Conviver em grupo é conviver consigo

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POR CLARISSA FERREIRA, no Sul21

Nos últimos dias tive a oportunidade de conviver com amigos e pessoas que admiro, seja pela forma com que se relacionam com o mundo ou como se comunicam com ele. Concluo que estar em grupo é um grande aprendizado sobre si. Tal fato fez refletir como a sociedade atual – modelo fogão de apenas uma boca – nos fazem desconectados em demasia das demais pessoas, do convívio diário com o coletivo e como isto leva diretamente ao afastamento de nós mesmos. Viver em grupo é reação momentânea, não admite ensaio tampouco aguçada reflexão. Apenas ações fluidas, que se tornam espontâneas pela pessoalidade das relações.

Como uma vivência artística entre pares – muito maior do que a palavra férias seria capaz de abarcar – viver em grupo no litoral do Uruguai por cerca de dez dias trouxe novos insights. A experiência teve ares de um congresso, uma oficina ou de uma reciclagem artística-terapêutica. Ter a oportunidade de discutir sobre estética, mercado e criação, surte efeito grande no saldo das novas ideais, assim como contar sobre seus planos ou como foi seu ano renova os créditos para o que vem. A convivência diária ainda nos permite a intimidade, uma libertação para o campo das ideais que quando expressas livremente nos tornam poetas, filósofos, teóricos ou como em muita das vezes, comediantes.

Neste contexto, a canção foi e é a ferramenta de expressão predominante, o que acredito que tenha contribuído muito para a imersão em si através dos outros. Versos melodicamente montados e amontoados que contam histórias, declaram tratados, opinam, se expõem, falam de pessoas, sobre pessoas e para pessoas – acabam por tocá-las e transformá-las. A autoria levada a sério como algo que nutre o ouvido e dá sentido. Tocada pelo que o que significa culturalmente a função ritualística das rodas de música e seu poder de levar à introspecção e reflexão, minha caneta tornou-se um para-raio ou uma antena para captar as aprendizagens que o caminho mostrou. Sou levada a pensar sobre o som e o ritmo das palavras, sobre a função da introdução na canção como um lapso de tempo que pede atenção, do refrão que une vozes – no que toca e o que me toca.

Aprendizados teóricos sociológicos recebem explicações práticas e empíricas também neste contexto. O encontro de diversos indivíduos na grande maioria atuantes do meio artístico, localizados em diversos continentes, faz pensar como realmente o mundo configura-se em micro estruturas, micro sociedades, que se constroem como uma rede que liga diferentes pontos, envolvidas por mesmos paradigmas, e mesmas escolhas estéticas. Neste contexto as questões de identidade são sutilmente exibidas, por mais que esta identidade transnacional seja a predominante. Os sotaques, repertórios reconhecidos, piadas compreendidas por seus comuns compatriotas, aos “Fora Temer” que nos unem como nação, e códigos sonoros que demonstram significado são ações que remetem a pensar quem somos, em nosso território – geograficamente e metaforicamente falando.

Chegamos ao fim da viagem. Voltamos a nossas caixas, nossas verdades individuais sobre os outros e sobre nós. Que saibamos levar um pouco de coletividade para a cidade. Que consigamos sintonizar por osmose nas boas inspirações, ouvir e ver – contemplar. Aproveitar e observar as pessoas, os lugares, a vida – como a nós. Pessoas são espelhos da nossa subjetividade. Acho que no fim somos todos a mesma coisa.

(*) Clarissa Ferreira é violinista, doutoranda em Etnomusicologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, professora substituta do curso de Música Popular da UFRGS e autora do blog Gauchismo Líquido. Treina poesia em prosa (êta loca brincando com as palavras), faz uso de referências vastas, de Guattari à Jout Jout, e aprende muito enquanto escreve.

(Foto: Guilherme Santos/Sul21)

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