De modos distintos e combinados, o governo vive sob o signo da morte

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Por Reinaldo Azevedo

Um conflito entre facções rivais no Pará, no Centro de Recuperação Regional de Altamira, fez 57 mortos, com 16 decapitações. Tudo indica ser um capítulo do conflito entre o Comando Vermelho e o PCC (Primeiro Comando da Capital), que tem uma espécie de subsidiária no Estado: o Comando Classe A. O 29 de julho merece entrar para o nosso calendário político. Foi o dia também em que o presidente da República se referiu duas vezes à morte de Fernando Santa Cruz, ocorrida em 1974, nas dependências do DOI-CODI do Rio. Fernando era pai de Felipe Santa Cruz, atual presidente da OAB, que tinha dois anos à época.

Primeiro o presidente desafiou Felipe se este queria realmente saber como o pai havia morrido. Depois, numa transmissão ao vivo, enquanto tinha o cabelo cortado, contou uma mentira grotesca: afirmou que Fernando, que era membro do grupo de esquerda Ação Popular, tinha sido assassinado pela própria organização a que pertencia. Para registro: o corpo nunca foi encontrado.

Bolsonaro ainda houve por bem comentar uma tragédia havida no Rio: num surto, Plácido Correa de Moura, morador de rua, matou duas pessoas a facadas e feriu uma terceira. A Polícia reagiu atirando. Acertou as pernas do assassino, mas também a da cabo enfermeira Girlane Sena. O capitão médico Fábio Raia foi atingido por estilhaços. Ambos pertencem ao Corpo de Bombeiros e estavam no local para socorrer as vítimas de esfaqueamento. Um PM foi baleado de raspão.

E o que Bolsonaro tem a dizer a respeito? Isto: “Um morador de rua esfaqueou, matou, executou duas pessoas no Rio de Janeiro. Agora, não tinha ninguém armado para dar um tiro nele, é impressionante. Mas tudo bem. Estava drogado o cara? Tá certo. Viciado em drogas”.

Ah, sim: Wilson Witzel, governador do Rio, afirmou que teria dado um tiro na cabeça de Plácido. Sobre a ação obviamente desastrada da PM, não soltou uma palavra. Parabenizou a corporação pelo resultado. Sobre o massacre havido no Pará, Bolsonaro nada disse. Reagiu como se não tivesse acontecido, e isso explica seu jeito de ver o mundo e algumas características de seu governo. Observem que ele usa o caso do Rio para, mais uma vez, fazer a defesa do armamento da população.

Ora, o episódio aponta em sentido inverso: mesmo os tiros tendo sido disparados por policiais, que são experientes, pessoas inocentes foram feridas. Imaginem as consequências de amadores armados saírem por aí resolvendo conflitos à bala.

Temos no comando do país — e está certo Felipe Santa Cruz ao apontá-lo — um homem incapaz da empatia. A morte e o sofrimento dos outros não o mobilizam minimamente. Ou por outra: servem apenas a seu proselitismo raso. Como Bolsonaro identifica no presidente da OAB um inimigo, não hesita em vilipendiar a memória de alguém que foi torturado e morto se isso servir de instrumento de ataque. O que o sensibiliza no caso das facadas não são as mortes ou a dor dos familiares das vítimas, mas uma espécie de ódio redentor que põe na mão de cada homem uma arma para eliminar seu inimigo.

As fotos das cabeças cortadas certamente chegaram ao presidente. O Youtube está coalhado de vídeos que deixam claro o que ele pensa sobre presos e presídios. Não são pessoas que mereçam a sua atenção porque, afinal, estariam recebendo o tratamento justo. Como é mesmo? Ele só entende “direitos humanos para humanos direitos”. É uma estupidez. A rotina de maus-tratos nos cárceres brasileiros é o principal combustível da expansão e multiplicação dos partidos do crime. Ou por outra: os 57 mortos no presídio do Pará são parte do ciclo criminoso que aterroriza a sociedade uma vez que o ajuste de contas se dá também do lado de fora. Inexistem países que maltratam seus presos e tratam com dignidade o cidadão comum.

Dado o quadro de horror, Bolsonaro poderia, ao menos contar com um ministro da Justiça que fizesse, em seu lugar ou em seu nome, a coisa certa. Ocorre que Sergio Moro já não está mais entre nós. Hoje, está tentando salvar o que dá de sua biografia. Antes de cair em desgraça, enviou ao Congresso um pacote anticrime que contribui para o encarceramento, acirrando as condições já miseráveis dos presídios.

Temos um governo que, de modos distintos e combinados, vive sob o signo da morte. E, creiam, não há perigo de isso dar certo.

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