POR GERSON NOGUEIRA

Depois de três meses, termina uma novela chata e desnecessária que angustiou e prendeu a atenção da torcida paraense. O retorno dos jogos do Parazão 2020 no dia 1º de agosto foi aclamado por unanimidade ontem à tarde em reunião do conselho técnico. A decisão restitui a normalidade das coisas e garante o cumprimento de um regulamento que foi acordado por todos os 10 clubes participantes.

Estado garante infraestrutura e segurança na abertura do Parazão

Curiosamente, desde maio, prosperou uma tentativa perigosa de mudar as regras do jogo e muitos clubes embarcaram naquela que seria uma aventura suicida para o Campeonato Paraense. Pelos mais variados interesses e contingências, pretendiam encerrar o torneio sumariamente, ainda que nem a primeira fase estivesse cumprida.

Os argumentos variaram bastante. Iam desde falta de grana para manter elencos, dificuldades para bancar os custos da retomada, exigência de definir o título conforme a classificação atual (parcial) e pleitear o fim da regra do rebaixamento.  

Felizmente, tudo acabou bem, não sem algum esforço e paciência para convencer os recalcitrantes. Ressalte-se o papel moderador exercido pela FPF, na figura do diretor Paulo Romano, que conduziu de forma habilidosa a aprovação da proposta de reinício do Parazão.

O entendimento foi tão pacífico que levou a uma novidade: a volta foi antecipada para 1º de agosto, quando todas as especulações anteriores indicavam que o recomeço seria no dia 9 ou 12 de agosto. Até a resistência manifestada por alguns clubes quanto à preparação insuficiente – exigiam cinco semanas – foi superada sem sobressaltos.

É preciso destacar que, em nome da paz mundial, os defensores do fim do rebaixamento foram atendidos, embora nem fosse tão justificado assim conceder tal benefício a clubes que tecnicamente mereciam a queda. A inclusão da obrigatoriedade de cumprimento do protocolo de segurança quanto à covid também foi item discutido e corretamente aprovado, gerando punição com perda de pontos a quem desrespeitar as normas.

O armistício selado foi construído a partir de contatos informais de Paulo Romano com representantes de sete clubes, logo depois da aprovação do protocolo de segurança pelo governo do Estado. Seguindo à risca a cartilha do Dr. Ulysses Guimarães, que pregava a tomada de decisões importantes antes das reuniões, a conversa prévia surtiu efeito e pavimentou as definições de ontem.    

Quanto ao detalhe da aventura suicida a que me referi lá no começo do texto, a explicação é óbvia. Caso os clubes desistissem do complemento do campeonato, o patrocinador da competição (Governo do Pará) certamente teria motivos para fechar a torneira financeira que mantém de pé o futebol paraense e que propicia aos clubes rendimentos que eles não obtêm em nenhum outro tipo de competição oficial.

Nem a Série C dá à dupla Re-Pa o que o Governo do Pará lhes concede em suporte financeiro. O mesmo, de forma proporcional, pode ser dito em relação aos representantes interioranos. Que o bom senso que marcou a aprovação da retomada norteie as ações dos dirigentes e que as vaidades sejam deixadas de lado, em nome do interesse maior dos clubes.

Um debate esclarecedor sobre executivos de futebol

Em live promovida ontem à noite pela advogada e desportista Vanessa Egla, o papel do executivo de futebol foi discutido ao longo de 2h, com a participação de Carlos Kila (Remo) e Sérgio Papellin (Fortaleza).

Conversamos sobre dúvidas e desinformações que rondam uma atividade profissional que existe há muitos anos, mas que só há pouco tempo ganhou a denominação atual, sustentada por cursos de aperfeiçoamento e exemplos que chegam de fora do país.

Calcada na figura do manager, comum ao futebol europeu há décadas, o executivo tem sido alvo de desconfianças em clubes que abraçaram novos modelos de gestão de futebol. Torcidas como a de Remo e PSC costumam ainda ter um pé atrás em relação aos profissionais.

Papellin e Kila discorreram pacientemente sobre as tarefas e responsabilidades de um executivo. Pelo que faz no Fortaleza, hoje na Série A, Papellin observou a fundamental importância de uma estrutura administrativa que valorize o trabalho de prospecção de atletas e de relacionamento interno na área do futebol.

Kila, que teve passagem pelo Ceará Sporting e pelo Grêmio antes de ser contratado pelo Remo, projetou um recomeço de temporada mais auspicioso para os azulinos. Explicou os critérios de contratação de jogadores mais rodados, como Zé Carlos e Marlon.

Segundo ele, em sintonia com o técnico Mazola Jr., o clube decidiu abraçar uma estratégia de mesclar jogadores com experiência na disputa das Séries B e A, a fim de suprir um problema verificado na Série C do ano passado, quando o Remo teve um excelente início, mas depois perdeu gás.

O papo foi proveitoso, estimulou novos debates e adicionou conhecimento a muitos, como eu, que veem o executivo de futebol apenas como responsável por contratar atletas. A abrangência da função é bem mais ampla e complexa do que isso.

Derrame de dinheiro para compensar a falta de Neymar

Jornais espanhóis admitem que o Barcelona, em vias de ficar sem o título de La Liga, perdeu tempo e um caminhão de grana nos últimos anos no afã de achar um novo Neymar. Antoine Griezmann foi o primeiro deles. Custu 120 milhões de euros, mas não frutificou até agora, embora seja muito utilizado pelo desgastado técnico Quique Setien.

Encontrar um novo parceiro para Suárez e Messi mostra-se uma tarefa quase impossível para o Barça. Nas buscas por esse jogador o clube já torrou R$ 2,4 bilhões. Além de Griezmann, trouxe Philippe Coutinho (que custou R$ 889 milhões) e Ousmane Dembelé (R$ 767 milhões).

Ironicamente, a resposta para solucionar o problema talvez esteja na rota Barcelona-Paris. Messi e Suarez já deixaram claro, em campo e fora dele, que Neymar é peça quase insubstituível. Ressuscitar a sigla MSN vai depender, além da declarada vontade de Neymar, dos humores de conselheiros e dirigentes do Barça. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 03)

2 responses to “A vitória do bom senso”

  1. Avatar de Jorge Amorim
    Jorge Amorim

    Já eu vejo uma decisão marcada pela insensatez, contribuindo ainda mais para prejuízo dos já endividados clubes paraenses. Já que não aceitaram a sugestão do Paysandu. Que se proclamasse todos campeões e dividisse o dinheiro do prêmio entre eles. Pra variar os abutres da FPF são os únicos que levam vantagem: não gastam nada,ganham seus percentuais e ainda vão dividir o dinheiro da premiação com o custo da logística que é responsabilidade dela, federação. Um golpe de malandros.
    Quanto ao patrocinador, é fato que o dinheiro público não pode ser ‘doado’ sem uma contrapartida, todavia, como a malfadada competição já ultrapassou seus 75%, que as cotas fossem divididas proporcionalmente, adicionando um bônus em razão da pandemia. Melhor do que misturar com a Série C. Prevaleceu a falta de bom senso, aliás, marca registrada da FPF.

  2. Avatar de Miguel Silva
    Miguel Silva

    Sobre o patrocínio estatal ao campeonato paraense de futebol, o governo atual e anteriores viram a competição não apenas como fator de lazer da população, mas também como elemento de integração de um estado de território grande e diversificado, além de populoso. Não faz muito tempo que o Pará superou o risco de se dividir territorialmente e a participação de clubes do interior e das regiões que ameaçaram se tornar independentes no campeonato estadual foi fator, entre outros, de amenização de diferenças. Portanto, houve um jogo de interesses, para o bem, em tornar o campeonato paraense em verdadeiro campeonato regional. Vejo apenas que o patrocinador master deveria exercer maior cobrança sobre a FPF quanto a estrutura dos estádios, maior participação de jogadores jovens e nativos e maior preparo e rigor das arbitragens, estas sempre prontas a favorecer a dupla Re-Pa. Mostrar as partidas ao vivo pela TV para todo o estado estimula o interesse do paraense, torcedor de times do eixo Rio-São Paulo, em se identificar ainda mais por seus times locais.

    O tal executivo de futebol pode até ter outras atribuições importantes, mas no Remo, que acompanho mais de perto, e no seu grande rival, não passa de mercador de jogadores profissionais. Deve ganhar um bom salário, pois é profissional importado, suposto conhecedor dos insumos disponíveis nos grandes centros futebolísticos do país. Os analistas poderiam fazer levantamento da quantidade de barangas contratadas desde que esse profissional começou a dar as cartas por aqui. Suponho que sejam muitos.

Deixe uma resposta para Jorge AmorimCancelar resposta

Quote of the week

"People ask me what I do in the winter when there's no baseball. I'll tell you what I do. I stare out the window and wait for spring."

~ Rogers Hornsby

Designed with WordPress

Descubra mais sobre Blog do Gerson Nogueira

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading