
Por Mário Miranda de Albuquerque (*)
Imaginem esse conflito – torcer contra /torcer a favor – dentro das prisões, entre os presos políticos, os que sobreviveram às torturas e assassinatos, corpos e almas massacrados, em plena ditadura, o futebol e a canarinha querida claramente manipulada pela máquina de propaganda do regime, tempos de”Brasil : Ame-o ou deixe-o”.
Discussão acalorada. Coletivo dividido, mas ninguém propôs votação. Não era assunto para tal, delicado, mexia com sentimentos e pensamentos complexos demais. Cada um livre pra decidir. A maioria inclinada a torcer pró, nem que fosse “torcer criticamente”.
No limite, o temor da direção penitenciária jogar a massa carcerária contra nós, causar até um massacre, talvez. Quem torcesse contra, o fizesse sem alarde. Perigoso. Quando a bola rolou… Bem, quando a bola rolou quase ninguém se segurou.
Os gritos de nossa torcida se misturaram e se diluíram no caldeirão da prisão, no raro momento em que nos transformamos num só povo.
(*) Preso político por quase 9 anos
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