Um breve e barulhento passeio pelas ondas do rock

Sete festivais de música no Brasil e no mundo que você não pode ...

POR GERSON NOGUEIRA

O rock, cultuado no mundo todo como o gênero mais subversivo de todos, tem hoje sua data mundial festejada. Sim, eu sei, nós sabemos, é marketing descarado, nada a ver com a contracultura e a contestação dos primórdios. Quando Chuck Berry trabalhou a junção do blues estradeiro americano com uma levada mais dançante e sensual, com apelo irresistível para o público infanto-juvenil, numa época em que ninguém fazia música adequada à fase mais festiva e gostosa da vida. O rock, por assim dizer, foi terapêutico: veio suprir uma lacuna imperdoável e cumpriu com sobras a missão.

E quis o destino que esse novo ritmo tivesse como base o balanço e a vibração, típicos da música negra de raiz. Vem daí a noção de que o rock não nasceu – como querem alguns pesquisadores brancos – de Bill Halley & His Comets ou de seus inúmeros covers. Quando Halley explodiu com Rock Around the Clock (maio de 1954) o rock raiz já pulsava no coração negro da América. É sobre isso que falaremos neste modesto inventário sobre o som que mudou a rotação do planeta.

Berry, o verdadeiro pai do rock, ganhou a estrada, tocando em troca de tostões nos bares de beira de estrada do sul dos Estados Unidos. Adquiriu nessa época a mania de não aceitar pagamento em cheque ou depósito bancário. Dizia aos promotores de evento, mesmo quando já artista consagrado, que só confiava em grana viva.

Chuck colecionou uma penca de hits, que até hoje podem ser ouvidos com grande prazer: Johnny B Goode, Rock and Roll Music, Maybellene, Route 66, Roll Over Beethoven, School Days, You Never Can Tell, Nadine.

Depois dele, abriu-se o Mar Vermelho, com o aparecimento de nomes como Little Richards, o primeiro grande performer do gênero, unindo transgressão e ousadia. Homossexual assumido, deixava produtores e promotores de shows em altas para encaixá-lo em eventos para o público hiper conservador da terra de Tio Sam.

Tutti Frutti, Good Golly Miss Molly, Lucille, Long Tall Sally, Jenny Jenny. Richard deu dimensão espetaculosa e saltitante ao que era ritmado, rascante e hétero no rock de Chuck Berry.

Ainda nos ’50, Jerry Lee Lewis furou o bloqueio do rock negro com um estrondoso sucesso na mesma época em que Richard brilhava. São dele hits como Great Balls Of Fire, Jambalaya, Mother The Queen Of My Heart, Whole Lotta, Shakin’ Goin’ On, Your Cheatin.

Com estilo absolutamente único de martelar as teclas do piano, usando até os pés, Lewis estabeleceu-se entre os grandes nomes do período. Além dele, Buddy Holly e Carl Perkins fizeram furor, com estilos mais domesticados ao gosto médio.

Nenhum, porém, chegou ao patamar de Elvis Presley, que se tornou o primeiro super astro mundial do gênero, embora tenha em muitos momentos da carreira flertado mais com o pop romântico. Blue Suede Shoes, Jailhouse Rock, Can’t Help Falling In Love, Always On My Mind, Suspicious Minds, Love Me Tender, Bridge Over Troubled Water, Hound Doug, Kiss Me Quick foram alguns de seus muitos sucessos.

Elvis incendiava plateias com a voz de timbre negro e o balanço mais erotizante visto até então nos palcos do mundo. Virou astro de cinema filmes para matinês e, com o tempo, foi assumindo um conservadorismo político que conflitava por completo com a revolução estética que promoveu no rock. No fim decadente da carreira, aceitou virar atração de cassinos em Las Vegas.

Dos pioneiros e faiscantes anos 50, o rock deu um salto rumo à conquista planetária com a chegada de um grupo absolutamente único em originalidade, talento e apelo popular. Os Beatles, vindos da velha Inglaterra, assumiram o pódio e reinaram por mais de uma década, acumulando sucesso e prestígio.

Com os Beatles o rock ganhou status de arte moderna e engajada, principalmente pelo álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, projeto conceitual idealizado por Paul McCartney e concebido com a cabeça erudita do maestro George Martin, cognominado o quinto beatle.

Foram os Beatles que entronizaram gerações inteiras no rock, fazendo uma verdadeira revolução de costumes, com músicas que viraram hinos até hoje reverenciados, como Help, Come Together, Revolution, Hey Jude, I Want To Hold Your Hand, Blackbird, Across the Universe, Twist and Shout, Penny Lane, Get Back, Let It Be, Yesterday, Drive My Car, Michelle, A Day in the Life, Here Comes The Sun, Eleanor Rigby, Lucy in the Sky With Diamonds, While My Guitar Gently Weeps, Something, Yellow Submarine são alguns dos clássicos da banda.

Nunca uma banda de música pop foi tão significativa e influente, além de visceralmente amada por tanta gente quanto o Fab Four (John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr). Aliás, todos os quatro músicos produziram obras respeitadas e exitosas quando abraçaram a carreira solo.

Quem mais chegou perto da Beatlemania foram os Rolling Stones, também ingleses e que trilharam um caminho ligeiramente contrário, adotando um som mais sujo e rebelde. Versão bem menos palatável para o padrão da época do que os quatro garotos de Liverpool.

A entrada em cena dos Stones virou de ponta-cabeça o cenário da música jovem, desafiando a tradição familiar e abraçando atitudes até então consideradas inaceitáveis, como o consumo de drogas e a defesa da liberdade sexual. Junto com os Beatles, o grupo fundado por Brian Jones e liderado por Mick Jagger e Keith Richards antecipou o que se tornaria pleno a partir do movimento hippie no fina dos 1960.

Satisfaction, Simpathy For The Devil, Let’s Spend The Night Together, Time is On My Side, Jumpin Jack Flash, Honky Tonk Women, Gimme Shelter, Paint it Black, Ruby Tuesday, Lady Jane, Sweet Virginia, Angie, Not Fade Away, You Can’t Always Get What You Want e tantos outros hits consolidaram os Stones como um dos gigantes do rock, ainda hoje em plena atividade, percorrendo o mundo sempre com shows lotados. Biografias de Keith, Mick e Ronnie deixam claro que a banda se mantém viva justamente pelo amor pela estrada e os shows ao vivo.

As formações se alternaram desde que Brian Jones foi expulso da banda. Mick Taylor o substituiu na guitarra. Ronnie Wood (ex-Faces) veio em seguida. O baixo, que teve Bill Wyman na formação original, hoje está com o músico convidado Darryl Jones, mas a batera segue firme nas mãos de Charlie Watts. A voz inconfundível de Jagger, a batida de Charlie e os solos inspirados de Keith e Ronnie formam a massa sonora que mantém as pedras rolando.

Enquanto Beatles e Stones dominavam as paradas, nos anos 60, outros roqueiros se inseriam na cena, com propostas e características variadas. Bob Dylan, o bardo de Minnesota, de origem folk, encantava com poesias profundas e mirando um público mais intelectualizado. Quando assumiu o som eletrificado das guitarras foi um pandemônio. Seus fãs mais conservadores rejeitaram a novidade, mas o rock o recebeu de braços abertos.

Clássicos como Blowin’ in the Wind, Like A Rolling Stone, Mr. Tambourine Man, Hurricane, Lay Lady Lay, Jokerman, Love Minus Zero, My Back Pages, Idiot Wind ganharam a programação das rádios, viraram trilha sonora nos campi e nas frentes de protesto dos movimentos pelos direitos civis. Dylan foi aclamado como o poeta do rock, consagrado posteriormente com o Prêmio Nobel de Literatura. Estranho, recluso e dado a mudanças radicais nos arranjos de suas músicas, Dylan continua um provocador indomável.

Noutra direção, Jimi Hendrix fazia furor com sua guitarra incendiária e dissonante. O deus negro dos solos flamejantes morreu cedo (aos 27 anos, como Janis Joplin, Jim Morrison e Brian Jones), como todo roqueiro deve morrer, na frase célebre de Jagger. A curta carreira de Hendrix foi marcada por êxitos que tornaram sua obra definitiva e icônica. Lembro de, ainda menino, ter ouvido Hendrix nos anos 70 e não entender coisa nenhuma. Muita distorção na guitarra e ruídos que dificultavam minha compreensão. Fui entendê-lo e amar sua música somente uns 10 anos depois.

Na Califórnia ensolarada surgiu uma ramificação curiosa do rock. Com os Beach Boys surgiu o surf rock, de levada ligeira e voltado para embalar festinhas. O líder do grupo, Brian Wilson, resolveu contrariar o script e mergulhou em experimentações sonoras que desaguaram na obra-prima Pet Sounds. Um punhado de canções, amarradas numa régua conceitual, fizeram do álbum um ícone da música pop em todos os tempos.

Muitos outros artistas e bandas se movimentavam na cena roqueira do período, produzindo muito, tocando ao vivo e contribuindo para o período mais criativo do gênero. Data dessa fase a explosão de grupos como Jefferson Airplane, Animals, Procol Harum e o seminal Crosby, Stills, Nash & Young, formado por quatro músicos excepcionais, além do catártico Creedence Clearwater Revival, de John Fogerty, de som despojado, mas quase tão popular quanto os pesos-pesados ingleses Beatles e Stones.

Nesta lista resumida e seleta de nomes obrigatórios do rock, não pode faltar o Cream, primeiro supergrupo da história, power trio da pesada que reuniu os virtuoses Eric Clapton, Ginger Backer e Jack Bruce. Foram poucos discos, mas em quantidade suficiente para consagrar a fusão inglesa do blus com o rock. A partir do Cream, Clapton se lançou em carreira solo fulgurante, cultuado como herói da guitarra com direito a pichações nos muros londrinos chamando-o de The God.

Cabe registrar também o papel relevante de bandas como Byrds, Mountain, Stepennwolf e The Band, que acabaria ganhando notoriedade como grupo de apoio de Bob Dylan em discos de estúdio e turnês.

Na Inglaterra, o rock se alastrava pelos pubs e pequenos teatros, na esteira do êxito de Beatles e Stones. Yardbyrds, Kinks, The Who e Led Zeppelin seriam os representantes mais expressivos dessa segunda onda do rock britânico. Nascido de uma dissidência dos Yardbyrds, o guitarrista Jimmi Page, o Led logo se transformaria num furacão, superando seus concorrentes da época.

O gigantismo da banda, amparado no virtuosismo de Page e no carisma de Robert Plant, se traduz nas excursões megalomaníacas turbinadas por discos brilhantes e um punhado de megahits – Rock and Roll, Immigrant Song, Kashmir, Stairway To Heaven, Going to California, Celebration Day, All My Love, Whole Lotta Love.

Bill Graham, legendário promotor de shows da era de ouro do rock, diz em sua bio que o Led tinha uma aura satânica em torno de si, o que – de certa forma – se confirma com episódios traumáticos na vida da banda. A morte do baterista John Bonham determinou o fim da vida terrestre do grupo.

Depois do Led, veio o Pink Floyd, inicialmente numa linha experimental que flertava com a estética psicodélica, bem ao agrado de seu fundador Syd Barret, o grupo evoluiu para dimensões muito mais ambiciosas sob a batuta de Roger Waters e a guitarra de David Gilmour. Álbuns como The Wall, The Dark Side of the Moon e Animals colocaram o Pink Floyd no chamado primeiro time do rock.

O lado ruim da história é que, na esteira dos sons de pitada clássica de vários discos do Pink, floresceu um subgênero denominado rock sinfônico, que teve no Yes, no Focus e no Rush seus principais expoentes. A pretensão musical infelizmente não encontrou amparo nas tentativas de instaurar um novo rumo para o rock.

CENA PUNK

Como resposta à suntuosidade que o rock sinfônico tentava impor surgiu uma saudável baforada de rebeldia, fazendo renascer as bases do rock. Acordes econômicos, pegada selvagem, riffs rápidos e amplificadores no volume máximo. Exalando urgência, nascia o punk rock, inicialmente criado por um marqueteiro esperto e depois dominado pelas ruas e guetos, para expressar os anseios e recados de uma geração anárquica e niilista que não se via mais representada no rock tradicional.

Sex Pistols, The Clash, Bad Religion, Rancid, Dead Kennedys e Black Flag se destacaram no segmento, mas ninguém chegou perto do legado dos novaiorquinos Ramones, a maior banda de punk rock de todos os tempos. Joey, Johnny, Dee Dee Ramone surgiram em 1974 para arrebatarem multidões com shows rápidos e inesquecíveis.

Grupos pós-punk como Green Day assimilaram o lado rústico do gênero e adicionaram uma linha melódica mais ao sabor dos novos tempos, comercialmente falando. Em alguns momentos, a receita ficou bem interessante.

ROCK ARENA

Quando o punk parecia que ia demolir definitivamente as velhas estruturas do rock, eis que uma banda britânica de perfil grandiloquente e nome ambíguo começaria a fazer um movimento em sentido contrário. O Queen, de Brian May e Freddie Mercury, estourou no final dos anos 1970 e se manteve em alta até a morte (por Aids) de seu vocalista.

Com o mesmo aparato cênico do Queen, mas com estilo mais engajado e messiânico, os irlandeses do U2 entraram em campo nos anos 80 e se transformaram em campeões de bilheteria, com quase igual êxito junto aos críticos. Bono Vox e The Edge lideram a criação e o U2 segue firme na ativa.

INDIES & GRUNGE

No circuito universitário, bandas interessantes surgiam como formigas em torno de doces, fora do mainstream. R.E.M., talvez a mais criativa delas, e Pixies, a mais influente, são nomes a serem destacados como renovadores da linguagem roqueira. O R.E.M., que se desfez há cinco anos, se dedicou a lançar álbuns impecáveis ao longo da carreira e até hoje é referência para bandas iniciantes.

O grunge, subgênero nascido em Seattle (EUA), legou ao mundo bandas de perfil singular, focadas em letras profundas e pessoais, emolduradas por guitarras inquietas. O Nirvana, de Kurt Cobain, é o maior representante do grunge. Poucos álbuns, mas uma discografia forte e marcante.

Além do Nirvana, Seattle foi palco para Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains, além de uma infinidade de seguidores pelo mundo. Com Eddie Vedder nos vocais e um time afiado de músicos, o PJ teve o mérito de se diferenciar do padrão Nirvana, alargando o alcance do grunge e realinhando o rock como plataforma para o posicionamento político libertário e de esquerda.

SEM RÓTULOS

Ao citar bandas e nomes icônicos do rock é inevitável lembrar que todas beberam nas fontes de Berry, Beatles, Stones e de um inglês de trajetória errante, inquieta e – não raro – brilhante. David Bowie, legítimo camaleão do rock, tem lugar cativo neste pequeno manual de introdução à história do gênero. Viajou nos mais diferentes estilos e modas, da discoteca ao glam rock, do folk ao indie, sem deixar de mergulhar de cabeça nas artes visuais. Fez alguns álbuns definitivos – Station to Station, Space Oddity e o épico The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars.

Elton John, por razões diferentes, também não pode ser rotulado dentro da escala de grandes nomes do rock moderno. Um exímio artesão de canções pop, o músico inglês é um dos maiores vendedores de discos de todos os tempos, cercado da admiração de grandes nomes do gênero.

Deixei para o fim a menção aos grupos britânicos da chamada geração Britpop, como Stone Roses e Oasis, sendo que este último conquistou as paradas e construiu uma obra consistente nos anos 1990, a partir da atribulada parceria dos irmãos Noel e Liam Gallagher. A banda acabou, os irmãos mal se falam, mas a música permanece.

Da linhagem fértil do surf rock da Califórnia, fecho o guia básico com o Red Hot Chili Peppers, de trajetória meio caótica quanto à qualidade dos discos, mas certeiro na missão de levar diversão a quem ouve, um pressuposto às vezes esquecido no rock.

Bem, pessoal, esta lista tentou seguir uma ordem cronológica, tematizando o rock por estilos e tendências, mas obviamente não tem o rigor científico de uma pesquisa e nem pretende ser um ensaio, até porque todo levantamento desse tipo vem carregado de preferências pessoais. O objetivo aqui era mostrar um pouco da real grandeza do gênero que tanto amamos.

Penitencio-me com os fervorosos fãs do metal e suas centenas de subdivisões, que não tive como incluir na lista – fica para depois (me cobrem isso). Lamento também, por necessidade de condensar ao máximo o texto, ter deixado de citar um porrada de gente imensa e importante, como Tom Petty, Lou Reed, Neil Young, Joan Jett, Grace Slick, Stooges, Stone Temple Pilots, Rory Gallagher, Pretenders, ZZ Top, Bad Company, Cat Stevens, Leslie West, Jeff Beck, Scott Weiland, Blondie e meu amado Hüsker Dü.

Voltaremos ao assunto.

3 comentários em “Um breve e barulhento passeio pelas ondas do rock

  1. Prezado Gerson
    Bom dia.
    Depois de passear pela maravilhosa galeria do rock da sua matéria, gostaria de deixar aqui um trechinho do Chuck Berry, um dos meus favoritos: “Maybelline, por que você não pode ser real?
    Ah, Maybelline, por que você não pode ser real?
    Você voltou a fazer coisas que costumava fazer”.
    Abraços,
    Heraldo

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