Lembranças do grande João

POR GERSON NOGUEIRA

Comunista, João Saldanha jogou com o futebol e a vida - O outro ...

Dia desses, revirando livros sobre futebol, encontrei “Os Subterrâneos do Futebol”, de João Saldanha, e ali me dei conta de que um dos maiores nomes do futebol mundial anda prematuramente esquecido. Sumiu dos comentários dos analistas nacionais, não é lembrado nem mesmo quando a quarentena obriga reprises na TV. Revi jogos da Copa de 1970 sem que ninguém tivesse a decência de lembrar que a Seleção do Tri nasceu de uma convocação de João, ainda em fevereiro de 1969.

Seu nome foi lembrado pela então CBD após o fiasco do Brasil na Copa de 1966, na Inglaterra. Antonio do Passo foi encarregado de fazer a célebre proposta. “É convite, ou sondagem?”, indagou João. “Convite”, disse o dirigente. A resposta veio na bucha: “Topo!”.

Ao longo do tempo, muitos tentaram diminuir a importância de Saldanha na campanha do tricampeonato. Pertencem a ele os méritos pela estupenda campanha nas eliminatórias daquela Copa, a montagem do escrete e a formação da primeira comissão técnica de alto nível.

Os tempos obscuros, com ideias turvas e fascistas perpassando a realidade, talvez expliquem o absurdo esquecimento do nome de João quando o assunto é o futebol brasileiro dos anos 50 em diante. O historiador Raul Milliet Filho, estudioso do trabalho do ex-técnico e jornalista, levantou a lebre num oportuno artigo na semana passada, inspirador deste comentário.

João Saldanha, o "João sem medo" | IELA - Instituto de Estudos ...

Saldanha, que se filiou ao Partido Comunista em 1942, foi um homem de sete instrumentos e várias competências. Foi comentarista esportivo, diretor de futebol, técnico, campeão pelo mesmo Botafogo em 1957. Teve tempo de jogar futebol de praia no time comandado por Neném Prancha, ao lado de figuras como Sérgio Porto, Heleno de Freitas e Pirica. Era amigo e parça de Nélson Rodrigues, Luiz Carlos Prestes e Oscar Niemeyer.

Um cidadão do mundo, personagem riquíssimo pela agilidade intelectual, frases cortantes e coragem inquebrantável. Convidado para assumir a espinhosa missão em 1969, tascou logo a convocação dos 22 jogadores, escalando s titulares: Félix, Carlos Alberto, Djalma Dias, Brito, Rildo, Wilson Piazza, Gérson, Jairzinho, Dirceu Lopes, Pelé e Tostão. E os reservas: Cláudio, Zé Maria, Scalla, Joel, Everaldo, Clodoaldo, Paulo César, Paulo Borges, Toninho, Rivelino e Edu.

Criou “as feras da Saldanha” por entender que era necessário “desafrescalhar” aquele papo de “seleção canarinho”. João, dado a teorias bem singulares, costumava dizer que o homem é a fera mais perigosa, portanto. “Não quero nenhum mocinho no meu time. Convoco o jogador para defender a Seleção, não para casar com a minha filha”.

Fez o óbvio que os antecessores na Seleção insistiam em não seguir. Priorizou jogadores de Santos, Botafogo e Cruzeiro, os melhores times de então. O Botafogo, paixão maior, entrou na vida de João bem antes de sua mudança do Rio Grande do Sul para a área praiana do Rio de Janeiro.

Em General Severiano, foi jogador de basquete e futebol. Força e disciplina, mas quase nenhum talento. Teve Tim (Elba de Pádua Lima) e Heleno como companheiros de treinos e rachões. Afiou o senso de observação e aprendeu como os times se organizam em campo.

Aprimorou o conhecimento técnico com o húngaro Dori Kürschner, que desembarcou no Brasil em 1937, treinando Flamengo e Botafogo. João ficou ligado nas noções do sistema WM, que Kürschner cultuava. Virou tradutor ele e aí fez um curso intensivo de táticas e fundamentos.

Para Saldanha, o húngaro tirou o futebol brasileiro da Idade Média. Vem desse período a noção, para ele, de que futebol é essencialmente arte popular. Foi campeão com o Botafogo, em 1957, com um time liderado por Mané Garrincha, desde sempre o maior jogador que viu atuar, segundo suas próprias palavras. O paraense Quarentinha, dono de um canhão nos pés, formava com Paulo Valentim a dupla de artilheiros do time.

O Botafogo atuava no sistema 4-3-3, com Edson fazendo o papel de ponta recuado pela esquerda, fato que desmente críticos (Parreira e Zagallo) que diziam que João só treinava times no 4-2-4 básico. Zagallo, aliás, como jogador teve a contratação recomendada por Saldanha justamente pela facilidade de compor o 4-3-3.

Se Saldanha fosse o técnico da seleção, o tri viria mesmo assim ...

Em uma das excursões com o Botafogo, João testemunhou o nascimento da expressão “olé” no futebol. O jogo era Botafogo x River Plate, no estádio Universitário do México, diante de 100 mil pessoas. Em “Os Subterrâneos do Futebol”, ele descreve a apoteose.

“Estava muito difícil fazer gol. Poucas vezes vi um jogo disputado com tanta seriedade e respeito mútuos. Mas houve um espetáculo à parte. Mané Garrincha foi o comandante. Dirigiu os cem mil espectadores. Fazendo reagirem à medida de suas jogadas. Foi ali, naquele dia, que surgiu a gíria do ‘Olé’, tão comumente utilizada posteriormente em nossos campos. Não porque o Botafogo tivesse dado olé no River. Não. Foi um ‘Olé’ pessoal. De Garrincha em Vairo. (…) Toda vez que Mané parava na frente de Vairo, os espectadores mantinham-se no mais profundo silêncio. Quando Mané dava aquele seu famoso drible e deixava Vairo no chão, um coro de cem mil pessoas exclamava: ‘Ôôôôô’! O som do “olé” mexicano é diferente do nosso. O deles é o típico das touradas”. Não poderia ter havido maior justiça a um jogador que a que foi feita pelos mexicanos a Mané Garrincha. Garrincha é o próprio olé”.

Quase não mencionei o Saldanha intelectual, comentarista idolatrado pelas massas no rádio e na TV, dono de olhar aguçado sobre o futebol e o cotidiano. Nunca escondeu o espírito indômito em defesa de sua crença comunista, nem mesmo quando Médici quis impor Dario na Seleção.

A história é conhecida. João disse que o general escolhia seu ministério, ele convocava seus jogadores. Caiu e, de imediato, Zagallo tratou de obedecer ao general chamando Dadá, que não entrou em nenhum jogo da Copa do México. Apenas esse episódio é ilustrativo da envergadura moral de João Saldanha, que nos deixou em 90 durante a Copa da Itália.

RBA revive história do tabu e alegra corações leoninos

Depois de breve adiamento, provocado por mudanças na grade nacional da Band, a RBA brindou seus telespectadores, emocionando principalmente a torcida azulina, ontem à tarde, com o programa especial “Você torceu aqui” revivendo o tabu de 33 jogos do Leão sobre o Papão.

Um cuidadoso trabalho de edição resgatou imagens dos jogos da série invicta, tão cara ao Fenômeno Azul, que considera o tabu um dos maiores feitos da história do clube. Pelo equilíbrio de forças entre os rivais, manter tamanho número de jogos sem perder é de fato uma façanha memorável.

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 11)

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