Marvin Gaye e o Timão

Por Heraldo Campos (*)

Nesses tempos de quarentena e de pandemia do coronavírus, que aqui na terra da jabuticaba não quer baixar o tal do patamar do número de óbitos, quase que diariamente ultrapassando o número de mil vítimas fatais por causa desse governo militar genocida, a gente acaba ficando que nem cachorro tentando pegar o próprio rabo, procurando coisas para fazer e não pirar de uma vez por todas.

Se estamos mais ou menos vivos é por causa do isolamento social e dessa quarentena que não acaba.

E o que não canso de ver é o show do Marvin Gaye em Montreux de 1980, que repetiu umas quatro vezes em um desses canais de TV por assinatura, e assisti todos eles como se fossem a primeira vez. Outro, que repetiu outro dia, foi um pequeno documentário, com meia hora de duração, no mesmo canal, que mostrou a versatilidade desse genial compositor e cantor da soul music, e que nos deixou trágica e prematuramente nos seus 45 anos de idade.

No ano de 1971, os Estados Unidos estavam levando um couro na guerra do Vietnã e por aqui o povo estava levando um couro do governo militar instalado pelo golpe de 1964. 

Músicas memoráveis como “What’s Going On” e “Mercy Mercy Me” (The Ecology) de Marvin Gaye do ano de 1971, são de uma beleza ímpar e extremamente atuais, pelas suas mensagens, para esses tempos confusos e autoritários que estamos vivendo nos dias de hoje.

O trecho traduzido de “What’s Going On” como “Piquetes e cartazes / Não me puna com brutalidade / Fale comigo, então você poderá ver / Oh, o que está acontecendo / O que está acontecendo / Sim, o que está acontecendo / Ah, o que está acontecendo”, será que nos faz lembrar a polícia descendo a ripa nas manifestações de rua das pessoas que não apoiam o atual governo militar?

O trecho traduzido de “Mercy Mercy Me” (The Ecology) como “Misericórdia, misericórdia de mim / Ah, as coisas não são o que / costumavam ser, não, não / Óleo desperdiçado no oceano e em cima / nossos mares peixe cheio de mercúrio”, será que nos faz lembrar aquele misterioso derramamento de óleo no mar que atingiu as praias do nordeste brasileiro e ninguém do atual governo militar falou mais nada?

Mas e o Timão, o Corinthians, o que tem a ver com isso? Talvez alguma coisa, porque cá entre nós, o Marvin Gaye tem a cara do Corinthians, não é mesmo?

O Marvin Gaye nesses programas, do show e do documentário reprisados, não faz você pregar o olho na frente da TV. Foi o mesmo o que aconteceu para quem esteve presente no Campeonato Paulista do ano de 1971, num Morumbi com mais de 66 mil pessoas, na frente do inesquecível Corinthians 4 x Palmeiras 3, com dois gols de Mirandinha, um de Adãozinho e outro de Tião, para um Timão escalado com Ado; Zé Maria, Sadi, Luis Carlos e Pedrinho; Tião e Rivelino; Lindóia (Natal), Samarone (Adãozinho), Mirandinha e Peri.

Já esse jogo de ontem foi “sin salero”, como dizia minha avó Gregória. Num Itaquerão sem torcida por causa do isolamento da pandemia do coronavírus, o Corinthians 1 x Palmeiras 0 foi o mesmo que chupar dropes Dulcora, “a delícia que o paladar adora”, sem tirar o papel celofane.

Até quando vai durar esse “novo normal”?

O que está acontecendo? Misericórdia, misericórdia de mim!

*Heraldo Campos é Graduado em geologia (1976) pelo Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista – UNESP, Mestre em Geologia Geral e de Aplicação (1987) e Doutor em Ciências (1993) pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo – USP. Pós-doutor (2000) pelo Departamento de Ingeniería del Terreno y Cartográfica, Universidad Politécnica de Cataluña – UPC e pós-doutorado (2010) pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento, Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo – USP.

3 comentários em “Marvin Gaye e o Timão

  1. Prezado Gerson
    Bom dia.
    Acabo de ouvir “What’s Going On” acessando o artigo que você publicou. Fiquei emocionado, mais uma vez, de ouvir essa música e obrigado por permitir essa possibilidade.
    Abraços e um bom final de semana,
    Heraldo

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