Dois Brasis

Por André Forastieri

“Mas tu só fala de gringo nessa newsletter, rapaz, tu não presta atenção em nada made in Brasil?” Olha, difícil. Difícil eu ver filme nacional, ouvir música brasileira, ler romance daqui. Não vou ao teatro há uns trinta anos. Acompanho HQ nacional, que tal? 

Fato da vida: meus baratos são em outras línguas, principalmente inglês. Inclusive prefiro ler Montaigne e Italo Calvino em inglês que em português. 

Esnobismo zero. Sou 100% tupinambá, caipira de Piracicaba, e escolhi São Paulo pra viver, desde 1983. Não tenho a menor ilusão de viver em outro lugar que não este bananão maldito. 

Ou melhor: estes bananões.

O Brasil é engraçado. Melhor dizendo: esses dois Brasis são engraçados. Tem essa turmona que canta junto com a Marília Mendonça, assiste Sílvio Santos e compra produtos anunciados pela Grazi. E tem uma microturma, mais ou menos a minha, que vive com a cabeça em outras latitudes.

Uns mais indies, outros supergeeks, outros definitivamente cabeções, juntando tudo dá o quê, uns 5% dos brasileiros? Acho que menos. A primeira turma não sabe que a segunda existe.

A segunda turma preferia que a primeira não existisse. Ou faz de conta que não existe e pronto. 

Isso fica muito explícito quando você lê nossa imprensa, e nossa imprensa cultural. É esquizofrênico como uma parte da imprensa ignora e outra incensa o que é popular. Uma, a título de “jornalismo de verdade”, que valoriza “qualidade”, versus jornalismo de celebridades.

Outra, porque “é isso que o povo quer”, e tome fofoca sobre os famosos pra dar clique. Jornalista é classe média, ou média para alta, metido a besta profissional, e quando é jornalista cultural, mais ainda. 

Estudamos e moramos em cidades grandes, e se não somos nativos, viemos fugidos do interior. São Paulo tem gente à beça com a cabeça em Londres, Nova York, Barcelona, sei lá. Jornalistas, marketeiros, culturetes. Como dizia o Alex Antunes, “São Paulo não fica no Brasil, fica no mundo.”

Mas o mundo inclui o Brasilzão popularzão, o que a microturma frequentemente não enxerga, ou reconhece. Não é só questão de classe social. Jornalista é sempre elite, mesmo vendendo o almoço pra pagar a janta. E os nossos ricos são tosquésimos. 

Trilha sonora de Bar Mitzvah agora é funk putaria, me informam informantes infiltrados na adolescência atual. Jornalista Cultural muitas vezes escreve para seus amigos, sua panela. Que muitas vezes inclui artistas, o que é péssimo.

Nunca entendi ou curti esse lance de jornalista frequentar seus assuntos. Distância facilita independência e honestidade. Donde sempre há espaço e proteção para artistas do circuito alternativo. Se for minoritário / progressista, mais ainda. Sempre foi assim, agora é mais que nunca. 

Há grande leniência com música “de pobre”, contanto que “raiz”, da “comunidade”, empoderadora etc. Não vou te entediar com minha opinião sobre Ludmilla e Nego do Borel. Só observo que, tirando esta exceção, a distância entre a “alta” e “baixa” culturas. 

Aconteceu em algum momento uma bifurcação? É geracional? É política, porque os sertanejos são bolso? É a internet, que estimula viver em bolhas? 

Passei infância e juventude no universo do Chacrinha / Bolinha / Raul Gil / Barros de Alencar. Não porque era exótico, mas por afeto e afinidade. Sei cantar uns 90% das músicas que tocaram nesses programas entre 1975 e, sei lá, 1988.

Barcinski e eu fomos naquele show “O Cassino do Chacrinha”, uns anos atrás. Pedimos autógrafo para Lilian, “Eu Sou Rebelde”, e tietamos Jane e Herondi… 

Durante esse mesmo período “de formação” em que eu babava pelas pernas da Fernanda Terremoto, ouvia música gringa, pop e obscura. E entre bacalhaus e bundas, lia um monte de coisas gringas, pop e obscuras. 

Eu não via e não vejo contradição entre curtir coisas extremamente populares e extremamente impopulares. Tenho um punhado de amigos iguais, da mesma geração. 

Uso igualmente meus judiados neurônios para fazer sentido de Anitta ou do queridinho das artes plásticas desta semana. De Joseph Conrad ou do Picapau. Não aprecio nada por ser brasileiro ou gringo. Nem por ser famoso ou desconhecido, milionário ou maldito, abençoado ou rejeitado pela crítica.

Não sei pensar a não ser desse jeito bem aberto e bem fechado, bem rampeiro e bem arisco. Essa visão, digamos, democrática, determina minha visão do que deve ser política cultural neste país. Tudo que o mercado tem condições de bancar sozinho, não deve ter grana de dinheiro público. Como essas comédias da Globo Filmes e show do Luan Santana. 

Mas deveria ter dinheiro público para bancar essas exatas coisas pro povão. Que adoraria curtir isso tudo e não tem como pagar entrada. Foi a melhor ideia da Marta Suplicy como ministra, Vale-Cultura, e deveria ter ido pra frente. Well, agora Cultura virou um puxadinho no ministério do Turismo… 

E precisa ter dinheiro público para sustentar a produção e distribuição da arte mais impopular, experimental e herética. Que o mercado não valoriza, a crítica não aplaude, o padre condena, e a mocinha politicamente correta abomina. E, sim tem que dar treta. 

Arte, política, ideologia, tecnologia, economia, da classe A à classe E, e do inescapavelmente popular ao eternamente obscuro – é tudo cultura. 

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