Filho de Edmundo transforma abandono parental em arte

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Por Nathalí Macedo, no DCM

Sempre que ouço alguém ensaiar um “o que falta no cinema brasileiro é…” sei que lá vem lorota, e provavelmente só o que falta é que o sujeito em questão consuma cinema brasileiro. Desde Cidade de Deus a safra de jovens cineastas que transvêem o mundo através do cinema não para de brotar.

O filme “Todos nós cinco milhões”, de Alexandre Mortágua, por exemplo, toca em um tema sensível e necessário nesses tempos: o abandono paterno. O filme é um doc-ficção, seguindo uma tendência mais ou menos recente do cinema brasileiro, que mistura ficção e realidade.

O realismo do filme fica por conta da bagagem empírica do diretor, que foi abandonado pelo ex-jogador de futebol Edmundo aos quatro anos de idade, teve a paternidade reconhecida só na fase adulta e até hoje não mantem qualquer contato com o “pai”.

Alexandre é formado em artes visuais, gay e filho do ex-atleta com a modelo Cristina Mortágua. Além do abandono paterno, ele teve dificuldades em ser aceito pela própria família em razão de sua orientação sexual. “Minha mãe promoveu até um princípio de exorcismo para me forçar a deixar de ser gay”, disse à IstoÉ.

Segundo Alexandre, seus pais se separaram quando ele tinha quatro anos, e Edmundo nunca mais voltou a aparecer, só reconhecendo a paternidade por força judicial. Em sua defesa, o ex-atleta diz que “ele [Alexandre] me liga para falar da pensão, mas nunca no meu aniversário ou no dia dos pais”.

Senta lá. 

Quer dizer que o pai ausente ainda tem a pachorra de se fazer de vítima? Quem, afinal, ia querer saber de um pai que nunca esteve nas festinhas da escola, não estava lá nas quedas no parquinho, nunca foi porto seguro na adolescência e preferia fingir que o próprio filho não existia? 

Alexandre transformou sofrimento em arte – uma das coisas mais bonitas que um ser humano pode fazer em sua efêmera existência – nesse filme que mistura depoimentos de jovens que sofreram abandono paterno a cenas de ficção que Alexandre construiu a partir de sua própria experiência, e é tão necessário quanto o debate que propõe: em um país com mais de cinco milhões de crianças sem o nome do pai no registro de nascimento, abandono paterno é um tema urgente. 

Além do abandono civil e material, o abandono afetivo é frequentemente perdoado pela família tradicional brasileira. Em pleno Século XXI, a sociedade aceita a exclusão do filho fora do casamento como natural, porque considera natural que o homem fuja à sua responsabilidade de pai – mas mãe que cai no mundo e deixa o filho pra trás? VADIA! Antes de opinarem sobre aborto, por exemplo, os homens deveriam ver mais filmes como “Todos nós cinco milhões” e levar o tema pra a rodinha de amigos. Por ora, é o que lhes cabe. 

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