Jovem é morto por homofobia na Avenida Paulista

EduardoSakamoto

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

O cabeleireiro Plínio Henrique de Almeida Lima foi assassinado com uma facada em uma das esquinas mais movimentadas de São Paulo, a das avenidas Paulista e Brigadeiro Luís Antônio, na noite desta sexta (21). Ele estava de mãos dadas com o marido e caminhavam com outro casal quando passaram a receber ofensas homofóbicas de dois homens. Após uma confusão, ele foi esfaqueado e não resistiu. Plínio era gay, jovem negro e pobre em um lugar onde as vidas de gays, de jovens negros e de pobres não valem muito…

Não foi a primeira e não será a última vítima da intolerância, do racismo e da homofobia por aqui, claro. Mas, neste momento, muitos indivíduos e grupos de extrema direita que apoiaram a eleição de Jair Bolsonaro sentem-se empoderados para fazerem o que quiserem após sua vitória devido aos discursos preconceituosos do presidente eleito. Acreditam que qualquer ação contra minorias terá a anuência ou pelo menos a complacência do Estado – e estão celebrando isso nas ruas e nas redes. Pressionado a se manifestar durante a campanha, Bolsonaro frisou que não irá tolerar nenhum crime, mas não se apaga anos de declarações preconceituosas com um punhado de frases frias na direção contrária.

Muitos dos envolvidos em casos de violência contra homossexuais – como os dois criminosos foragidos –  colocam em prática o que devem ter ouvido a vida inteira: “bichas” são a corja da sociedade e agem para corromper os nossos valores morais e tornar a vida dos “cidadãos pagadores de impostos” um inferno. Seres descartáveis, que vivem na penumbra e nos ameaçam com sua existência, que não se encaixa nos padrões estabelecidos pelos “homens de bem”. Pessoas que se parecem conosco, trabalham no mesmo local, têm o mesmo gosto para bares e viagens, vestem-se como nós e, portanto, precisam ser destruídos porque são a prova de que nós podemos também ser “corrompidos”

Como já disse aqui, líderes políticos, religiosos fundamentalistas, comunicadores e humoristas dizem que não incitam a violência. Mas não são suas mãos que seguram a arma, mas é a sobreposição de seus argumentos e a escolha que fazem das palavras ao longo do tempo que distorce a visão de mundo das pessoas e torna o ato de atacar banal. Suas ações e regras redefinem, lentamente, o que é ética e esteticamente aceitável, visão que depois será consumida e praticada por terceiros. Estes acreditarão estarem fazendo o certo, quase em uma missão civilizatória ou divina, e irão para a guerra.

Outra vítima, esta fatal, dessa loucura foi o compositor e mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, o Moa do Katendê, de 63 anos, assassinado com 12 golpes de faca após ter defendido Fernando Haddad em uma discussão sobre as eleições presidenciais, por um defensor de Jair Bolsonaro, num bar na periferia de Salvador, na madrugada do dia 8 de outubro. O criminoso voltou até sua casa, pegou a arma para matar a vítima. O inquérito do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, encaminhado ao Ministério Público, afirma que a morte foi motivada por briga política. Doze golpes.

Por fim, a minha timeline passou o ano abarrotada de histórias de mortes e violência com relação com racismo, homofobia, transfobia, discriminação social e intolerância política.

Em 2018, grupos religiosos fundamentalistas reafirmaram, por exemplo, a defesa da restrição do conceito de família a um homem, uma mulher e filhos. Segundo a família de Plínio, ele e o marido estavam planejando adotar uma criança. Não seriam família, portanto, mas abominação.

Em 2018, grupos religiosos fundamentalistas reafirmaram, por exemplo, a defesa da restrição do conceito de família a um homem, uma mulher e filhos. Segundo a família de Plínio, ele e o marido estavam planejando adotar uma criança. Não seriam família, portanto, mas abominação.

O mais intrigante é que, como já disse aqui, tenho a certeza de que se Jesus de Nazaré, o personagem histórico, vivesse hoje, defendendo a mesma ideia central presente nas escrituras sagradas do cristianismo (que, por ser tão simples, não é entendida por muitos cristãos) e andando ao lado dos mesmos párias com os quais andou, seria humilhado, xingado, surrado, queimado, alfinetado e explodido. Chamado de defensor de mendigo e de sem-teto vagabundo. Olhado como subversivo, alcunhado como agressor da família e dos bons costumes. Violentado e estuprado. Rechaçado na propaganda eleitoral obrigatória em rádio e TV. Difamado nas redes sociais. Transpondo para os dias de hoje no Brasil, talvez Jesus fosse negro, pobre, gay. E levaria porrada daqueles que se sentem ungidos pelo divino.

Se houver um Deus – e eu duvido muito que exista – ele morre de vergonha de mostrar a sua criação humana para os amigos. Não por causa daqueles que tocam a vida da forma que os faz mais felizes. Mas por conta dos que matam e matariam em seu nome. E, não nos enganemos: eles são muitos. E, para vários deles, falta apenas uma oportunidade.

Como estar armado na esquina da Paulista com a Brigadeiro, numa sexta à noite, com o peito estalando de ódio.

4 comentários em “Jovem é morto por homofobia na Avenida Paulista

  1. Só o fato de Bolsonaro entrar no poder, já dá em muitas pessoas a sensação de superioridade: finalmente neste país, após um atraso político tendo a esquerda no poder, o que elas pensam e consideram como modelo social e político será aplicado e aceito como normativo. Por isso votaram nele, e não por intenções pacíficas, mas pela possibilidade de poderem armar-se, seja qual for a arma. O discurso de Bolsonaro é contraditório porque já mostrou sua infâmia, e tenta, talvez por isso, minimizar seu conteúdo e intenções falando em tolerância e pacificar o país, mas ele mesmo já fez gestos de empunhar uma arma como também inseminou ódio à esquerda e às minorias. Se ele diz que não vai tolerar nenhum crime, isto implica em imparcialidade, o que não condiz com o seu carácter autoritário. Para transparecer um ar de justiça e igualdade com o fim de evitar graves confrontações sociais – que sem dúvida virão – será pressionado pelos seus seguidores, pois uma coisa é certa: o povo aprendeu a cobrar de seus governantes.

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  2. Aproveito para relatar uma conversa com um amigo que não votou em Haddad por este defender uma proposta de política de cotas para homossexuais. Este mesmo amigo acreditou na cretinice da sexualização infantil pela educação sexual escolar e nas mamadeiras de piroca. Ouvi o velho discurso do mimimi e do vitimismo. É incrível como essas coisas tomam a agenda política de um país que está mais interessado na sexualidade do vizinho do que na continuidade da política de seguridade social só porque se sente prejudicado por não ter acesso, porque não precisa, ao serviço que previne o risco social.

    É preciso explicar às pessoas que o Bolsa Família, por exemplo, tem critérios de acompanhamento porque se trata de um recurso público. Não é um programa de alimentação ou de saúde, mas um programa de distribuição de renda com o objetivo de ajudar as famílias socialmente mais vulneráveis. E como observar essa vulnerabilidade social? As famílias socialmente vulneráveis são aquelas mais afastadas de serviços públicos e do convívio social, aqui entendido basicamente como trabalho, consumo e acesso a serviços públicos fundamentais. As famílias que não têm renda e não participam da economia vendendo ou comprando produto ou serviço e nem têm acesso a serviços públicos são famílias mais vulneráveis a criminosos, à inflação, ao desemprego, às doenças, etc. Quando tudo vai mal na economia, vai muito pior para eles…

    Mas uma outra forma de isolar pessoas do convívio social é o preconceito, porque o preconceito pode afastar pessoas da oportunidade de ter um trabalho bem remunerado, estudo, atendimento médico e até de andar tranquilamente na rua. Evidentemente, o preconceito aumenta o custo social. Toda vez que um homossexual é agredido há o gasto com atendimento médico e também um gasto contra o agressor pela polícia, judiciário, etc. Tudo isso é gasto público! É prejuízo! Como o preconceito é algo irracional, a irracionalidade gera um custo que poderia ser evitado pela razão. É por isso que se investe em educação em trânsito, para que se evite atendimento médico especializado e caro para poucos e se invista mais para todos. É por isso que toda forma de preconceito é muito mau para a sociedade. Não quero monetarizar preconceitos e nem transferir a discussão do preconceito para fora do humanismo, mas informar que enquanto discutimos estamos pagando caro por sermos idiotas.

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  3. Estou de acordo com você; excelente argumento contra preconceitos e agressões e o que isto também materialmente custa à sociedade. Por outro lado é um projeto tão refinado, que sociedades do primeiro mundo também o almejam. Você acredita nesse projeto, eu também. Um abraço da Mariluz.

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