Flávio Bolsonaro esconde algo ou é o político mais mal assessorado do mundo

Por Leonardo Sakamoto

Flávio Bolsonaro, deputado estadual, senador eleito e primogênito de Jair Bolsonaro, teve seu pedido de suspensão da investigação criminal contra seu ex-assessor e motorista Fabrício Queiroz aceito em caráter liminar pelo ministro Luiz Fux – o responsável pelo plantão do Supremo Tribunal Federal. A suspensão será avaliada pelo relator indicado para o caso, ministro Marco Aurélio Mello quando voltar do recesso do STF, no dia 1o de fevereiro. Convenientemente a data é a mesma em que Flávio assumirá o cargo de senador pelo Rio de Janeiro – a partir da qual terá foro privilegiado.

No ano passado, o próprio Supremo fixou regra para que sejam julgados pela corte casos envolvendo deputados federais e senadores referentes apenas ao exercício do mandato. Contudo, dúvidas sobre o enquadramento dos casos são resolvidas pelo próprio STF – e a defesa de Flávio jogou com isso, pedindo a anulação das provas recolhidas. O ministro Luiz Fux, a propósito, votou a favor da restrição do foro em 2018.

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A repercussão da decisão tornou-se manchete da imprensa e assunto mais falado nas redes sociais desta quinta (17). Flávio recebe críticas da esquerda à direita. Pois, independentemente da origem dos recursos de Queiroz ser legalmente condizente ou moralmente aceitável, esse caso tem demonstrado um profundo desprezo com a transparência, um dos princípios da administração pública.

Politicamente, a jogada pode dar certo. Contudo, do ponto de vista do desgaste de sua imagem, vai deixar marcas. Pois, diante de tudo isso, pode-se dizer que Flávio Bolsonaro tem algo que não quer que venha à público ou é o político mais mal assessorado do mundo. E não digo assessoria em termos queirozianos, mas para política e comunicação.

Pois esse tipo de ação é desastrosa para a imagem do parlamentar e apenas fortalece o discurso da oposição ao governo de seu pai que afirma ser Fabrício Queiroz um laranja da família Bolsonaro e o objetivo de sucessivos adiamentos (e desta decisão liminar do STF) é garantir a posse do senador sem constrangimentos. Pois, uma vez empossado, mesmo com a questão do foro, ele se torna um membro do Senado, que protege os seus. Ainda mais o filho de um presidente da República.

Desde que a polêmica sobre suas “movimentações atípicas” de R$ 1,2 milhão detectadas pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) vieram a público com reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, no dia 6 de dezembro, Queiroz tem evitado prestar depoimento ao Ministério Público, como se sua liberdade dependesse disso.

Chegou a nos presentear com um episódio de “Além da Imaginação”, quando evitor depor ao MP e optou por falar a SBT a fim de dizer que o mais importante só diria ao MP. Na entrevista, um aparentemente saudável Queiroz justificou as ausências por conta dos exames que fez devido a um câncer no intestino. Contou que “faz dinheiro” com rolos – comprando, reformando e vendendo carros.

Operou no hospital Albert Einstein, no início deste ano, um dos mais caros do país – comprovando que a atividade de rolo de veículos deve ser bem lucrativa. Antes, apareceu dançando em um vídeo no hospital, sofrendo crítica por isso Particularmente, não vejo problemas em Queiroz dançar, vejo problema em ele não querer falar. Há coincidências entre datas de pagamentos dos salários pela Assembleia Legislativa do Rio, depósitos na conta de Queiroz feitos por outros funcionários do gabinete de Flávio e saques em dinheiro pelo policial.

Esse tipo de ação é semelhante à prática ilegal de devolução de parte dos salários dos funcionários aos seus chefes parlamentares. Queiroz disse que preferia falar ao MP sobre esse dinheiro, mas que também geria os recursos da família, justificando os depósitos de sua mulher e filhas, que também trabalhavam para o filho do presidente, em sua conta. Uma das filhas saiu do gabinete de Flávio e trabalhou para Jair, na Câmara dos Deputados, também entregando a maior parte do salário para seu pai.

Ela batia ponto em Brasília enquanto aparecia em selfies mostrando seu trabalho de personal trainner no Rio. Quando foi perguntado no SBT sobre o porquê de também ter recebido de outros funcionários do gabinete, afirmou que “em respeito ao MP” prestaria os esclarecimentos à instituição.

Vale lembrar o que o próprio Flávio Bolsonaro postou no Twitter, no dia 8 de dezembro, após o caso vir a público: “Continuo com minha consciência tranquila, pois nada fiz de errado. Não sou investigado. Agora, cabe ao meu ex-assessor prestar os esclarecimentos que se fizerem necessários ao Ministério Público”. Como agora Queiroz vai poder se explicar com a suspensão?

Segundo o Coaf, a futura primeira-dama recebeu R$ 24 mil de depósitos feitos por ele. Jair Bolsonaro afirmou que esses R$ 24 mil se referem a uma dívida pessoal que Queiroz, seu amigo de longa data, tinha com ele. Disse que pediu que a devolução fosse feita para a conta da futura primeira-dama porque ele não tinha tempo de ir ao banco. Flávio Bolsonaro declarou, por sua vez, que o ex-assessor relatou a ele uma “história bastante plausível”, garantindo que as transações não são ilegais.

O Ministério Público do Rio de Janeiro, que estava esperando ouvir Queiroz, sua família e o próprio Flávio Bolsonaro, agora terá que esperar mais ainda devido à decisão do ministro Fux.

Realmente, dou o braço a torcer. Pois, até agora, nem foi preciso mobilizar o tal cabo e o tal soldado.

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