Pachequismo demais atrapalha

POR GERSON NOGUEIRA

O Brasil entra em campo hoje apenas para levantar a taça e botar a faixa de campeão do continente. A decisão com o Peru é vista assim por muita gente, quase que como um mero protocolo de consagração. Ora, o Peru… Ouço o tempo todo essa frase pedante e zombeteira desde quarta-feira à noite, depois que o time de Guerrero se classificou à final.

O entusiasmo que grande parte da mídia insufla, com repórteres-torcedores dando hip-hurras à Seleção, acaba por contagiar a torcida e até faz emergir aquele velho sentimento pachequista que parecia adormecido.

A alguns, como eu, esse comportamento só provoca asco e a lembrança imediata de fracassos retumbantes que se construíram na algazarra do oba-oba midiático.

Nesse clima, muita gente até já esqueceu os problemas enfrentados pelo time de Tite nos últimos jogos. Os sérios atropelos contra Venezuela e Paraguai, por exemplo. Lembram apenas – e com ênfase – da goleada sobre o próprio Peru e, obviamente, da vitória sobre a Argentina.

Em meio a esse crescente sentimento de euforia, o Brasil parece marchar para um inevitável passeio sobre os peruanos no Maracanã lotado, com direito a volta olímpica para todos os gostos e intenções.

seleção-brasileira-brasil-tite

Óbvio que a Seleção tem lá seu grau de favoritismo. Faz campanha estatisticamente correta numa competição sofrível, com poucos destaques memoráveis. Não sofreu gol até aqui e parece ter finalmente adquirido aquele nível de confiança que blinda os vitoriosos.

O retrospecto também é arrasador. O confronto entre os dois times na fase inicial expôs o desnível técnico, acentuado pelas falhas tenebrosas do goleiro Gallese, responsável direto pelos três primeiros gols.

A fotografia daquele momento permitiria cravar o Brasil como imbatível para hoje. Ocorre que o futebol vira a página a cada jogo, e a graça da coisa está justamente aí. Assim como o Brasil adquiriu mais consistência, o Peru evoluiu, tornou-se competitivo, a ponto de surpreender todo mundo ao eliminar Uruguai e Chile.

Gallese, vilão daquela partida, tornou-se herói nacional no Peru, pelas defesas diante do Uruguai e pequenos milagres contra o Chile. O Brasil não fica atrás em mudança de expectativa. Daniel Alves, à beira da aposentadoria, virou craque da Copa após a atuação na semifinal. Já há até quem defenda sua convocação prévia para 2022, quando terá 39 aninhos.

Tamanho disparate só evidencia que o país apaixonado por bola parece não conviver bem com a ideia de que os anos dourados ficaram para trás – em todos os sentidos. Em meio a isso, surge a estranha boataria envolvendo uma possível saída de Tite. Se confirmada, seria o melhor dos mundos, para todos. A Seleção ficaria, seguramente, menos chata.

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Uma final digna de atenção e respeito

EUA e Holanda se enfrentam hoje, em Paris, na decisão da Copa do Mundo feminina. Até a emissora que comprou os direitos (e que havia anunciado com estardalhaço a transmissão inédita do mundial) se deu conta da bobeira de ter privado os telespectadores de assistir a jogos muito bons.

Tudo em nome da mania de subestimar a inteligência das pessoas. Como “as meninas do Brasil” haviam saído, julgaram que não havia motivo para continuar mostrando o torneio justamente em suas fases mais decisivas e interessantes.

Por isso, o grande público não viu apresentações arrasadoras da seleção norte-americana, sob a liderança da estupenda Alex Morgan, artilheira de altíssimo nível. Melhor jogadora do torneio, a camisa 13 mistura oportunismo e habilidades. Chuta muito bem e cabeceia melhor ainda.

Alex foi decisiva na semifinal contra a Inglaterra, contribuindo muito para a grandeza da partida, talvez tecnicamente a melhor dos últimos tempos no futebol feminino. Deu gosto ver o duelo tático, a troca de passes e até os dribles que inglesas e americanas mostraram em campo.

Hoje, a jovem e aguerrida Holanda terá um desafio monumental. Superar a favoritaça esquadra de Tio Sam. E aqueles que gostam de futebol, sem preconceitos em relação ao jogo das meninas, têm o compromisso de aplaudir Alex Morgan, goleadora e atleta politicamente consciente.

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Bola na Torre

O programa começa às 22h na RBATV, sob o comando de Guilherme Guerreiro. Tudo sobre os jogos das séries C e D. Na bancada de debatedores, Giuseppe Tommaso e este escriba de Baião.

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Prestar contas é sempre um triunfo da transparência

A notícia de que o Conselho Deliberativo do Remo aprovou a prestação de contas dos primeiros quatro meses da gestão de Fábio Bentes é um saudável sinal de que o clube, de fato, navega em águas mais transparentes, após maremotos recentes que quase levaram à sua destruição. A prestação também foi disponibilizada no site oficial para consulta de todos os interessados.

A segunda prestação já está encaminhada para análise dos conselheiros, encerrando a prática de apenas uma prestação anual, quase sempre mal feita e entregue com obsceno atraso, como tantas vezes ocorreu na gestão de Manoel Ribeiro. Que o hábito crie raízes e frutifique.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 07)

Um comentário em “Pachequismo demais atrapalha

  1. PARABENS PELO TEXTO, cumpañero.
    Que termine logo essa pantomima GLOBosta. A seleção brasileira histórica morreu após a derrota de Sarriá na Copa da Espanha. De lá e até hoje, tudo é apenas business. Chega de pragmatismo titista. Quanto ao jogo de hoje, que importa? O resultado qual seja, nao acrescentará nada de bom ou de ruim a este país e ao povo, ambos destruídos pelo fascismo.

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