Linha editorial da CNN não se aplica a países que licenciam a marca

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Reportagem de Paula Soprana na Folha de S.Paulo informa que, ao anunciar a presença da CNN no Brasil na segunda-feira (14), Greg Beitchman, vice-presidente de vendas de conteúdo e parcerias da CNNIC, divisão internacional da marca, afirmou que a expansão para o país fazia parte de uma estratégia global. Em nota, disse que o objetivo era “trabalhar com parceiros que pensam da mesma maneira e que enxergam uma clara oportunidade para produtos e serviços de notícias locais da marca CNN”. As diretrizes editoriais do grupo de mídia americano, no entanto, não são automaticamente replicadas a países que obtêm licenciamento para uso de sua marca.

De acordo com a publicação, em março de 2018, o Demiroren, um conglomerado favorável ao governo autocrático de Tayyip Erdogan, na Turquia, adquiriu a Dogan Media. O grupo pertencia a Audy Dogan, um dos homens mais ricos do país. Erdogan acusava os veículos de preconceito contra seu partido político. A Dogan era dona da CNN Turquia, do Kanal D e dos jornais Hurriyet e Posta, todos vendidos. O conteúdo das marcas passou a ser encarado como pró-governo.

Anos antes, em 2009, a mesma mudança editorial foi percebida quando a Dogan foi multada em US$ 2,5 bilhões por impostos não pagos e precisou vender os periódicos Milliyet e Vatan para a Demiroren. Opositores do governo encararam a o ato como uma pressão para abafar as críticas dos veículos ao regime turco. Mesmo antes de Erdogan assumir a Presidência, ainda como primeiro-ministro, a CNN Turquia já demonstrava tendências pró-governo.

Um dos casos que acentuaram essa percepção ocorreu em 2013, quando o canal exibiu um documentário sobre pinguins enquanto mais de 8.000 pessoas protestavam em Istambul pelas liberdades civis. Com a aquisição pelo Demiroren, dezenas de editores e jornalistas dos grupos de Dogan foram dispensados. “A CNN virou mais uma máquina de propaganda do governo”, diz Ilhan Tanir, editor-executivo do Ahval News, um portal dedicado à cobertura de assuntos do país, em Washington. Tanir foi demitido em um dos episódios. À época da compra, no ano passado, Erol Önderoglu, representante da organização Repórteres Sem Fronteiras na Turquia, afirmou que a transação significava “a morte do jornalismo plural e independente na mídia tradicional”.

De acordo com relatório do CPJ (Comitê para a Proteção dos Jornalistas), divulgado em dezembro de 2018, o governo do presidente turco “encerrou a mídia independente” no país. A Turquia, pelo terceiro ano seguido, é o país que mais prende jornalistas. Nos EUA, a CNN tem uma linha editorial crítica ao presidente Donald Trump, completa a Folha.

A CNN tem 36 escritórios editoriais e mais de 1.100 afiliados ao redor do mundo. Sua produção alcança mais de 475 milhões de domicílios.

No Brasil, o canal será programado e operado por uma nova empresa, liderada pelo jornalista Douglas Tavolaro, que deixou a vice-presidência de jornalismo da Record, e pelo empresário Rubens Menin, fundador da MRV Engenharia, maior construtora do país. Tavolaro era tido como braço direito de Edir Macedo, dono da Record e que declarou voto em Jair Bolsonaro e deu a ele espaço em entrevistas.

Em seu discurso de posse, o chanceler Ernesto Araújo citou a CNN como exemplo de influência a ser minimizada. Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, questionou as intenções da CNN ao licenciar sua marca para uma empresa de mídia brasileira.

“Após tantos anos de governo de esquerda, a CNN decide vir para o Brasil num momento em que editoriais de esquerda estão demitindo seus jornalistas. Estranho…”, escreveu.

Procurada, a CNN não havia se pronunciado até a conclusão desta edição.

2 comentários em “Linha editorial da CNN não se aplica a países que licenciam a marca

  1. Ou seja, a linha editorial estará de acordo com as conveniências locais, a reciclagem em usina de lixo do acordo Time/Life com os contornos fundamentalistas que vão de Edir Macedo e seu genro ao governo do capitão. O alvo óbvio é a Venezuela, ignorando a advertência de um diplomata russo aos ‘cabeças quente’ da CIA. O desatino pode ter a Amazônia como cobaia e isto é extremamente preocupante.

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  2. Acertou, amigo Jorge. Mais do que uma esperança de abertura das opções em informação, teremos possivelmente um modelo que dará suporte ao governo bolsonarista, visto que há uma ligação muito forte com o bispo Edir Macedo, ex-patrão do futuro dirigente da CNN no Brasil.

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