O médium, a pastora e o capitão messias

Por Edir Macedo/Facebook

Por Céli Pinto (*)

Os três personagens do título podem ser analisados partir de várias entradas: caráter; saúde mental; charlatanismo político. Mas vou deixar a tentação de falar deles de lado, porque estou convencida de que o mais importante é entender as razões do sucesso e da popularidade desses personagens no Brasil do século XXI.

Por que grande quantidade de pessoas, de diferentes origens sociais, culturais ou ideológicas, iam até Abadiânia em busca de solução para seus problemas? Por que imensos templos estão lotados, ouvindo pessoas descontroladas que ameaçam as congregações com o demônio, se dizendo ungidas por Deus para com ele ter interlocução direta? Por que 56 milhões de brasileiros e brasileiras votaram um em candidato para a presidência da República que nunca disse a que veio e, nas raras vezes em que se manifestou, falou de violência e de cortes de direitos que atingem os mais pobres, os menos protegidos, as mulheres, os negros, os sem terra, os indígenas, a população LGBT, todos e todas que dependem de políticas sociais para sobreviver?

Alguma razão explica a facilidade com que o médium, a pastora e o capitão messias interpelam grandes massas com tanta facilidade? Explicar por que as pessoas buscam e acreditam no médium talvez possa ser um modelo para entender a congregação que ouve a pastora e os que elegeram o capitão messias. As pessoas que chegam ao médium podem, em sua imensa maioria, ser divididas em dois grandes grupos: ou estão em grande sofrimento psíquico ou com uma grave enfermidade que as deixam muito próximas da morte. Nas duas situações há uma desorganização importante nos discursos que lhes organizavam a vida. Antes de chegarem ao médium, foram sujeitos de discursos amorosos, de discursos da meritocracia, da vida saudável. Mas, em um certo momento, pode haver um radical desencaixe discursivo: as pessoas não se sentem acolhidas como sujeitos e como agentes de nenhum desses discursos. O mesmo acontece com os que são acometidos de graves enfermidades, quando enfrentam a finitude, e a ciência médica não mais lhes garante a vida. Como todos vamos morrer, parece óbvio que, em um certo momento, a ciência não nos garantirá a vida, mas isto fica muito longe do razoável, quando atinge a subjetividade de cada um.

Este sujeito desencaixado, que não encontra lugar para sua sobrevivência psíquica ou da própria vida nos discursos que fizeram sentido ao longo de sua existência, identifica no discurso místico, do milagre, do transcendental, a possibilidade de reordenar a vida e reconstruir o seu lugar de sujeito. E isto é conseguido pelas mãos do médium. É tão forte este tipo de discurso que até os mais céticos, frente a um tipo desclassificado como João de Deus, às vezes não têm coragem de apontar a fraude.

O mesmo desencaixe discursivo parece explicar as grandes congregações pentecostais, este evangelismo de resultados que prolifera nas cidades brasileiras. Nesta circunstância, às crises desestruturantes do eu psíquico soma-se a crise dos discursos que relacionam o pertencimento de cada um à sua comunidade de sentido.

Os fiéis são migrantes de zonas pobres ou rurais que estão desenraizados nas grandes cidades; são pais, mães e filhos sem ferramentas para enfrentar novos arranjos familiares e novas formas de vida; são trabalhadores e trabalhadoras para os quais o mundo do trabalho fecha as portas. Os discursos pentecostais do bem contra o mal, a possibilidade da redenção no encontro com o divino em um árvore frutífera livra os crentes da ameaça de topar com o poderoso satanás a cada esquina e reorganizada assim a vida, dando uma certeza para cada ato da vida, nas relações afetivas, na família, no trabalho. O mundo complexo e discursivamente anárquico é trazido à transparência através de certezas expressas em mantras repetidos em transe em grandes templos, sob o comando de algum iluminado que diz ter íntima relação com o divino.

Estes momentos místicos, representados pelo médium e pela pastora, são recorrentes na história da humanidade e dizem muito da relação dos humanos com sua própria condição de seres conscientes de sua finitude e insignificância frente ao tempo do universo. A novidade é o comércio da miséria humana sob a forma capitalista. Médiuns, pastores e outros quaisquer, capazes de articular o discurso da esperança, facilmente se tornam parte da classe dos novos milionários do capitalismo financeiro global, pessoas com imensas fortunas que não têm qualquer relação com o sistema produtivo, mas são parasitas que podem ser agrupados sob o rótulo de celebridades.

Mas o fenômeno da implosão discursiva não para no surgimento do médium e da pastora, ele também dá pistas para explicar fenômenos como o capitão messias, eleito presidente do Brasil.

Antes de avançar no argumento, uma rápida digressão. Seria cômodo atribuir a vitória do capitão ao crescimento mundial de uma ideologia política de extrema-direita. Mas, mesmo sem desconsiderar o cenário internacional, as questões internas apontam para muitas possibilidades explicativas, entre elas a que se relaciona, por décadas, ao êxito do médium ou à ascensão da pastora.

De 2013 a 2018, o Brasil viveu um continuo esgarçamento do conteúdo do discurso que lhe deu sentindo desde a redemocratização na década de 1980. Das chamadas jornadas de junho, em 2013, às eleições de 2018, um conjunto de acontecimentos estraçalhou os discursos políticos que davam sentido à jovem democracia brasileira, transformando-os em centenas de fragmentos dispersos, sem articulação. Alguns acontecimentos se destacam do conjunto: a memória recente dos escândalos de corrupção que envolveram os governos Lula desde 2005 e minaram a capacidade de interpelação do discurso petista; a ruptura do PSDB com o pacto democrático, não aceitando o resultado das eleições das urnas em 2014 e liderando o movimento que provocou a queda da presidenta Dilma Rousseff em agosto de 2017; a criminalização da política através da operação Lava Jato, que combinou o estrelismo de um juiz e alguns procuradores e com a transformação de uma figura execrada na história brasileira em herói: o delator.

De um país com dois partidos muito bem estruturados, o PT e o PSDB, que se alternavam na presidência da república, com partidos de centro circulando ao redor dos grandes e pequenos partidos nos dois extremos que montavam o quadro, o discurso político brasileiro se reduziu a um amontado de ladrões disputando as melhores fatias das riquezas nacionais. O resultado mais pungente foi a desqualificação da política e a morte do sujeito político, o eleitor da democracia, que se forjara desde a década de 1980.

Nada é mais forte para descrever este sujeito perdido do que fotos das manifestações de rua, quando frequentemente se pode ver um cidadão sozinho, com um cartazete feito à mão em que está escrito: “Eles não me representam”. Estas circunstâncias asseguram as condições de emergência ótimas para o discurso simplificador, que reorganiza o sujeito a partir de consignas violentas, interpelando os sentimentos mais emocionais possíveis, de vingança, de medo à diferença, trazendo para a linha de frente militares e pastores, revivendo medos atávicos da população brasileira (como o contra o comunismo, seja isto o que for na cabeça de cada um). Prometendo morte e cadeia para contraventores que provocam a violência urbana ou roubam os cofres públicos, o capitão messias interpela a população através do discurso da ordem, que parece colocar cada significado em seu lugar, sem deixar possibilidade para a dúvida, desejando convencer a todos de que estaremos longe do mal para sempre.

O médium, a pastora e o capitão messias são as respostas à desorganização discursiva frente à morte, a solidão, a descrença nas soluções políticas. Todos organizam sujeitos em crise, todos têm soluções mágicas e fáceis. Todos contam com a benevolência das instituições estabelecidas, com a boa vontade de muitos que nem creem no médium, na pastora, ou no capitão messias.

(*) Professora Titular do Departamento de História da UFRGS.

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