Nos bastidores do rock

1331645423

Escritório da Atlantic Records em Nova York, primeiros dias do mês de setembro de 1971. De um lado o co-fundador da gravadora, Ahmet Ertegun. Do outro, o guitarrista e o manager de uma das bandas do selo, que estavam na cidade para um show que aconteceria no Madison Square Garden alguns dias depois. Preenchendo a mesa, os representantes legais dos dois lados.

O motivo desta tensa reunião era a capa do disco conhecido pelo número de catálogo Atlantic 7208, o quarto álbum do Led Zeppelin. Peter Grant, o temido manager do Led Zeppelin, informa Ertegun que o LP só será lançado se o desejo de seu guitarrista, Jimmy Page, for atendido: colocar o álbum nas lojas sem título e sem o nome da banda na capa. Ahmet Ertegun surta, balança as mãos para o ar e grita para todo mundo ouvir: “Como vocês querem lançar o disco sem o nome da banda na capa? Isso é suicídio!”.

Phil Carson, então o chefão da Atlantic na Inglaterra, recorda o que se passou naquela sala: “A Atlantic falou: ‘Isso é loucura, o disco não vai vender’. Mas Grant respondeu na lata: ‘Podem colocar o LP dentro de um saco marrom que, mesmo assim, ele vai mudar a vida das pessoas’”. Peter Grant, cuja reputação aterrorizava a todos na indústria, deixou claro que Ertegun não teria acesso às fitas masters se a Atlantic não atendesse as solicitações de Jimmy Page. “No final da reunião eu pedi a palavra e falei: ‘Confiem em mim, as pessoas vão encontrar o disco e o comprarão’. É preciso lembrar que, naquela época, o Led Zeppelin era responsável por algo entre 20% e 25% do total de vendas da Atlantic. Meu trabalho era garantir que a banda continuasse satisfeita e gravando álbuns de sucesso”, completa Carson.

O uso dos quatro s

ímbolos como uma espécie de título do quarto álbum do grupo agregou ainda mais mistério à história da banda. O significado de cada um deles ainda hoje divide opiniões entre os fãs. Os símbolos foram apresentados para a mídia, primeiramente, através de uma série de teasers veiculados nas publicações da época antes do lançamento do álbum, com cada anúncio apresentando apenas um dos símbolos que fariam história no próximo disco do grupo.

Os símbolos utilizados por John Paul Jones e John Bonham foram retirados do livro The Book of Signs, de Rudolph Koch. O de Jones, um círculo invadido por três formas iguais, representa uma pessoa que possui, ao mesmo tempo, confiança e competência (ele é o mais difícil de desenhar com precisão). Os três círculos do símbolo de John Bonham representam a tríade formada por pai, mãe e filho. Ele também pode significar – vide a paixão que o baterista tinha pelas bebidas alcoólicas – a logo da cerveja Ballantine.

O de Robert Plant foi, ao que parece, desenhado pelo próprio vocalista, inspirado em um símbolo que Plant viu no livro The Sacred Symbols of Mu, de Colonel James Churchward. A pena dentro do círculo representa a pena de Ma’at, a deusa egípcia da justiça, e é o emblema de um escritor. “A pena é um símbolo presente em todas as formas de filosofia. Ela representa, por exemplo, as tribos de Caras Vermelhas dos Estados Unidos”, explica o próprio Plant.

O símbolo de Page, o enigmático “ZoSo”, tem várias teorias sobre a sua origem. Estudiosos dizem que ele surgiu em 1557 em representação ao planeta Saturno. Também se observou de que ele é constituído pelos símbolos astrológicos de Saturno, Júpiter e, talvez, Marte e Mercúrio. O mesmo desenho havia aparecido, em uma forma praticamente igual, em um raro dicionário de símbolos do século XIX chamado Le Triple Vocabulaire Infernal Manuel du Demonomane, de Frinellan, um pseudônimo utilizado pelo escritor Simon Blocquel, publicado em 1844. “Meu símbolo é sobre invocação e ser protegido. Isso é tudo o que eu vou falar sobre ele”, declarou Page ao jornalista Mick Wall em 2001.

Independente de seus significados, estes quatro símbolos se tornaram sinônimos dos músicos do Led Zeppelin, e ao longo dos anos foram sendo adaptados por Plant, Page e Jones em seus respectivos trabalhos solo. Mais recentemente Plant voltou ao tema, utilizando uma forma adaptada do seu na contracapa do álbum Band of Joy, lançado em 2010. Já Page colocou o ZoSo na capa da autobiografia fotográfica Jimmy Page by Jimmy Page, de 2011.

Lançar um novo álbum sem o “Led Zeppelin” na capa (e também na lombada na lateral do disco) era um gigantesco “foda-se” para todos que acusavam a banda de ser apenas um grande hype. Incomodado com os comentários negativos publicados em grande parte da imprensa desde que a grupo havia surgido no final de 1968, Page queria provar que a música do quarteto poderia vencer pelos seus próprios méritos, sem o apoio dos nomes envolvidos. “A imprensa não me incomodou até o terceiro disco”, contou o guitarrista em entrevista para Steven Rosen, da Guitar Player, vinte anos depois. “Já éramos uma banda estabelecida, e a imprensa continuava afirmando que éramos apenas um hype. Foi por essa razão que o quarto disco saiu sem título. Era um protesto sem sentido, eu sei, mas nós queríamos provar que as pessoas não compravam os nossos discos pelo nome estampado no capa, mas sim por causa da música”.

“O gênio de Jimmy Page está no fato de que as pessoas sempre se esquecem das atitudes contra o sistema que ele tinha. Coisas como lançar discos sem qualquer informação na capa. Para mim, isso era mais punk do que os Sex Pistols assinando um contrato em frente ao Palácio de Buckingham”, afirmou Jack White, um grande fã da banda, em 2006.

Punk ou não, a coragem e as convicções do Led Zeppelin não foram mais questionadas a partir do momento em que o tal disco sem título – também conhecido como Led Zeppelin IV, ZoSo, Runes ou Four Symbols – se transformou no álbum mais vendido da banda (atualmente, ele ocupa a décima-segunda posição entre os discos mais vendidos de todos os tempos). Se os três primeiros LPs haviam transformado os caras do Led em estrelas, o quarto álbum os deu status de superestrelas. Em menos de dois anos eles eram, inquestionavelmente, a maior banda de rock do planeta.

Combinando o peso de Led Zeppelin II com o lado acústico de Led Zeppelin III, o álbum se equilibrava entre blues rock selvagens (“Black Dog”) e devaneios hippies (“Going to California”), rock retrôs (“Rock and Roll”) e mandolins medievais (“The Battle of Evermore”). E tinha também um épico de oito minutos intitulado “Stairway to Heaven”. “A música é como um caleidoscópio, e eu acho que esse disco em particular nos fez ir além em todos os sentidos”, declarou Robert Plant a NME na época.

“No meu ponto de vista, é a melhor coisa que nós já fizemos”, falou John Bonham à Melody Maker. “Jimmy foi absolutamente incrível neste disco”. “Depois deste álbum, ninguém mais nos comparou ao Black Sabbath”, conclui John Paul Jones.

O quarto álbum do Led Zeppelin teve início um ano antes da fatídica reunião com Ahmet Ertegun, na visita anterior da banda a Nova York. Promovendo Led Zeppelin III, o show final da sexta turnê norte-americana do grupo também aconteceu no Madison Square Garden, em um estado de quase exaustão completa depois da banda ter cruzado o país de costa a costa e conquistado de vez o público americano. “Estávamos fartos de viajar pelos Estados Unidos. Fizemos isso por dois anos”, declarou Jimmy Page em 1973.

Em 19 de setembro de 1970 a banda fez dois shows no mesmo dia no Madison Square Garden. Os músicos estavam à beira de um colapso e não viam a hora de voltar pra casa. Além disso, as más notícias cruzavam o Oceano Atlântico com a informação de que Jimi Hendrix havia sido encontrado morto em Londres um dia antes, deixando o clima pesado durante os dois shows. Depois da quarta música, “Bring It On Home”, Robert Plant homenageou Hendrix, que havia declarado algum tempo antes que John Bonham “tinha um par de castanholas no pé direito”.

O baterista sentia saudades de sua esposa Pat e de seu filho Jason, então com 4 anos de idade. “Nós fizemos três turnês no último ano e, no final, decidimos dar um basta naquilo”, declarou Bonzo ao jornalista Chris Welch, da Melody Maker. “Nós trabalhamos muito em um espaço muito pequeno de tempo, estávamos exaustos. Tínhamos ofertas para continuar na estrada tocando na França e pelos EUA, mas recusamos. Precisávamos dar uma parada. Havíamos dado duro, e Peter, provavelmente, tinha trabalhado mais do que todos nós juntos. Nós gostamos do que fazemos, mas precisamos dar uma parada antes de ficarmos velhos”. A pausa do grupo fez surgir rumores de que a banda estava prestes a se separar.

Grant não estava na sua melhor forma física, e viu nessa parada uma oportunidade para fazer algo sobre o seu peso, que só crescia. Assim, o manager da banda foi fazer um tratamento em um spa. Ao mesmo tempo, Page e Plant recordaram da energia de uma pequena casa em South Snowdonia, no País de Gales, onde haviam passado um tempo na primavera anterior, e decidiram retornar ao local, batizado de Bron-yr-Aur, em uma espécie de retiro para atiçar a criatividade. A única companhia da dupla na viagem foram os roadies Sandy MacGregor e Henry “The Horse” Smith.

1331645752

“Pegamos um furgão branco e fomos dirigindo até Bron-yr-Aur”, recorda Smith, um americano que havia trabalhado ao lado de Richard Cole nas turnês norte-americanas do Led Zeppelin e do Jeff Beck Group. “Era como estar acampando. Jimmy usava galochas e cardigãs, além do famoso chapéu que ele usou na edição de 1970 do Bath Festival. Era um look bem folk. De certa maneira era meio apavorante para eles. Jimmy era um cara da cidade, e Plant era o típico inglês. Ele havia estado em Bron-yr-Aur quando criança, e recordava de lá com um lugar seguro. Foi interessante vê-los trabalhar em um ambiente de serenidade”.

Uma casa de pedra localizada no topo de uma pastagem de ovelhas, Bron-yr-Aur passava uma ótima sensação, conforme relembra Smith: “Se você queria escrever você precisava se afastar das pessoas. E aquele era um ótimo lugar para ficar isolado porque não havia, literalmente, ninguém por perto. De vez em quando as ovelhas entravam dentro da casa enquanto Jimmy e Robert estavam trabalhando em uma canção. Várias vezes eu e Robert caminhávamos pela propriedade e sentávamos na grama para conversar. Falávamos sobre as canções que estavam surgindo e os temas que as letras explorariam. Me lembro de falar sobre os pequenos animais que caminhavam pela grama e o que eles estavam fazendo lá”.

Tradução de Ricardo Seelig (matéria publicada originalmente na Classic Rock 161, de agosto de 2011)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s