O aniversário do poeta Jesus

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Por Edyr Augusto Proença

João e Violeta iam sempre visitar meus pais. Levavam Pedro, seu filho, que mexia em tudo. Eu ainda não me interessava muito pela conversa. Adiante, comecei a ter idéia da dimensão daquele homem que estava na minha casa. Seus títulos, livros traduzidos e lançados internacionalmente, sem nunca deixar o foco em sua terra, a Amazônia e suas encantarias. Foi o último Secretario de Cultura que a cidade de Belém já teve. Depois dele, o nada. Foi Secretário de Educação do Estado e deveria ser muito mais, mas a cidade é cruel e auto destrutiva. Gosto de chama-lo de João. Mas todos o conhecem como Jesus, ou, mais respeitosamente, Paes Loureiro. Orgulhoso, cioso de seus títulos? Nada disso, justo o contrário. João é autor de letra de samba enredo do Quem São Eles, maravilhosa, como sempre. E desfila na ala de compositores. Mais popular que isso…

É parceiro de outros compositores paraenses, com vários discos gravados. Talvez por essa naturalidade, essa facilidade de acesso à sua pessoa, eu tenha tido a insolência, a audácia de pedir-lhe que escrevesse uma introdução ao meu primeiro livro com poemas. Máxima audácia. Um garoto, influenciado pela poesia marginal, pedindo a um dos melhores poetas brasileiros em todos os tempos, uma introdução ao seu trabalho de estréia. Até hoje me dou conta de sua generosidade, que acredito, é sua maior qualidade. Sou muito honrado por isso. Foi meu professor de Ética na Ufpa. Amado e idolatrado por quem desfruta de seus ensinamentos.

Às vezes penso que basta dar um tema qualquer, “copo”, por exemplo, e ficar ali me deliciando horas e horas ouvindo-o discorrer sobre aquilo. Fala pausado, explicado, tornando o que poderia parecer difícil, extremamente fácil. Quando nos encontramos, conversamos como velhos amigos que somos, claro, eu disfarçando a imensa admiração que tenho pela pessoa e pela obra. Privilegiando sua aldeia, alcançou o mundo. Sigo o mesmo caminho em meus livros e o brilhareco que tenho tido.

Na Livraria Fox, ponto de encontro, com apoio da Empíreo, realizamos a Feira Literária do Pará, evento totalmente independente, para divulgar a Literatura feita em nosso Estado. João esteve lá, seja apresentando autores como Adalcinda Camarão, seja como Patrono do evento, uma mínima homenagem a alguém tão grande. E no entanto vejo este homem, cabelos e barba branca, andando pelas ruas de Batista Campos, anônimo, aparentemente só, mas na verdade, acompanhado por um cortejo de seres encantados, deuses, lendas que o seguem em proteção ou, quem sabe, protegidos. No que estará pensando? Na última vitória do Remo ou mergulhado em sua riqueza mental, desenvolvendo um poema que pediu um passeio antes de ser concluído?

Poetas têm idade? Não, claro. A obra é eterna. Mas há uma contagem de tempo, a ser vir muito mais a pessoas comuns, como nós, não aos poetas. Assim, informo que João de Jesus Paes Loureiro está completando 80 gloriosos anos. Vou beija-lo. Vou abraça-lo. Vou reverencia-lo como merece. Vou refletir sobre a força da humildade, daquele que sabe o seu tamanho e está seguro disso. E assim, abre seus braços generosos para o mundo, para a Amazônia, sua floresta, sua gente, matintas, botos acolhendo a todos. Feliz aniversario, João.

(publicado em O Diário do Pará, coluna Cesta em 21.06.19)

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