

É preciso entender que tudo está interligado. Esporte faz parte da engrenagem, não pode ser uma caixinha à parte. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 27)

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