Um domingo dantesco e preocupante

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia 

No sábado de carnaval, um fraterno amigo ligou perguntando se eu estava no Rio ou em Petrópolis, sabedor que costumo dividir a semana entre esses dois mundos. 

Respondi que não, que tinha vindo para a melhor cidade do Brasil onde passar o carnaval. “Olinda?”, perguntou ele. E respondi: “Não, não: Curitiba.” Ele ficou em silêncio por uns segundos, sem entender.

Explico: de uma caretice inigualável, a cidade que idolatra Jair Messias e Sergio Moro mergulha num silêncio olímpico, quase melancólico, nesses dias em que o país inteiro se sacode de alegria (ou último recurso de sobrevivência, vai saber…). 

Como só tenho aqui um amigo, aliás esplêndido escritor, e uma amiga, fico em paz no meu canto, lendo, escrevendo e comendo de maneira esplêndida, sem hora para nada.

Estaria, pois, tudo ótimo, se eu não tivesse cometido uma asneira imensa: neste domingo, resolvi dar uma espiada no youtube. 

E me deparei com algo tão patético, tão dantesco, que levei um par de minutos para entender que também se trata de algo preocupante.

Estou me referindo ao desfile de empáfia e vaidade de Jair Messias por alguns lugares de Praia Grande, uma cidade de classe média (em parte) ou classe popular (na maioria) do litoral sul de São Paulo. 

Ele também perambulou pelo Guarujá, a outrora área dos elegantes que de alguns muitos anos para cá não fez mais que decair, e onde ele está guardado numa base militar.

Alguns pontos chamaram minha atenção.

O primeiro deles: as cenas gravadas tiveram o cuidado específico de concentrar as imagens fechadas, não permitindo que se calculasse a dimensão exata dos fanáticos adoradores de Jair Messias. Além disso, não mostraram os preparativos e a chegada do comboio presidencial, para transmitir a sensação de espontaneidade: o senhor presidente ia passando por ali, puro acaso, e resolveu dar uma paradinha para cumprimentar o povo.

Em todo caso, foram manifestações expressivas. É possível dizer, com margem amplíssima de segurança, que cada parada de Jair Messias reuniu ao menos um par de centenas de pessoas. Como dificilmente haveria modo de arrebanhar previamente todas elas, como é feito todo santo dia na porta do Palácio da Alvorada, existe pelo menos um verniz de autenticidade no que se viu.

O segundo ponto: a mais que justificada angústia dos seguranças de Jair Messias. Enquanto o deputado federal carioca Hélio Lopes, que é chamado de “Hélio Negão”, se dividia minuciosamente entre o papel de papagaio de pirata e o de guarda costas presidencial, os verdadeiros seguranças pareciam baratas tontas sem saber como agir.

Eu me diverti especialmente com os encarregados de carregar algo parecido a pastas de couro, mas que são escudos que podem ser abertos em frações de segundo. Jair Messias distribuindo abraços, pegando crianças no colo, abraçando velhotes e velhotas, e eles lá, desesperados por terem plena e absoluta consciência dos perigos corridos pelo fanfarrão abobado.

E, finalmente, o terceiro ponto: o esgar de Jair Messias, o seu sorriso de gesso com a autenticidade de uma nota de três reais e dez centavos, o olhar enfermiço de um desequilibrado sem volta. 

Um manipulador, sim, é claro. Mas que sabe perfeitamente o que faz, e qual o seu público a ser fortalecido e, eventualmente, ampliado. 

Jair Messias em ação de teste de popularidade é um espetáculo dantesco. Enquanto o país vê a economia agonizante, enquanto aberrações destroçam o sistema de educação, de saúde, do meio ambiente, das relações externas, da previdência social, dos programas sociais, enfim, enquanto o país afunda, essa figura tresloucada age como se nada importasse mais do que sua ânsia incontrolável de não parecer o que realmente é: uma boçalidade ambulante.

E aí está o aspecto preocupante do que eu e centenas de milhares de brasileiros vimos neste domingo de carnaval: o país não reage aos absurdos impostos por Jair Messias e seu governo degenerado.

É como se tudo fizesse parte de uma nova normalidade: normal o desemprego, normal policiais amotinados serem defendidos pelo presidente da República, normal o fim de programas sociais, normal tudo de tenebroso que acontece à nossa volta.

O país não reage, o povo não reage. E assim vamos todos naufragando, conduzidos por um cafajeste que ninguém controla.

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