Jesus derruba conceitos

POR GERSON NOGUEIRA

Além das muitas alegrias proporcionadas à torcida do Flamengo, com campanha impecável até agora no Campeonato Brasileiro e favoritismo destacado em relação ao título da temporada, o técnico Jorge Jesus tem dado contribuições interessantes ao debate sobre algumas questões fundamentais do futebol no país.

Como costuma se comportar nas entrevistas, Jesus foi além da simples análise do jogo de anteontem em Fortaleza. “Minha cultura não é essa de poupar. E os jogadores provam domingo a domingo. Descansar? Isso não existe. Vamos descansar nos dias que temos. Quinta, sexta, sábado. Domingo é para correr. Se tivermos jogadores com sinais de lesão é outra coisa”, afirmou.

A sentença, proferida ainda na Arena Castelão, logo após a vitória flamenguista, é o ponto-chave da entrevista do treinador português. Com esse argumento bem explicado, Jesus derrubou teorias defendidas nos últimos anos pela maioria dos técnicos nacionais.

Durante anos, essa tese foi difundida como verdade absoluta por técnicos e até analistas esportivos que adoram macaquear conceitos de fisiologia e condicionamento. Poupar jogadores, num calendário caótico como o brasileiro, era regra aplaudida sem questionamentos.  

O Palmeiras chegou ao cúmulo, no ano passado, de utilizar times diferentes nas competições mais importantes – Brasileiro e Libertadores. Gastou rios de dinheiro para montar um elenco de alta qualificação e espraiou pelo país a ideia de que o êxito dependia diretamente disso.

Técnico do Palmeiras em 2018, Felipão foi aclamado à época por ser extremado defensor desse conceito, que, obviamente, só clubes muito endinheirados podem se dar ao luxo de botar em prática. Aí, de repente, chega mister Jesus e contesta tudo isso, com argumentação convincente.

Na cabeça de Felipão e outros técnicos, num elenco recheado de grandes jogadores seriam mais fortes as justificativas para poupar. A única ressalva feita por Jorge Jesus é quanto à necessidade de levar em conta exames que indiquem possibilidades de lesão.

O grande problema agora será modificar o que parecia lei instituída entre técnicos, jogadores e até dirigentes. Poupar boleiros virou sinônimo de modernidade, afinal, diziam, a Europa trabalha assim. Até na Série B já havia gente defendendo a causa. Jesus veio avisar que não é bem assim.

Poupar, no limite do razoável, deve ser aceito em jogos amistosos ou confrontos contra equipes inferiores tecnicamente em campeonatos regionais. Em competições de primeira linha, como Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores, é atitude inadmissível e irresponsável.

Profissionais bem preparados, cercados de conforto e cuidados médicos de toda espécie, jogadores de futebol estão aptos a enfrentar rotinas rigorosas de jogos e treinamentos. O ofício exige isso. Jesus, com simplicidade, colocou a coisa na perspectiva correta.  

A prática respalda o discurso. O Flamengo de Jesus não poupa seus melhores atletas. Pelo contrário. Põe todos para jogar e, por isso mesmo, o desempenho é sempre em alto nível, com um futebol bonito de ver.

Papão prioriza montagem da base para 2020

Enquanto busca movimentar a equipe nas semanas que antecedem a decisão da Copa Verde (prevista para 13 e 20 de novembro), o PSC trabalha para manter em 2020 seus principais jogadores, com desempenho considerado satisfatório em 2019.

Com Hélio dos Anjos já confirmado no comando para a próxima temporada, o esforço agora é direcionado para formar uma base técnica confiável para iniciar a montagem do time para o próximo ano.

Pela regularidade, pela importância que tem para a equipe e pelos gols decisivos, o atacante Nicolas é prioridade máxima no clube. O problema é que a boa atuação em 2019 deu visibilidade e valorizou o atleta. Londrina, Novorizontino e Náutico demonstram interesse em sua contratação.

A expectativa é de que, antes dos jogos finais da CV, Nicolas já esteja assegurado para o ano que vem, ao lado de Vinícius Leite e Elielton, nomes também considerados fundamentais por Hélio dos Anjos.

Exemplo de Mané destoa da badalação boleira

Nem tudo é ostentação no mundo da bola. Disseminados pela internet, comentários do senegalês Sadio Mané, do Liverpool, têm causado forte impacto pelo fato de se contrapor à imagem que os milionários astros do futebol cultivam há muito tempo. Suas frases são cruamente verdadeiras:

“Para que quero dez Ferraris, 20 relógios com diamante e 2 aviões? O que faria isso pelo mundo? Passei fome, trabalhei no campo, joguei descalço e não fui ao colégio. Hoje posso ajudar as pessoas. Prefiro construir escolas e dar comida ou roupa às pessoas pobres”.

“Construí escolas, um estádio, proporcionamos roupa, sapatos e alimentos para pessoas em extrema pobreza. Além disso, dou 70 euros por mês a todas as pessoas em uma região muito pobre de Senegal para contribuir com sua economia familiar”.

O futebol atual vive entregue ao hedonismo e à gastança desenfreada. Grandes marcas patrocinam clubes e jogadores de renome, jogam milhões no balcão a cada renovação de contrato.

Messi, o maior jogador da atualidade, não é performático, mas se mantém longe dos holofotes. Pouco se sabe dele. Cristiano Ronaldo é o oposto, com suas aparições cinematográficas e atitudes de superstar.

Em geral, supercraques se comportam, quase sempre, com a petulância dos grandes nomes do rock e da música pop. Mané, originário de um país assolado pela fome e a miséria, é um saudável exemplo de consciência.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 18)

2 comentários em “Jesus derruba conceitos

  1. Trazendo pra nossa realidade, o que justifica o Paysandu dar dez dias de folga ao elenco quando terá uma decisão dificílima logo a seguir? Será que não seria melhor aproveitar esse mês que teve de intervalo pra tirar ao menos parte da nítida desvantagem técnica que leva em relação aos dois que disputam a chance de decidir a Copa Verde?
    Sempre me incomodou ver nossos times jogarem na quinta ou sexta feira, pela Série C, com reapresentação do elenco na segunda-feira à tarde da semana seguinte. Será que os boleiros passavam esse tempo todo descansando?
    Como disse o Zé Elias, em um desses muitos programas de debate, o jogador gosta de jogar e nesses tempos de avanço da medicina e fisioterapia é fácil detectar seus limites. Se o treinador é discretamente chinelinho, por que o atleta vai na contrariá-lo?

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